Arquivo pessoal
Arquivo pessoal
Conteúdo Patrocinado

Boa memória é consequência de bons hábitos

Neurocientista ressalta a importância de uma vida equilibrada e da atenção ao presente

Especial Dia Mundial da Saúde, Media Lab Estadão
Conteúdo de responsabilidade do anunciante

07 de abril de 2021 | 08h00

Aos 38 anos, a psiquiatra e neurocientista Natália Bezerra Mota é uma das cientistas brasileiras bastante reconhecidas no País e no exterior. Foi indicada para o prestigiado Nature Research Award, concedido pela revista Nature, pelo desenvolvimento de um método que usa computadores para identificar sofrimento mental na fala dos pacientes – o que contribui, por exemplo, para o diagnóstico precoce de desordens como a esquizofrenia. Também tem usado a tecnologia para a análise de relatos de sonhos, em busca da melhor compreensão de como ocorre o processamento da memória durante o sono. Formada em Medicina, com residência em Psiquiatria e mestrado e doutorado em Neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – centro de referência nessa área –, Natália está fazendo pós-doutorado pelo Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O que é mais importante em relação à memória: a genética ou os hábitos?

Ambos são importantes. Só que, em relação à genética, não há muito o que fazer. É importante que você olhe para a sua constituição e o histórico familiar, para tomar consciência de padrões que são fatores de risco, mas onde podemos atuar de verdade é na adoção de hábitos saudáveis. Alimentação adequada, rotina de sono restaurador e atividades físicas contribuem para o equilíbrio físico e mental, incluída a memória. Todo ser humano nasce com um determinado potencial, mas atingir esse potencial depende do que cada um vai fazer ao longo da vida. Levando-se em conta esse contexto, boa memória é consequência de bons hábitos.

Qual o papel dos exercícios específicos para a memória, como palavras cruzadas?

Ajudam bastante, mas também devem fazer parte da vida cotidiana. Isso já acontece em grande medida, desde cedo. Aprender a ler é um grande exercício de memória, por exemplo. A criança associa símbolos gráficos a sons. Não se trata de um processo natural, e sim de uma tecnologia humana desenvolvida para que pudéssemos transferir a um substrato físico boa parte das informações que guardamos da nossa cultura. Antes essas informações eram transmitidas oralmente, o que também exigia um grande treinamento da memória.

Você tem dois filhos e uma enteada com idades entre três e dez anos. Como mães e pais podem agir hoje para que as crianças tenham uma boa memória no futuro?

Estou sempre tentando demonstrar que há uma integração profunda entre corpo e mente. Eu medito na frente das crianças, faço ioga, e sempre as convido a participar. Mesmo que, por enquanto, elas raramente participem, o exemplo está ali. Da mesma forma, mantemos em casa um padrão de alimentação saudável. De vez em quando eu libero um “dia dos doces”. Mas elas já percebem os efeitos do açúcar no corpo e no humor – o quanto ficam mais indispostas e irritadiças, implicantes umas com as outras. Aliás, foi bem curioso que outro dia elas se deram conta, sozinhas, de que o excesso de telas provoca efeitos semelhantes.

Falando em telas, muito se discute sobre os efeitos dos jogos de computador. Há quem diga que são bons para a memória. Qual a sua visão a respeito?

Só mais para a frente vamos entender o impacto da tecnologia no cérebro e no comportamento. Certamente há várias estratégias de gamificação que são positivas como processos associativos para as crianças. Todo mundo que já teve um bebê sabe o quanto eles precisam de repetição, e o computador pode proporcionar alternativas melhores do que ficar vendo os vídeos da Galinha Pintadinha um atrás do outro. Mas também há jogos com conteúdo prejudicial, que banalizam e estimulam comportamentos danosos, como a violência, a competição e o individualismo. Nesse ponto, mais uma vez, é fundamental que os adultos mantenham um olhar crítico e atento sobre o que os filhos estão consumindo.

Por que dormir bem é fundamental para a memória?

É durante o sono que a gente processa as memórias que adquire no dia a dia e elimina as toxinas que vai acumulando ao longo do processamento mental. Pesquisas vêm demonstrando que metabolizamos as memórias de forma semelhante ao que nosso corpo faz com os alimentos. Ficamos com o que é importante e descartamos o que não vai ser benéfico. No caso da memória, o descarte pode levar em conta também a carga emocional. É importante atenuar informações que trazem toxicidade ao aparato mental, para não ficarmos o tempo todo lembrando de eventos que provocam sofrimento. Os mecanismos dos sonhos também estão relacionados a esse processo. É uma estratégia para processar e codificar de forma segura as informações de alto teor emocional.

O que é, afinal, ter boa memória? É a chamada “memória fotográfica” – aquele sujeito que recita a escalação dos times de um jogo de futebol da década de 1970 – ou a “memória seletiva”, que guarda apenas as informações supostamente mais importantes?

De fato, a memória pode ser vista tanto sob a ótica da precisão – lembrar de todos os detalhes – quanto da eficiência – reter apenas o que é mais relevante. O que é melhor depende de cada pessoa e das circunstâncias. Há um aspecto importante relacionado a essa diferença, no entanto, que é o nível de atenção dedicado às atividades realizadas. Quem realmente consegue focar a atenção tende a produzir memórias mais detalhadas. Quem tem a atenção diluída em meio a outras demandas, como barulhos, pensamentos e preocupações, não consegue alcançar o mesmo nível de registro. Nosso cérebro é como um computador em que o desempenho da memória piora quando há outras coisas rodando em segundo plano.

Como podemos aprimorar a nossa capacidade de foco?

Não é fácil direcionar a atenção de acordo com o nosso desejo. Isso demanda treino. A meditação é um dos grandes treinamentos que a humanidade desenvolveu para focar no presente e lidar melhor com fatores de sofrimento que tendem a estar o tempo todo disputando a nossa atenção. Esses fatores estão quase sempre ligados ao passado, com os quais podemos lidar na terapia, ou às preocupações excessivas em relação ao futuro, que também devem ter uma dimensão adaptada à realidade.

Todos temos pequenos lapsos de memória no cotidiano, como esquecer a senha do cartão ou o nome de alguém. Em que momento isso deve se tornar uma preocupação?

A principal referência nessa análise deve ser a sua própria performance típica de memória. Ou seja: comparar você com você mesmo. Se essa performance claramente caiu, isso deve ser um ponto de atenção. Outro fator é o nível de sofrimento que essas situações estão causando. Se estão incomodando, é hora de buscar ajuda profissional. Ao mesmo tempo, é importante levar em conta que esses lapsos de memória podem ter se tornado mais frequentes porque você simplesmente não precisa mais decorar números ou fazer contas de cabeça, porque está tudo ao seu alcance no celular.

Vamos encerrar esta conversa sobre memória com uma pergunta que tem tudo a ver com o tema: como você gostaria de ser lembrada?

Ah, acho que como uma mãe que foi também cientista. Como uma pessoa que pôde viver suas escolhas de maneira satisfatória, que aproveitou o melhor do seu potencial em todos esses caminhos. Não sei se eu seria melhor mãe se não fosse cientista, ou se eu seria melhor cientista se não fosse mãe, mas certamente sou a melhor mãe-cientista que consigo ser, e isso me basta. (MO)

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.