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Em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, comunidade se organizar para enfrentar o novo coronavírus Werther Santana/Estadão

Brasil acerta nas medidas no combate ao coronavírus, mas desigualdade preocupa, dizem especialistas

Próximos dias serão cruciais para determinar a curva de crescimento do número de casos e o perfil assumido pela epidemia no País

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 11h00

RIO - Especialistas brasileiros e estrangeiros concordam que o Brasil está tomando as medidas corretas, no momento certo, para reduzir o impacto da disseminação do novo coronavírus. A profunda desigualdade social, no entanto, pode se transformar no maior entrave à eficácia da estratégia. Os próximos dias serão cruciais para determinar a curva de crescimento do número de casos e o perfil assumido pela epidemia no País.

Os quase três meses entre o surgimento da covid-19 na China e o primeiro registro em São Paulo deram ao Brasil uma grande vantagem. O País ganhou tempo para analisar as estratégias adotadas por diferentes países e optar pelas mais bem sucedidas no enfrentamento da infecção.

A experiência estrangeira mostra que as medidas de isolamento e restrição de movimentos devem ser adotadas bem no início da epidemia para funcionarem. Quando cumpridas à risca pela população, são eficazes em reduzir a velocidade da disseminação da doença. Assim, preservam o sistema de saúde do colapso. Ele viria com a explosão de casos em uma quantidade muito acima da capacidade de ação dos hospitais e pessoal médico.

Mas o Brasil tem uma diferença crucial em relação aos outros países por onde passou até agora a epidemia: é uma das nações mais desiguais do mundo. Com 40% da população na informalidade, quem terá condições de ficar em casa por um longo período, sem ganhar dinheiro? Para especialistas, esse é o maior desafio imposto às autoridades brasileiras no enfrentamento da epidemia.

Se o problema não for levado em conta, explicam, as medidas não surtirão o efeito desejado. A epidemia então se abaterá com muita força, sobretudo na população mais carente. Esses brasileiros, muitas vezes, vivem em condições que propiciam ainda mais a disseminação do vírus: sem saneamento básico e aglomerada em espaços exíguos, como as favelas.

“Vejo as próximas semanas com a maior preocupação”, afirma o médico Dráuzio Varella. “Não há experiência prévia dessa epidemia num país com tanta desigualdade social, em que 40% da economia é informal. Precisamos saber como será possível paralisar essas pessoas.”

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Levantamento divulgado na última quinta-feira, 19, pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois), formado por especialistas da PUC-RJ, da Fiocruz e do Instituto D'Or, analisou as estratégias adotadas por diferentes países contra o vírus. Constatou a eficácia das medidas de isolamento e restrição da mobilidade. O grupo está monitorando a curva de crescimento dos casos no País.

 “Tentamos identificar em diferentes países como as ações de mitigação impactavam o curso da epidemia dependendo do momento em que são adotadas”, explica o infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz e do Instituto D'Or, que participou do levantamento. “A nossa análise mostra que os países que demoraram a adotar as medidas ou não as adotaram nacionalmente têm um resultado pior, e sugere que quando as ações são tomadas precocemente elas são mais eficazes.”

Medidas como isolamento e restrições de deslocamento adotadas pela China e Coreia do Sul foram eficazes na redução das taxas de crescimento dos casos de covid-19. Países como Itália e Espanha, que demoraram mais tempo a tomar tais medidas, tiveram uma curva de crescimento de casos mais acentuada. Agora, são forçados a adotar medidas mais radicais, enquanto enfrentam grande quantidade de mortes, sobretudo de idosos.

No caso da Itália, o crescimento exponencial do número de casos em um período de tempo muito curto provocou o colapso do sistema de saúde. A Itália já ultrapassou a China em número de vítimas fatais, com quase 5.500 mortes, contra 3.270 no país asiático. 

“Muitos países estão olhando agora para a Itália como um caso de estudo e os próprios médicos italianos estão dizendo ‘não façam como nós fizemos’. Quer dizer, não pensem que não é nada, levem isso muito a sério”, afirmou o virologista Kurt Williamson, da Universidade Will & Mary, nos Estados Unidos. “Já está claro que esse vírus pode ser transmitido pelo que chamamos de ‘dispersão comunitária’. Ou seja, não é só quando uma pessoa tosse na sua cara. O contato casual com uma pessoa infectada pode ser o suficiente. Por essas razões, fechar lojas, restaurantes e escolas, trabalhar de casa, manter as pessoas afastadas de grandes aglomerações e eventos sociais é exatamente o que precisamos fazer.”

O Reino Unido, inicialmente, adotou uma estratégia diferente da maioria da Europa, isolando somente os doentes, e apostando na chamada imunização de rebanho. De acordo com essa tática, depois que 80% da população tivesse a doença (a maioria de forma branda), seria criada, a médio prazo, uma imunidade coletiva. Mas Boris Johnson mudou rapidamente de ideia depois que um estudo do Imperial College de Londres mostrou que a estratégia resultaria em pelo menos 260 mil mortes no país. Já decretou o fechamento das escolas a partir de segunda-feira, 23.

“A gente sabe que não dá para evitar completamente a epidemia, mas temos de retardar a velocidade de transmissão implementando mais cedo essas medidas; ainda estamos dentro da janela de oportunidade, mas estamos bem em cima dela”, explica Marcelo Gomes, especialista em saúde pública da Fiocruz. Ele é um dos responsáveis pela elaboração de um relatório que estima o risco da disseminação da epidemia no Brasil. “A questão toda agora é saber se a população vai, de fato, aderir às recomendações; esse é um ponto muito importante. Se a população não aderir, a gente vai encontrar um cenário extremamente preocupante.”

Mas Gomes também chama atenção para a questão da desigualdade social. Enquanto parte da população brasileira tem condições de restringir os deslocamentos e trabalhar de casa, uma boa parcela dos brasileiros não tem essa opção.

“Não é só uma questão de passar informação e convencer as pessoas. Muita gente tem dificuldade de aderir a essas medidas, são trabalhadores informais, gente que não tem carteira assinada, que não pode fazer trabalho remoto”, disse Gomes. “Como é que essa população vai conseguir aderir? Sem medidas de apoio por parte do governo, a escolha é entre o risco de adoecer e a falta de renda no final do mês. É preciso dar suporte a essa população, como foi feito na Alemanha e na França.”

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já anunciou que pretende destinar R$ 200 mensais aos trabalhadores autônomos que não recebam o Bolsa Família. Para os especialistas, no entanto, isso não é suficiente.

“A imensa maioria da população vive no limite da sobrevivência. Seria preciso garantir a ela uma renda mínima, nem que fosse provisória, durante alguns meses”, defendeu o presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Oded Grajew. “E também a criação de um imposto de solidariedade que incidisse sobre a parcela mais rica da população.”

Balanço do Ministério da Saúde divulgado no domingo, 22, mostra que País já tem 25 mortes pela doença e 1.546 casos confirmados.

Medidas que os governos federal, estaduais e municipais vem tomando contra o avanço da doença

  • Fechamento de fronteiras e restrição de voos
  • Isolamento dos idosos, que são a população de maior risco
  • Trabalhar de casa sempre que possível
  • Evitar deslocamentos desnecessários; sair apenas para trabalhar e comprar comida
  • Restrição nos deslocamentos intermunicipal e dentro dos estados
  • Restrição no uso dos transportes públicos
  • Evitar aglomerações em shows, eventos esportivos, festas, praias
  • Suspensão das aulas em escolas e universidades
  • Restrição do funcionamento de restaurantes e bares
  • Fechamento de shoppings centers e academias de ginástica

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'A desigualdade social é grave e vai se agravar muito com a epidemia', diz especialista

Roberto Medronho, epidemiologista da UFRJ e especialista em saúde pública, diz que já deveríamos ter hospitais de campanha e tendas de triagem de pacientes montadas

Entrevista com

Roberto Medronho

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 11h00

RIO - Especialista em saúde pública e professor de epidemiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Medronho acredita que já estamos atrasados na adoção de medidas para o combate à epidemia do novo coronavírus. Segundo o especialista, já deveríamos ter hospitais de campanha e tendas de triagem de pacientes montadas.

“A curva (epidêmica) está se inclinando de forma acelerada, não podemos esperar o número de casos explodir para depois termos de correr atrás”, alertou em entrevista ao Estado.

Segundo ele, a desigualdade social do país é um sério agravante. "A desigualdade social do nosso país é o mais grave problema de saúde pública que temos e vai se agravar muito." 

Medronho criticou as atitudes do presidente Jair Bolsonaro, que classificou as reações mundiais à epidemia de “histeria”, se referiu à covid-19 como "uma gripezinha" e condenou as medidas adotadas pelos governadores de São Paulo e Rio.

“A postura dele é totalmente inadequada”, disse. “Estamos em guerra e uma guerra demanda um comando único. Ele precisa assumir essa posição.”

Leia a entrevista.

O nosso sistema de saúde está preparado para a epidemia? A próxima semana deve ser crucial na explosão do número de casos....

O sistema do jeito que está atualmente não vai dar conta. Mas podemos minimizar os danos com medidas extraordinárias. Já devíamos ter começado a erguer tendas perto dos hospitais para fazer triagem de pacientes, para separar os pacientes da covid-19 dos demais. Já deveria estar montado um hospital de campanha na Quinta da Boa Vista (Rio), como já fizemos com a dengue. Temos que ter os equipamentos de saúde preparados. Temos a obrigação moral de reduzir a letalidade dessa doença. A curva está se inclinando de forma acelerada, não podemos esperar o número de casos explodir para depois termos de correr atrás.

A OMS recomendou o teste maciço de pessoas. A experiência do enfrentamento da doença em outros países mostra que quanto mais diagnósticos (e isolamentos) são feitos, melhor é a resposta à epidemia. Mas o Brasil já disse que não tem como fazer isso até por uma questão de logística e falta de testes. O senhor considera eficaz a decisão de testar apenas os casos graves e investir nas medidas de distanciamento social? Isso não pode estar gerando uma subnotificação dos casos?

Em qualquer lugar do mundo há subnotificação de casos. Em Wuhan, na China, quando havia 100 casos notificados, na verdade, constatou-se depois, eles já tinham 1.500 casos. Então, sempre há subnotificação. Mas isso não é uma falha do sistema. Posso afirmar com toda certeza que o número de casos hoje no Brasil é muito maior do que o registrado. Mas é assim mesmo no caso de doenças virais respiratórias agudas. Também não dá para testar 100% dos casos. A orientação para todas as epidemias é a que o Ministério da Saúde adotou: confirmar laboratorialmente os casos no início da transmissão, para termos certeza de que estamos lidando com essa doença e para saber onde ela está ocorrendo. Agora, depois que a epidemia está instalada, não há condição de fazer exame em todos os casos, em toda a população. Há carência de insumos, de capacidade instalada e de pessoal. Além de um custo alto, um dinheiro que pode ser deslocado para outro lugar mais urgente. Então adotamos um critério clínico, fazemos o diagnóstico clínico e abrimos mão da testagem. Ainda assim, mesmo tendo adotado o que manda a literatura internacionalmente aceita, o ministério já está se mobilizando para comprar mais kits de diagnóstico.

Como o senhor vê a questão da desigualdade social no Brasil em relação às medidas de distanciamento social? A classe média pode trabalhar de casa, mas os mais pobres não podem fazer isso. Ainda temos a questão das comunidades, onde as casas são muito próximas umas das outras, os espaços são compartilhados por muitas pessoas....

A desigualdade social do nosso país é o mais grave problema de saúde pública que temos e vai se agravar muito. A epidemia começou na classe média, mas já imaginou quando chegar em comunidades mais carentes? Pelo menos 60 milhões de brasileiros vivem em municípios onde não há médico de forma permanente. Os danos serão enormes e os mais vulneráveis socialmente serão os mais atingidos. Sem falar no impacto econômico que também precisará ser mitigado. São 40 milhões de brasileiros que vivem no mercado informal.

O que o senhor achou da atitude do presidente Bolsonaro, que classificou a resposta mundial à epidemia de “histeria” e violou seu próprio isolamento indo cumprimentar eleitores em um fim de semana? 

Precisamos ver uma mudança radical de atitude na Presidência da República. Estamos em guerra e uma guerra demanda um comando único. É necessário que ele assuma essa posição, esteja à frente de todo o processo. A postura de Bolsonaro tem sido absolutamente inadequada. Ele é o presidente da República. O que ele faz influencia milhões de pessoas. Independentemente de ele ter testado positivo ou negativo para o vírus, ele fez parte de uma comitiva em que vários membros estão doentes. O protocolo era isolamento. Mas ele rompeu a quarentena e foi para uma aglomeração. Pior, apertou a mão das pessoas, fez fotos. Foi o pior sinal que poderia emitir para todos nós. 

O bispo Edir Macedo e o pastor Silas Malafaia não cancelaram os cultos de suas igrejas e, mais do que isso, minimizaram a ameaça do novo coronavírus. Macedo chegou a dizer que o vírus era inofensivo. Como esse tipo de postura pode ser obstáculo a adoção do distanciamento social e isolamento?

Isso deveria ser tipificado como crime contra a saúde pública. O Ministério Público e a Justiça deveriam tomar uma atitude. Isso foge de qualquer racionalidade e é criminoso. Rogo aos fiéis que deem ouvidos às autoridades de saúde pública, aos técnicos, e não se aglomerem em cultos. Não é verdade que o vírus é inofensivo. Na grande maioria dos casos (cerca de 80%) a infecção será leve ou moderada. Mas 20% dos infectados terão uma doença grave ou mesmo muito crítica. Então, só para dar uma ideia, se tivermos um milhão de casos (o que não é nada para um país de 220 milhões de habitantes), teríamos 200 mil pessoas com a forma grave da doença e até 50 mil óbitos. Não há correlato na história moderna do nosso país de uma epidemia com essa quantidade de óbito.

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