Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Índia frustra planos, Bolsonaro admite atraso e governo pede entrega 'imediata' da Coronavac

Índia informou que não pretende atender agora ao pedido para a liberação das 2 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca/Oxford; Ministério da Saúde, então, solicitou entrega de 6 milhões de doses da Coronavac, produzidas pelo Butantã

Mateus Vargas, Felipe Frazão e Emilly Benhke, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 18h15
Atualizado 28 de janeiro de 2021 | 18h16

BRASÍLIA - A Índia informou ao Brasil que não pretende atender agora ao pedido para a liberação das 2 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca/Oxford. A negativa frustrou a expectativa do governo federal, que já havia preparado um plano para que o imunizante chegasse ao País até domingo, 17, a tempo de ser usado no início da vacinação em todo o País. Após a resposta dos indianos, o Ministério da Saúde solicitou nesta sexta-feira, 15, a entrega "imediata" de 6 milhões de doses da Coronavac, produzidas pelo Instituto Butantã, em parceria com a chinesa Sinovac.

"Resolveu-se, não foi decisão nossa, atrasar em um ou dois dias até que o povo comece a ser vacinado lá (na Índia), porque lá também tem as pressões políticas de um lado ou de outro", afirmou o presidente Jair Bolsonaro em entrevista à TV Band. O país asiático alegou "problemas logísticos" para liberar as doses ao Brasil, pois a vacinação na Índia está prevista para começar neste sábado, 16. "Daqui a dois, três dias no máximo o nosso avião vai partir e vai trazer essas 2 milhões de doses", disse Bolsonaro. Um avião fretado está em Recife, em Pernambuco, pronto para buscar os imunizantes.

O Ministério da Saúde planeja iniciar a campanha de imunização no País na quarta-feira, 20. Caso a vacina da Índia não chegue a tempo, não está descartada a possibilidade de a vacinação começar apenas com a Coronavac, o que representaria um revés político a Bolsonaro. O presidente já chegou a declarar que não compraria o imunizante chinês - que acabou comprando -, a aposta do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu adversário político, para a vacinação no Estado. Na semana passada, o presidente também ironizou a eficácia de 50,4% da vacina, próximo do patamar mínimo exigido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

"Ressaltamos a urgência na imediata entrega do quantitativo contratado e acima mencionado, tendo em vista que este Ministério precisa fazer o devido loteamento para iniciar a logística de distribuição para todos os estados da federação de maneira simultânea e equitativa, conforme cronograma previsto no Plano Nacional de Operacionalização da vacinação contra a COVID-19, tão logo seja concedido a autorização pela agência reguladora, cuja decisão está prevista para domingo, dia 17 de janeiro de 2021", afirma ofício enviado pelo ministério ao diretor do Butantã, Dimas Covas.

Mais cedo, em entrevista no Palácio dos Bandeirantes, Doria afirmou que cerca de 4,5 milhões de doses da Coronavac seriam encaminhadas para o Ministério da Saúde para que fossem incorporadas ao Plano Nacional de Imunização do governo federal, enquanto o restante das doses ficariam no Estado. "As vacinas que cabem ao Brasil serão encaminhadas ao Ministério da Saúde", disse o governador. "Vacinas de São Paulo ficarão em São Paulo", completou Doria na entrevista.

Em nota, o Butantã disse que questionou o ministério sobre qual a quantidade de doses que será destinada a São Paulo. "Para todas as vacinas destinadas pelo instituto ao Programa Nacional de Imunizações, é praxe que uma parte das doses permaneça em São Paulo, Estado mais populoso do Brasil. Isso acontece, por exemplo, com a vacina contra o vírus influenza, causador da gripe", disse o instituto.

 

O governo federal comprou 46 milhões de doses da Coronavac neste mês. Há ainda a opção de adquirir mais 54 milhões de unidades. A negociação pela vacina gerou crise entre os governos federal de São Paulo. Bolsonaro chegou a forçar o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, a recuar da promessa de compra, em outubro. Bolsonaro disse também que não compraria a vacina "pela sua origem".

A Anvisa deve decidir no domingo se libera o uso emergencial da Coronavac e da vacina de Oxford. Antes deste aval, segundo fonte da agência, estes imunizantes deveriam ficar sob guarda do Butantã e da Fiocruz.

Índia

Segundo o Itamaraty, o governo indiano mostrou “boa vontade” em liberar a carga, mas apontou “dificuldades logísticas”, pois o pedido brasileiro ocorre no momento em que o país começa a sua campanha de vacinação contra a covid-19 e, portanto, há um sensibilidade política interna para, ao mesmo tempo, liberar 2 milhões de doses ao Brasil.  

"Foi tudo acertado para disponibilizar 2 milhões de doses, só que hoje, nesse exato momento está começando a vacinação na Índia, País com um bilhão e trezentos milhões de habitantes", afirmou Bolsonaro em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da TV Band. Segundo ele, a decisão de atrasar a entregas do imunizantes ao Brasil, antes prevista para domingo, não foi do governo brasileiro.

O avião da Azul que deveria buscar as doses produzidas pelo laboratório indiano Serum deveria decolar de Recife na quinta, 14, mas o voo foi adiado por “problemas logísticos internacionais”. Mais cedo, o Ministério das Relações Exteriores já admitia a possibilidade de atraso no cronograma de busca dos imunizantes.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, telefonou na noite de quinta-feira, 14, ao chanceler da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, e reiterou o pedido para importação de 2 milhões de doses prontas da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca.

Um diplomata que acompanhou o telefonema disse que o indiano não rejeitou o pedido do governo brasileiro, mas que é necessário "ajustar os tempos" para que ele seja atendido. A data de entrega da carga ainda segue pendente de confirmação por parte da diplomacia do país asiático. O Itamaraty espera que o avião brasileiro que irá buscar as doses retorne no menor prazo possível, em meados da próxima semana. O governo já fala agora em receber as vacinas no Brasil no dia 19, terça-feira que vem.

 Na semana passada, o próprio Bolsonaro enviou uma carta ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo a antecipação “com urgência” do fornecimento. Na correspondência, enviada na sexta-feira, 8, o presidente ressalta que, para “possibilitar a imediata implementação do nosso Programa Nacional de Imunização, muito apreciaria poder contar com os bons ofícios de Vossa Excelência para antecipar o fornecimento ao Brasil, com a possível urgência e sem prejudicar o programa indiano de vacinação, de 2 milhões de doses do imunizante produzido pelo Serum Institute of India". 

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