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Boas e más notícias

Pânico não é necessário, mas estamos em risco e precisamos nos esforçar coletivamente

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h58

Se o leitor é como eu, deve estar se sentindo um pouco perdido. Bem, não estamos sozinhos. Os cientistas e as autoridades também estão. Trata-se de uma doença nova, afinal de contas, que vamos conhecendo à medida em que ela se espalha pelo mundo. E ela faz isso numa velocidade sem precedentes, nos pondo o tempo todo a correr atrás de informações para tentar tomar a dianteira nessa disputa contra o coronavírus.

Bem, temos boas e más notícias. E esse é um dos maiores desafios na transmissão de informações relacionadas a essa crise atual, pois parece que as mensagens que estamos recebendo são contraditórias. Não precisa de pânico, repetem para nós. Mas cada vez mais cidades, regiões e até mesmo países inteiros entram em quarentena. Não se desesperem. Mas se cuidem. Não estoquem comida. Mas parem de dar a mão para se cumprimentar.

Nosso cérebro, pouco dado a nuances, entra em parafuso: “Como assim tenho de manter distância das pessoas se está tudo bem?”. Ou bem podemos ficar tranquilos e seguir a vida normalmente ou bem existe uma ameaça e precisamos nos preparar. Nossa tendência ao raciocínio binário dificulta a compreensão de que as duas coisas podem coexistir: é possível que algo não nos ameace, mas que mesmo assim precisemos mudar hábitos para ficarmos seguros.

Pense no cinto de segurança. Hoje em dia, parece inacreditável que uma geração atrás nós dirigíamos sem cinto. Dizíamos que eram incômodos, que atrapalhavam, havia quem os achasse perigosos. Embora do ponto de vista social o custo dos acidentes sem cinto fosse alto – porque todo dia eles aconteciam –, individualmente a chance de que isso acontecesse era pequena. É tanta gente trafegando que a probabilidade de o próximo acidente ser o seu é mínima, embora seja certo que acidentes acontecerão. Então, seguíamos em frente sem mudar nada.

Como transformamos essa cultura em tão pouco tempo? Não foi com campanhas de conscientização (pelo menos não apenas com elas). Foi introduzindo nos motoristas o medo. Não de morrer, no caso, mas o medo de tomar uma multa. Aparentemente, sem a percepção de algum tipo de risco é difícil convencer as pessoas a mudar comportamentos.

Esse é o paradoxo em que nos encontramos. A covid-19, doença causada pelo novo vírus (o Sars-Cov-2), realmente não é muito letal. Os infectados têm chances muito maiores de sobreviver do que de morrer. E essa mensagem vem sendo repetida para evitar o pânico. Mas existe um número considerável de pacientes, algo em torno de 5%, com quadros tão graves que necessitarão de ventilação mecânica em UTI durante vários dias. Aí entra o risco para a coletividade. Como o vírus se espalha muito rápido, mesmo que só um em cada mil brasileiros fosse infectado, teríamos 200 mil doentes. Se todos eles precisassem de UTI ao mesmo tempo, isso nos levaria ao caos que enfrenta hoje a Itália, onde médicos têm de escolher quem vai viver e quem vai morrer. Sim, pois temos menos de 50 mil desses leitos no Brasil para acomodar os doentes que necessitariam deles. Somente mudanças de comportamento podem evitar esse pico de casos muito rápido que levaria o sistema de saúde ao colapso.

E daí vem a mensagem ambígua. De fato, não precisa de pânico – seu risco de morrer é pequeno. Mas estamos, sim, em risco e precisamos nos esforçar coletivamente. Se não mudarmos nosso comportamento – lavando as mãos de verdade, e sempre, deixando de cumprimentar com beijinhos ou mesmo apertos de mão, deixando de ir a lugares que gostaríamos, ou seja, fazendo coisas que custam esforço –, o cenário será dramático.

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