Gabriela Biló/Estadão - 19/10/2020
Gabriela Biló/Estadão - 19/10/2020

Bolsonaro disse que sua resposta à pandemia era para proteger os pobres. Eles acabaram sofrendo mais

Diante de um dos piores surtos do mundo, o presidente minou quase todas as medidas de confinamento propostas pelas autoridades federais e estaduais apelando para as necessidades dos pobres

Terrence McCoy, The Washington Post

09 de julho de 2021 | 10h00

Ainda sem conseguir encarar sua nova vida aqui, ela continuou com os olhos fechados. A manhã estava fria demais e ainda estava escuro. Ao seu lado, sob um teto de plástico preto, dormia uma jovem família que ela mal conhecia. Eles estavam juntos há semanas, refugiados econômicos da pandemia de covid-19, desempregados e despejados, agora agrupados na esperança de que dias melhores virão.

O céu clareou. Zuleide da Conceição Félix, 67 anos, saiu de seu barraco inóspito na periferia da região metropolitana de São Paulo. Ela fez café em seu fogão – uma relíquia querida de sua antiga vida – e tentou ignorar o frio. Empregada doméstica analfabeta, Zuleide levava uma vida de pobreza, trabalhando nos últimos meses por US$ 240 por mês. Mas mesmo ela nunca tinha passado por algo assim.

“Meu marido e eu tínhamos um quarto”, ela relembrou. “Nós tínhamos uma sala. Tínhamos uma televisão. Uma cozinha. Era tudo que precisávamos.”

Ela olhou para o chão.

“Agora estamos aqui.”

Aqui: uma coleção de barracos construídos sobre os destroços de uma fábrica falida, isolado do transporte público, sem água encanada ou um supermercado - mais uma nova ocupação em uma profusão de extensas comunidades agora sendo estabelecidas por brasileiros que ficaram sem-teto devido a um surto que se recusa a abrandar.

Essas são as pessoas que o presidente Jair Bolsonaro disse que queria proteger quando adotou a estratégia nada comum contra a pandemia de fazer pouco para controlar a propagação do novo coronavírus. Diante de um dos piores surtos do mundo, ele minou quase todas as medidas de confinamento propostas pelas autoridades federais e estaduais apelando para as necessidades dos pobres, da classe trabalhadora brasileira. Eles não podiam ficar em casa, ele disse. Precisavam trabalhar para sobreviver.

"Fome mata mais do que o vírus", disse ele em março de 2020. "Não adianta fugir disso, fugir da realidade."

Mas em vez de ajudar os mais vulneráveis, segundo os economistas, a estratégia fatalista de Bolsonaro apenas prolongou a crise – e levou mais pessoas à pobreza.

Quase um em cada cinco brasileiros diz ter ficado desamparado sem nenhuma renda. Metade do país está tendo dificuldade para botar comida na mesa. Dezenove milhões dizem estar passando fome. As taxas de desemprego e de desigualdade estão em níveis recordes. Depois de o governo reduzir o valor pago pelo programa de auxílio emergencial aos brasileiros mais pobres, o maior número de brasileiros em uma década caiu na extrema pobreza, vivendo com menos de US$ 2 por dia. A população sem-teto cresceu.

“Enquanto as pessoas estiverem com medo de adoecer e enquanto as pessoas estiverem adoecendo na escala em que estão no Brasil, vai haver muita instabilidade”, disse Marcelo Neri, economista da Fundação Getúlio Vargas. “Isso tem sido terrível para a economia, principalmente para os trabalhadores informais.”

O Brasil atualmente tem ficado com o pior dos dois mundos: meio milhão de mortos – mais do que qualquer lugar fora dos Estados Unidos – e outros milhões de desempregados.

Uma dessas pessoas que ficou sem emprego foi Zuleide. Sua patroa idosa pediu que ela parasse de ir limpar a casa dela depois que o vírus surgiu. A mulher mais velha temia que Zuleide trouxesse a doença dos ônibus lotados que pegava para ir trabalhar.

A patroa prometeu ligar para Zuleide quando as coisas melhorassem.

Isso foi há 15 meses. As coisas nunca melhoraram. O vírus continua a se alastrar pelo Brasil. E Zuleide – que acabou com todas as suas economias, ficou três meses sem pagar aluguel, foi despejada e agora vive aqui entre o que restou de seus pertences – e ainda está esperando aquela ligação.

Moradia

As cidades de tendas surgem rapidamente em questão de horas.

Uma delas tomou conta do terreno da igreja de um famoso pastor da televisão. Outra criou raízes em terras de propriedade da estatal petrolífera. Em São Paulo, a maior cidade do hemisfério ocidental, mais de 800 famílias se amontoavam em um pátio de contêineres vazio. Outras seiscentas se inscreveram para um espaço em um campo vazio ao lado de uma favela.

As comunidades, povoadas em grande parte por pessoas que perderam o emprego e a casa, passaram a simbolizar o fracasso do governo em proteger seus cidadãos mais pobres do impacto econômico da pandemia. Ele estendeu o pagamento do auxílio emergencial de US$ 120 por mês para milhões de pessoas necessitadas – tirando algumas pessoas da pobreza temporariamente-, mas o programa foi reduzido em setembro e, depois, suspenso por meses. O governo não proibiu os despejos, como aconteceu nos Estados Unidos, nem incentivou contratar os jovens pobres e vulneráveis, como fez o Reino Unido.

“O que Bolsonaro fez para salvar a economia?", perguntou Lena Lavinas, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A única coisa que ele fez foi dizer ‘Nada pode parar’. Isso não é uma proposta para salvar a economia.”

O gabinete de Bolsonaro não respondeu a uma solicitação de comentário. Em público, o presidente tem se preocupado com o endividamento do governo. Quando questionado se ele deveria fazer mais para aliviar o sofrimento, ele se mostrou irritado. “Qual país do mundo fez um projeto igual ao nosso, num momento de crise, que foi o auxílio emergencial?", ele perguntou. "E tem gente criticando ainda, falando que quer mais."

As novas ocupações, muitas fundadas após os pagamentos do auxílio emergencial serem reduzidos, agora estão alimentando um dos debates mais prolongados e polarizadores do Brasil. Um país de vastos espaços não utilizados e de desigualdade inevitável, o Brasil há muito tempo é palco de acirradas disputas de terras entre latifundiários e invasores sem nenhum outro lugar para ir. Muitos dos enclaves irregulares, que agora abrigam milhões, vivem sob constante ameaça de remoção.

Durante a pandemia, enquanto as pessoas foram expulsas e levadas a morar nas ruas e as ocupações se multiplicaram, as autoridades intensificaram as operações de remoção. Em São Paulo, elas removeram aproximadamente 4 mil pessoas – o maior número no Brasil. Outras 3 mil foram removidas em Manaus, a cidade amazônica devastada pelo vírus. Neste mês, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu as remoções até o final do ano, irritando Bolsonaro, um ferrenho defensor dos latifundiários.

“É o fim da propriedade privada”, declarou. “Lamentável.”

Mas as ocupações na maioria das vezes nascem em terrenos vazios – que era exatamente o que um trecho deserto ao lado de um pátio industrial no norte de São Paulo parecia ser para Janeide Pereira. Ela estava andando do lado de fora de seu prédio em junho passado, desesperada, pois havia perdido o emprego. A mãe para quem ela trabalhava disse que queria proteger seus filhos de uma possível exposição ao vírus. Agora, Janeide estava prestes a perder sua casa também.

"Eu não tinha para onde ir", disse.

Este terreno empoeirado onde as pessoas empinam pipas e jogam lixo parecia sua melhor opção. Ela arrastou seus pertences, pendurou uma lona de plástico preta e montou uma nova casa para seus cinco filhos. Em poucas horas, ela tinha vizinhos. Eles ocuparam todos os cantos do terreno de propriedade do município. Pequenas casas de madeira logo se ergueram. Água encanada e eletricidade tornaram-se disponíveis após intervenções em redes próximas. Assim nascia a ocupação Jardim Julieta.

As pessoas que chegam agora, algumas com ferimentos da vida nas ruas, são, com tristeza, recusadas. A comunidade está cheia. As lideranças da ocupação falam de outro lugar para eles, a uns oito quilômetros ao norte dali. Lá, no terreno arborizado de uma fábrica falida, outra ocupação está se formando.

E foi para lá que Zuleide foi.

Água

"Água!", avisava um grito ao longe. "Água!"

Zuleide esticou a cabeça e levantou-se. A comunidade tinha ficado sem água na noite anterior. Durante toda a manhã, houve medo de que o homem da água da cidade, que estava enchendo sua cisterna de 2.000 litros por debaixo dos panos, tivesse esquecido deles.

O marido de Zuleide pegou vários baldes vazios. Ele entregou um para ela e, dando risinhos, lá foram eles, pisando nos entulhos e no lixo que as construtoras haviam deixado ali. Eles encontram o homem da água na frente da comunidade.

"Água!", gritava com prazer Zuleide.

Ela estava tentando ser feliz ali. Mas a cada dia sentia mais o peso de seus 67 anos. Seu corpo doía. Ela era diabética. E havia tanta incerteza em relação à vida na ocupação. A água podia acabar. As pessoas podiam esquecer de mandar as doações de comida das quais eles dependem para sobreviver. Um dia chegou uma jovem família com três filhos pequenos - uma das 250 famílias que agora lotam a ocupação - e agora estão todos compartilhando seu barraco e uma lâmpada.

“Fomos despejados”, disse Andreia Rodrigues de Oliveira, 36 anos, a mãe. "Passamos três noites dormindo debaixo do toldo de uma loja antes de ficarmos sabendo desse lugar."

Todos os dias Zuleide espera. Quando ela estava prestes a perder sua casa, ligou para sua antiga patroa. A mulher - "gente muito boa", diz Zuleide - comprou para ela um tanque de gasolina e reforçou que entraria em contato quando a pandemia passasse. Mas, então, Zuleide mudou-se para a ocupação, onde o telefone dela não tem sinal, e ela percebeu que se a antiga patroa ligasse, ela não teria como saber.

Ela chegou à torneira da comunidade e viu a água jorrar nos baldes. Ergueu eles fazendo um grunhido e voltou para o barraco. As coisas iriam melhorar, ela lembrava a si mesma. A pandemia iria passar. A antiga patroa talvez ligasse para sua filha, que viria ao seu encontro, e Zuleide voltaria a trabalhar.

Ela colocou os baldes no chão, olhou para sua nova casa e agradeceu a Deus pelo que tinha. A água tinha chegado hoje. E, olhando para o longe e para as famílias ao redor, ela sabia que não estaria sozinha. Aproximadamente 400 outras pessoas devem chegar nos próximos dias.

"Cada dia há mais pessoas", disse ela. /COLABOROU HELOÍSA TRAIANO

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