Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Bolsonaro encerra coletiva ao ser questionado sobre saída de Cuba do Mais Médicos

Programa tem 18.240 profissionais - sendo 8.332 cubanos, segundo o governo do país brasileiro; Nordeste será região que mais perderá médicos

Renata Batista, Vinicius Neder, Juliana Diógenes e Sandra Manfrini, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2018 | 11h25

O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) encerrou intempestivamente uma entrevista coletiva no 1º Distrito Naval, no centro do Rio de Janeiro, na manhã desta sexta-feira, 16. Ele estava sendo questionado sobre a continuidade dos atendimentos de saúde no Programa Mais Médicos, já que cerca de 8,3 mil profissionais podem deixar o País com decisão de Cuba de interromper a parceria.

Bolsonaro respondeu somente uma pergunta após ser questionado sobre o Mais Médicos – não comentou, por exemplo, a indicação do economista Roberto Campos Neto para a presidência do Banco Central (BC). "Como o assunto saiu da área militar, quero agradecer a todos vocês aqui", disse ele, pondo fim à coletiva, que durou menos de 4 minutos. 

O presidente voltou a criticar os termos do acordo com Cuba no Mais Médicos, que prevê o repasse direto ao governo caribenho de 70% dos salários dos profissionais de saúde. Repetiu que a situação dos profissionais de saúde cubanos é “praticamente de escravidão” e questionou a qualidade dos serviços prestados. 

“Nunca vi uma autoridade no Brasil dizer que foi atendido por um médico cubano. Será que devemos destinar aos mais pobres profissionais, entre aspas, sem qualquer garantia de que eles sejam realmente razoáveis, no mínimo? Isso é injusto, é desumano”, disse. 

O presidente defendeu o exame presencial de validação do diploma dos médicos incluídos no programa. “O que temos ouvido, em muitos relatos, são verdadeiras barbaridades. Não queremos isso para ninguém no Brasil, muito menos para os mais pobres. Queremos o salário integral e o direito de trazer a família para cá. Isso é pedir muito? Isso está em nossas leis, que estão sendo desrespeitadas”, resumiu o presidente eleito, antes de encerrar a entrevista, que durou menos de cinco minutos. 

Bolsonaro também prometeu asilo político para todos os médicos cubanos que pedirem. “Há quatro anos e pouco, quando foi discutida a Medida Provisória (que criou o Mais Médicos), o governo da senhora Dilma disse, em alto e bom som, que qualquer cubano que, por ventura, pedisse asilo, seria deportado. Se eu for presidente, o cubano que pedir asilo aqui, se justifica pela ditadura da ilha, terá o asilo concedido da minha parte”, afirmou o presidente eleito. 

Bolsonaro permaneceu no 1º Distrito Naval por aproximadamente duas horas, reunido com o comandante da Marinha, almirante Eduardo Barcellar Leal Ferreira. O presidente eleito disse que o comandante da Marinha chegou a ser convidado para o Ministério da Defesa, mas declinou do convite por razões familiares. “(O almirante Leal Ferreira) não se afastará do meu radar. Sempre o procurarei para que boas decisões sejam tomadas, em especial na área aqui da Marinha”, disse o presidente eleito. 

Questionado sobre os futuros comandantes de Marinha, Exército e Aeronáutica, Bolsonaro disse que o tema está sendo tratado pelos generais (Augusto) Heleno (futuro ministro do Gabinete da Segurança Institucional) e Fernando (Azevedo e Silva, futuro ministro da Defesa). 

“Não é uma escolha minha. Quem realmente vai trabalhar com os comandantes será o general Fernando. A ele cabe a grande responsabilidade de indicar. Obviamente, como é praxe em nosso meio das Forças Armadas, eles vão ouvir os atuais comandantes para escolher, não digo o melhor, porque todos os quatro estrelas são competentes e estão aptos a cumprir a missão, mas aquele que melhor se encaixa no atual cenário nacional”, completou.

Questionado sobre a carta que os governadores enviaram ao futuro governo, com reivindicações, Bolsonaro disse que ainda não teve tempo de estudá-la. “A carta dos governadores ainda não tive a oportunidade de estudar, juntamente com o Paulo Guedes. Li, mas não estudei com o Paulo Guedes ainda para dar uma resposta aos senhores”, afirmou o presidente eleito, na última resposta antes de encerrar a entrevista.

O presidente de CubaMiguel Díaz-Canel, saiu em defesa dos médicos cubanos que participaram do programa Mais Médicos, no Brasil, encerrado unilateralmente pelo governo do país caribenho nesta quarta-feira, 14. Sucessor de Raúl Castro, ele afirmou que os médicos prestaram um “valioso serviço ao povo brasileiro” e que atitudes assim devem ser “respeitadas e defendidas”.

O convênio com o governo cubano é feito entre Brasil e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). "Diante desta realidade lamentável, o Ministério da Saúde Pública (Minasp) de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do programa Mais Médicos e assim comunicou a diretora da Organização Panamericana da Saúde (OPAS) e aos líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam esta iniciativa", anunciou o governo cubano em comunicado.

Contratação

O Ministério da Saúde realizará nesta sexta-feira uma reunião com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) para a definição da saída dos médicos cubanos do programa Mais Médicos e a entrada de profissionais brasileiros a serem selecionados por edital.

Segundo informações do ministério, ainda será finalizada a proposta de edital para a seleção dos profissionais para as 8.332 vagas que serão deixadas pelos médicos cubanos. O governo de Cuba anunciou nesta semana o rompimento unilateral da participação no programa Mais Médicos. O motivo para a decisão foram as declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro com críticas ao programa.

De acordo com o Ministério da Saúde, no início da próxima semana, será dada entrevista à imprensa para esclarecer os detalhes sobre o edital de seleção e chamada para inscrições. A seleção de profissionais brasileiros em primeira chamada do edital será realizada ainda no mês de novembro, de acordo com a Pasta, e o comparecimento aos municípios, imediatamente após a seleção. 

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