GABRIELA BILO / ESTADAO
Bolsonaro não detalhou se o parecer solicitado ao Ministério da Saúde seria apenas recomendação ou se pretende propor uma nova legislação GABRIELA BILO / ESTADAO

Bolsonaro pede parecer para desobrigar uso de máscara a vacinados e quem já foi infectado

A obrigatoriedade do uso de máscara em locais públicos, como comércios, escolas e igrejas, foi aprovada no ano passado pelo Congresso. Bolsonaro chegou a vetar a lei, mas os parlamentares derrubaram o veto

Gustavo Côrtes e Pedro Caramuru, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 18h43
Atualizado 11 de junho de 2021 | 12h25

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira, 10, ter conversado com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para que seja preparado um parecer desobrigando pessoas vacinadas ou que já tenham sido contaminadas a usarem máscaras. A medida sugerida pelo presidente é contrária a orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Acabei de conversar com um tal de Queiroga. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscaras por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados. Para tirar este símbolo (segurando uma máscara descartável na mão) que tem a sua utilidade para quem está infectado", disse Bolsonaro durante evento sobre turismo no Palácio do Planalto, em Brasília. Ele foi aplaudido pelos presentes ao anunciar a medida.

O presidente usava a proteção ao chegar ao evento, mas a retirou ao iniciar o discurso. No mesmo evento, o presidente repetiu as críticas ao protocolo do Ministério da Saúde que orienta pessoas contaminadas a ficarem em casa. "Não aquele 'fica em casa todo mundo'. A quarentena é para quem está infectado. Não é para todo mundo, porque isso destrói empregos", afirmou.

No total, o Brasil registrou 477.307 mortos pela covid-19 e 17.038.503 casos da doença, a segunda nação com mais registros, atrás apenas dos Estados Unidos. Até esta quarta-feira, 9, 23.418.325 haviam recebido duas doses de vacina, o que representa 11,06% da população com a imunização completa contra o novo coronavírus.

A obrigatoriedade do uso de máscara em locais públicos, como comércios, escolas e igrejas, foi aprovada no ano passado pelo Congresso. Bolsonaro chegou a vetar a lei, mas os parlamentares derrubaram o veto. Em alguns Estados, como São Paulo, a pessoa que for pega sem a proteção poderá ser multada.

Ao assumir o cargo, em março deste ano, Queiroga adotou um discurso que vai na contramão do presidente. Em uma de suas primeiras entrevistas como ministro, o médico cardiologistas defendeu o uso da proteção e disse que seu objetivo era tornar o Brasil "a pátria de máscaras".  “Na época da Copa do Mundo, a nação se une, se chama ‘pátria de chuteira’. Agora é ‘pátria de máscara’. É um pedido que faço a cada um dos brasileiros: usem a máscara”, disse o ministro no dia 23 de março. 

Ao depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, na terça-feira, Queiroga foi questionado sobre o fato de o presidente promover diversas aglomerações durante a pandemia e se recusar a usar máscaras em locais públicos, contrariando recomendações da sua pasta. Incomodado com a pergunta, respondeu: "Não sou censor do presidente".

No evento desta quinta-feira, Bolsonaro não detalhou se o parecer solicitado ao Ministério da Saúde seria apenas recomendação ou se pretende propor uma nova legislação a respeito do tema, o que necessitaria de aval do Congresso.

'Precisamos vacinar a população brasileira, diz Queiroga

Em nota, o Ministério da Saúde disse ter recebido o pedido para "estudo" demandado pelo presidente. "O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou há pouco que recebeu o pedido do presidente da República, Jair Bolsonaro, para produzir um estudo que trate da flexibilização do uso de máscaras, conforme o avanço da vacinação no país." 

Em vídeo postado à noite no Twitter, Queiroga disse que o presidente acompanha o cenário internacional e "vê que em outros países onde a campanha de vacinação está avançada as pessoas já estão flexibilizando o uso das máscaras". "O presidente me pediu que fizesse um estudo para avaliar a situação aqui no Brasil. Vamos atender essa demanda do presidente Bolsonaro, que está sempre preocupado com pesquisas em relação à covid."

Em entrevista à CNN Brasil, Queiroga disse não haver prazo para que o estudo seja concluído. "Queremos que seja o mais rápido possível. Para isso precisamos vacinar a população brasileira e avançar", afirmou.

Questionado se foi pressionado pelo presidente a adotar a medida, o ministro negou. "O presidente não me pressiona. Eu sou ministro dele e trabalhamos em absoluta sintonia, é assim que funciona as democracias nos regimes presidencialistas. O presidente sempre nos aconselha de maneria muito própria e eu levo a ele os subsídios em relação à saúde pública."

Dispensa só pode ocorrer com controle da transmissão, diz OMS

Após os primeiros países optarem por autorizar a dispensa do uso de máscaras por pessoas vacinadas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu cautela aos governos. Segundo a OMS, a dispensa desses cuidados pode acontecer somente quando não há mais transmissão comunitária da doença e não depende apenas da vacinação contra a covid-19. 

“A pandemia não terminou, há muita incerteza com as novas variantes e precisamos manter os cuidados básicos para salvar vidas", afirmou Maria van Kerkhove, líder técnica para a covid-19 da OMS. No caso de pessoas já contaminadas, especialistas também não recomendam abandonar a proteção porque há a possibilidade de reinfecção.

 

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Por que máscaras são necessárias mesmo para vacinados e pessoas que já foram infectadas?

Especialistas explicam que, mesmo que parte da população já esteja com anticorpos contra a covid-19, proteção facial é fundamental para controlar transmissão do vírus. Presidente solicitou parecer para desobrigar uso de máscaras

João Ker e Italo Lo Re, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 22h45

O uso de máscaras pela população continua sendo necessário mesmo para aqueles que já foram vacinados contra a covid-19 e para quem se recuperou da doença. Essa necessidade já foi provada cientificamente e é defendida por especialistas, que destacam o risco imposto pela alta transmissão da doença no País e avaliam a nova oposição do presidente Jair Bolsonaro à proteção facial como "próxima de criminosa" e uma "conspiração".

Nesta quinta-feira, 10, Bolsonaro afirmou ter solicitado um parecer ao Ministério da Saúde para que desobrigasse o uso de máscaras a todos os brasileiros que já estejam vacinados ou tenham contraído o vírus. "É uma posição próxima de criminosa. Quem já teve a doença, está provado, pode ter a doença novamente. O tipo de imunidade conferida por ter a doença não é a mesma obtida pela vacina", afirma o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. "O que o presidente está propondo é uma conspiração contra todas as medidas sanitárias que estamos conseguindo adotar."

"No cenário que a gente tem no Brasil, com a transmissão descontrolada, leitos de UTI lotados, iminência de uma terceira onda e porcentagem muito baixa de pessoas vacinadas, é fundamental que a gente reforce e redobre a atenção nas máscaras fornecendo itens de melhor qualidade", diz Vitor Mori, membro do Observatório Covid-19 BR. Ele avalia que o uso da proteção facial foi tratado no Brasil como uma questão secundária e sem a devida atenção desde o início da pandemia.

O pesquisador reitera que não é porque alguém está vacinado que tem o passe livre. "É claro que a vacina funciona, a vacina é uma ferramenta importante, mas ela depende de ter muita gente vacinada para controlar a transmissão", destaca Mori. "Se todos se vacinarem, o efeito protege a todos. Então, temos que buscar a vacinação em massa, inclusive para aqueles que já tiveram a doença. E rezar para que não apareça uma nova variante, que seja resistente a todas as que já existem no mercado", complementa Vecina.

O epidemiologista Pedro Hallal vai na mesma linha. Segundo ele, a vacinação tem dois objetivos: o da proteção individual e o da proteção coletiva. "O uso de máscara pelos já vacinados mira na proteção coletiva, porque as vacinas previnem contra infecção e casos graves. Mas não, na mesma medida, contra a transmissão. Então, se os vacinados não usarem máscara, eles podem contribuir para a disseminação do vírus. Essa é a questão central", comenta.

De acordo com o epidemiologista, o abandono do uso das máscaras tem que ser quando a população estiver perto de alcançar a imunidade de rebanho. Ou seja, quando cerca de 70% da população tiver anticorpos. "Aqui, no Brasil, a estimativa é que nós não tenhamos nem 30% com anticorpos. Então, estamos muito longe ainda", diz, frisando ainda que a proposta de Bolsonaro não teria como ser fiscalizada. "Na prática, é uma carta branca. Vai fiscalizar como se a pessoa já teve covid, se já tomou vacina… Vai parar a pessoa na rua para pedir carteirinha? É uma piada."

Durante um evento no Palácio do Planalto, em Brasília, Bolsonaro disse ter solicitado ao ministro Marcelo Queiroga um parecer desobrigando pessoas vacinadas ou que já tenham sido contaminadas a usarem máscaras, em mais uma medida do presidente que contraria orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras autoridades sanitárias.

"Acabei de conversar com um tal de Queiroga. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscaras por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados. Para tirar este símbolo (segurando uma máscara descartável na mão) que tem a sua utilidade para quem está infectado", disse, enquanto era aplaudido pelos presentes.

Mais tarde, o ministro afirmou em vídeo publicado nas suas redes sociais que Bolsonaro acompanha o cenário internacional e viu a flexibilização das máscaras "em outros países onde a campanha de vacinação está avançada".

No Brasil, entretanto, apenas 11,11% da população havia recebido a imunização completa até o dia em que o presidente resolveu se opor ao uso da proteção facial. "Vamos atender essa demanda do presidente Bolsonaro, que está sempre preocupado com pesquisas em relação à covid", disse Queiroga, que também declarou à CNN não haver prazo para a conclusão do suposto estudo. "Para isso precisamos vacinar a população brasileira e avançar", afirmou.

Para Vecina, o ministro deve tomar cuidado antes de recomendar o abandono total da máscara para vacinados e já infectados. "Espero que o Queiroga, que quer ser um sobrevivente no cargo, consulte os colegas imunologistas, sanitaristas, epidemiologistas e especialistas em moléstias infecciosas, antes de tomar essa decisão. Senão ele vai ocupar um lugar terrível na história da saúde pública brasileira", alerta.

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Análise: No Brasil, estamos muito longe de poder abandonar as máscaras

Epidemiologista comenta intenção do governo Bolsonaro de desobrigar uso da proteção para vacinados e para aqueles que se recuperaram da doença. 'O governo federal adota medidas anticiência desde o início da pandemia', diz Hallal

Pedro Hallal*, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 21h17

A vacinação tem dois objetivos: o da proteção individual e o da proteção coletiva. O uso de máscara pelos já vacinados mira na proteção coletiva porque as vacinas previnem contra infecção e casos graves, mas não na mesma medida contra a transmissão. Então, se os vacinados não usarem máscara, eles podem contribuir para a disseminação do vírus. Essa é a questão central.

O abandono do uso das máscaras tem que ser quando a população estiver perto de alcançar a imunidade de rebanho: cerca de 70% da população com anticorpos. Aqui no Brasil, a estimativa é que nós não tenhamos nem 30% com anticorpos. Então, nós estamos muito longe ainda.

Tem duas questões: primeiro, como seria para fiscalizar isso (a proposta de Bolsonaro)? Então, na prática, é uma carta branca. Vai fiscalizar como se a pessoa já teve covid, se já tomou vacina… Vai parar a pessoa na rua para pedir carteirinha?  É uma piada.

E, segundo, que uma comunicação unificada nunca foi feita no Brasil desde o início da pandemia e não vai ser agora que vai ser feita. Infelizmente essa oportunidade nós perdemos, porque o governo federal adota medidas anticiência desde o início da pandemia.

*É epidemiologista, professor e ex-reitor Universidade Federal de Pelotas

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