Jacqueline Bradwayn/Unsplash.com
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'Bombardeio de amor': quando o romantismo se torna manipulação

Prática, alertam especialistas, começa com excesso de generosidade com novo parceiro romântico para, depois, levar vantagem na relação

Gina Cherelus, The New York Times

22 de janeiro de 2022 | 05h00

Imagine que você está em um restaurante uma noite e, depois do jantar, decide pedir não uma, mas duas fatias de cheesecake de sobremesa. Muitos diriam que isso não é saudável – ou pelo menos que é indulgente – mas todo mundo merece um agrado de vez em quando. Certo?

Se você continuar pedindo duas fatias de torta de sobremesa todas as noites por meses, no entanto, sua saúde pode sofrer.

Esta é uma analogia que Chitra Raghavan, professora de Psicologia do John Jay College of Criminal Justice, usou para explicar como os comportamentos românticos podem se transformar em uma prática manipuladora de namoro conhecida como “love bombing” (bombardeio de amor): ser excessivamente generoso com um novo parceiro romântico e manter contato constante para levar vantagem no relacionamento.

“Um parceiro, geralmente masculino, mas não exclusivamente, enche a outra pessoa de atenção, carinho, elogios, bajulação e essencialmente cria esse contexto em que ela sente que conheceu sua alma gêmea facilmente”, disse Raghavan em entrevista por telefone. “A realidade é que a pessoa que está fazendo o bombardeio de amor está criando ou manipulando o ambiente para parecer que ele é o par perfeito ou que ela é a companheira perfeita.”

Soa familiar? Aqui estão alguns sinais e padrões a serem lembrados para evitar essa situação – e conselhos sobre o que fazer se você acha que isso pode estar acontecendo com você.

ATENÇÃO EXCESSIVA E BAJULAÇÃO

Uma das coisas complicadas sobre namoro, disse Raghavan, é que tudo o que acontece em relacionamentos saudáveis também pode acontecer em relacionamentos não saudáveis. Demonstrar atenção excessiva é um exemplo.

“Se alguém presta atenção em você e geralmente está presente durante o primeiro encontro, isso geralmente sinaliza interesse”, disse Raghavan, que também é especialista em violência doméstica e tráfico sexual. “Mas também há pessoas que demonstram interesse de tal forma que você acaba se sentindo consumido por isso.”

Ela acrescentou que pode ser difícil reconhecer a incompatibilidade entre familiaridade (lembre-se, é alguém que você acabou de conhecer) e afeto no momento, especialmente quando uma pessoa está dizendo o que você deseja ouvir: “Você é minha alma gêmea”, “nunca conheci ninguém de quem me sentisse tão próximo” ou “tudo em você é o que eu queria”.

“É muito exagerado, histriônico, mas também pode ser visto como profundamente sedutor e romântico, dependendo do que acontece no meio, do que acontece depois”, disse Raghavan.

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Faz parte da ideia de excesso e de sobrecarregar a pessoa para que ela seja arrebatada
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Chitra Raghavan, professora de Psicologia do John Jay College of Criminal Justice

ISOLAMENTO DE AMIGOS E FAMILIARES

Pode parecer doce que seu novo companheiro queira passar todo o tempo com você. Mas, mais frequentemente, é um sinal vermelho: a pessoa pode ser uma narcisista tentando isolá-lo das outras conexões em sua vida como forma de exercer controle.

Amy Brunell, professora de Psicologia da Ohio State University cuja pesquisa é focada no narcisismo em relacionamentos sociais e românticos, disse que, embora não haja muitas pesquisas sobre abuso e narcisismo por parceiros íntimos, existe uma conexão. Controlar a vida social de uma pessoa desde o início pode deixá-la sem ter para onde ir quando um relacionamento azeda.

“Isso planta as sementes para a violência entre parceiros íntimos, porque geralmente uma pessoa pode querer sair disso, e aí fica é muito difícil”, disse Brunell em entrevista por telefone.

PRESENTES EXAGERADOS

Raghavan disse que dar presentes aos novos parceiros é uma maneira comum dessas pessoas exercerem influência e, mesmo que elas não tenham dinheiro, podem agir como se tivessem.

“Faz parte da ideia de excesso e de sobrecarregar a pessoa para que ela seja arrebatada”, ela disse, acrescentando que a “atenção constante, bajulação, sedução, presentes” dificultam “processar que você está sendo sufocado. E quando você está sufocado, você não vê o perigo”.

Os narcisistas tendem a ser materialistas, disse Brunell, então também podem dar presentes para reforçar seu valor e autoestima.

“Isso me lembra um pouco das coisas de Christian Grey naquela série, a doação crônica de presentes sofisticados”, ela disse, referindo-se ao personagem-título de Cinquenta Tons de Cinza. Como esses personagens são abundantes na mídia romântica, ela acrescentou, seu comportamento “se torna nossa ideia equivalente de romance”.

Paul Eastwick, professor de Psicologia da University of California, Davis, cuja pesquisa examina como as pessoas iniciam e se comprometem em relacionamentos românticos, observou que nem todos os grandes gestos devem ser sinais vermelhos.

“De um modo geral, a maneira como damos carinho a outras pessoas, a maneira como mostramos a elas que nos importamos com elas, a maneira como tentamos apoiá-las, todas essas coisas tendem a prever bons resultados”, disse Eastwick em entrevista por telefone. O “love bombing”, disse, provavelmente representa um “pequeno subconjunto” desse comportamento.

APÓS O BOMBARDEIO DE AMOR

Em relacionamentos românticos adultos saudáveis, apoio, desejo e afeto tendem a ser recíprocos, disse Eastwick. Mas em casos de “love bombing”, a atenção flui em uma única direção: uma pessoa tenta se tornar o mundo inteiro da outra.

Raghavan disse que as pessoas que foram “bombardeadas de amor” muitas vezes sentem como se tivessem perdido seu senso de identidade, o que pode levar muito tempo para ser reconstruído.

“Você perde a noção de quem você é porque pequenas coisas estão sendo gerenciadas para você e essas pequenas coisas podem ser qualquer coisa, desde como você se veste até como você se apresenta”, disse Raghavan. “Mas também pode ser o tipo de piada que você pode contar em público ou o tipo de mulher que ele quer que você seja.”

Esses especialistas disseram que as vítimas devem ter paciência e compaixão, e também podem se beneficiar de terapia. Elas deveriam tentar se reconectar com as atividades e pessoas que importavam para elas antes que esse relacionamento entrasse em suas vidas, aconselharam os especialistas.

“Isso precisa acontecer, aceitar os eventos trágicos e abraçar a positividade do futuro”, disse Raghavan./TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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