Marcos Corrêa/ PRESIDENCIA DA REPUBLICA
Marcos Corrêa/ PRESIDENCIA DA REPUBLICA

Bolsonaro aproveita disputa com Doria sobre vacina para se reaproximar da ala ideológica

Nos bastidores, presidente se precipitou e não soube explicar que uma eventual compra da vacina, seja ela qual for, ocorrerá somente após a aprovação da Anvisa

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 19h51

BRASÍLIA - O acordo para a compra de 46 milhões de doses da vacina chinesa contra o coronavírus, produzida em parceria com o Instituto Butantã, não durou 24 horas porque o presidente Jair Bolsonaro ficou inconformado com o palanque dado ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB). A nacionalidade e o domicílio eleitoral da vacina acabaram ressuscitando a ala ideológica do governo, que atacou a iniciativa tomada com aval dos generais. Sob pressão, Bolsonaro decidiu recuar, barrando o acordo que dava protagonismo a Doria.

Nos bastidores, Bolsonaro avaliou que o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuellodiagnosticado com coronavírus – se precipitou e não soube explicar, após reunião virtual com governadores, nesta terça-feira, 20, que uma eventual compra da vacina, seja ela qual for, ocorrerá somente após a  aprovação da Anvisa. Nas redes sociais, porém, apoiadores de Bolsonaro bombardearam o acordo com São Paulo,  estabelecido após vários embates entre o presidente, que é candidato à reeleição em 2022, e Doria, hoje seu principal adversário.

O Estadão confirmou que o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, foi um dos que se opuseram ao acerto para a compra da vacina chinesa, conhecida como Coronavac. Mas, ao desmentir a informação, publicada por Guilherme Amado, da revista Época, Carlos usou o perfil do pai no Facebook.  “Estou impossibilitado de ser o “Controlador Geral da União” (...), pois momentaneamente ocupo o cargo de vereador da cidade do Rio de Janeiro! Há impedimento legal!”, escreveu Carlos abaixo do nome de “Jair Messias Bolsonaro”

Em Brasília nesta quarta-feira, 21, Doria pôs mais lenha na fogueira. “Por que ter ministros se ele não tem condições de defender as suas opiniões e é desautorizado pelo presidente? Seria melhor, então, fechar os ministérios”, provocou o tucano. Depois, ensaiou tom de conciliação, dando a senha para o que está por vir no cenário político. “Agora é hora de vacinação. Não é hora de eleição”, afirmou Doria.

O governador disse ao Estadão que o diretor-presidente da Anvisa, Barra Torres, garantiu a ele, nesta quarta, que a agência "não cederá a pressões políticas e ideológicas e se pautará sempre pela ciência e pela medicina”. Doria considerou essa posição importante porque, do contrário, seria a "destruição da Anvisa e isso acabaria por jogar fora a imagem do Brasil no exterior". Na sua avaliação, haveria "repercussões graves, nacionais e internacionais".

Não é de hoje que Bolsonaro vem sendo aconselhado a aceitar a vacina da farmacêutica chinesa Sinovac, que será produzida pelo Instituto Butantã e incorporada ao Programa Nacional de Imunizações. Até mesmo o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), José Múcio Monteiro, que está de saída do cargo, conversou sobre o assunto com o presidente e com o ministro da Casa Civil, Braga Netto, há cerca de quinze dias. Múcio, hoje também com covid-19, disse a Bolsonaro que o Instituto Butantã não era um órgão político e o aconselhou a apoiar uma vacina que não seria do governo federal, nem de São Paulo, mas da sociedade brasileira.

Na última quarta-feira, dia 14, Bolsonaro bateu o martelo e, numa reunião com Pazuello, deu aval para que ele continuasse as tratativas com o Instituto Butantã para o protocolo de intenção da compra de doses da vacina. Mudou de posição, no entanto, com a repercussão negativa entre seus apoiadores e foi para a as redes sociais anunciar o cancelamento do acordo que, segundo ele, nunca existiu.

As críticas da ala ideológica do bolsonarismo  ao acordo que foi sem nunca ter sido ultrapassaram fronteiras. “Eu confio no Presidente Bolsonaro! Os problemas surgem no entorno, inclusive alguns ministros, que têm "agenda própria", escreveu o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que hoje está no Banco Mundial, em Washington. Seguidor do escritor Olavo de Carvalho, Weintraub é expoente do chamado “bolsonarismo raiz” e é adepto da teoria que a China fabricou o coronavírus.

Na outra ponta, a oposição também tenta capitalizar a crise.  “Penso que o impeachment de Bolsonaro, um arauto da morte, se impõe. Ele se revela, nesse episódio do cancelamento do convênio assinado pelo seu ministro da Saúde com o Instituto Butantã e governadores dos Estados para produção de uma vacina, por pura politicagem, como um criminoso”, afirmou o presidente do Cidadania, Roberto Freire, anunciando que convocará o partido para discutir proposta de impeachment de Bolsonaro.

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