Tiago Queiroz/Estadão
Idosa recebe dose reforço no sistema drive-thru. Recomendação do Ministério da Saúde é receber injeção extra quatro meses após a 2ª Tiago Queiroz/Estadão

Brasil ainda está atrás de EUA, Chile e europeus na aplicação da dose de reforço

Taxa está em 14,5% em relação ao total da população; terceira injeção da vacina é importante contra avanço da Ômicron e para evitar casos graves da doença, alertam especialistas

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2022 | 16h18

Embora tenha conseguido avanço significativo na aplicação das duas primeiras doses da vacina, o Brasil ainda está atrás de outros países no alcance da dose de reforço. A taxa de imunização com a terceira dose no País está em 14,5% em relação ao total da população. Países como Chile, Reino Unido, Estados Unidos e Argentina têm índices maiores. 

A vacinação com o reforço é considerada importante para aumentar a proteção contra hospitalizações e mortes pela covid-19. Também é uma estratégia para reduzir a transmissibilidade do vírus e a sobrecarga dos sistemas de saúde, em meio ao avanço da variante Ômicron, mais contagiosa.

No Brasil, o reforço começou a ser aplicado em setembro e é dado para quem tomou a segunda dose há quatro meses. Como outros países iniciaram a primeira etapa da vacinação antes, também passaram a aplicar a injeção extra antes do Brasil: casos de Israel, que começou em julho e do Chile, em agosto. Até esta terça-feira, 11, o Sistema Único de Saúde (SUS) tinha aplicado 30,6 milhões de doses de reforço, segundo informações reunidas pelo consórcio de veículos de imprensa com as secretarias estaduais de Saúde. 

Mobilizar a população para doses adicionais é sempre um desafio em qualquer estratégia de vacinação. E faltam campanhas do Ministério da Saúde. “As taxas de abandono aumentam com a repetição de doses. As pessoas abandonam o esquema proposto porque têm reação, já se sentem protegidas, esquecem ou porque não se sentem mais ameaçadas”, diz Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações. 

Segundo Kfouri, a partir de outubro, com a redução dos casos e mortes no Brasil, a percepção de risco para a covid-19 diminuiu - o que leva a população a adiar a vacinação. Com a explosão de novos casos agora, em decorrência do Ômicron e das festas de fim de ano, a tendência é que mais pessoas busquem a vacina. Os números diários de vacinação têm aumentado nos últimos dias, mas no último mês os registros sofreram o impacto de um ataque hacker ao sistema do Ministério da Saúde e as festas de fim de ano, quando geralmente há atrasos nas notificações. 

O governo federal não apresentou até agora dados dos faltosos: quantas pessoas já poderiam tomar a terceira dose e ainda não foram aos postos nem o detalhamento da dose de reforço por faixa etária. Isso compromete, inclusive, a avaliação sobre o alcance da terceira dose aos que mais precisam.  

As taxas de imunização com o reforço variam bastante entre os Estados. Em Mato Grosso do Sul e São Paulo, o índice passa de 25%. Em quatorze Estados, porém, a taxa não chega a 10%. Mas o apagão de dados faz com que o Acre, por exemplo, não atualize o número de vacinas aplicadas desde o dia 9 de dezembro. A Paraíba também segue sem atualizar a vacinação. 

"Nos locais de baixa cobertura com a terceira dose, esperamos um índice um pouco maior de hospitalizações e óbitos comparado com locais com elevada cobertura de terceira dose. Mas o impacto (da terceira dose) é muito maior na transmissão, (para reduzir) formas leves”, diz o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Segundo dados reunidos pelo Our World in Data, projeto ligado à Universidade de Oxford, no Chile, a porcentagem de vacinados com a terceira dose chegou a 60,5%.  O Uruguai tem 45,5% da população com a dose de reforço.

Países como Portugal (33,8%) e Estados Unidos (23%) também estão na frente. Em relação à população mundial, no entanto, a taxa do Brasil é superior. Em todo o mundo, a vacinação com a dose de reforço está em 10% e países na África e na Ásia ainda têm baixíssimas coberturas até mesmo com a segunda dose.

Se por um lado há dificuldade de mobilizar a população para doses adicionais, por outro, Estados e municípios têm hoje à mão dados precisos - nomes e contatos - de quem deveria buscar os postos e ainda não foi. Estratégias de busca ativa, como envio de mensagens aos faltosos deveriam ser ampliadas. 

“Temos vacina. Não se justifica no contexto da Ômicron que uma pessoa elegível não vá aos postos, mas muitas pessoas nem sabiam que depois de quatro meses deveriam receber essa dose”, diz Croda, para quem faltam campanhas nacionais e estratégias locais de ampliação do reforço. “Podemos melhorar esse indicador.”

Procurado, o Ministério da Saúde não se manifestou até as 18 horas. 

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Dose de reforço contra a covid-19 evita infecções graves e sobrecarga nos hospitais

Importância da terceira injeção da vacina tem sido reforçada diante do avanço da variante Ômicron

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2022 | 16h25
Atualizado 12 de janeiro de 2022 | 18h48

A dose de reforço da vacina contra a covid-19 já está disponível para todos os adultos brasileiros que tenham tomado a segunda dose há quatro meses. No Brasil, 30,6 milhões de pessoas tomaram a terceira dose, o que representa menos de 15% da população. Especialistas avaliam que a dose adicional é importante para reduzir o risco de hospitalizações e mortes e para diminuir a transmissibilidade do vírus, evitando a sobrecarga dos sistemas de saúde. 

Pesquisas sobre o impacto da variante Ômicron, altamente transmissível, indicam que as duas doses das vacinas disponíveis continuam reduzindo o risco de casos graves da doença, mas há perda de uma parte da proteção. Ou seja: até mesmo vacinados se infectam, mas costumam ter sintomas menos graves e transmitem a doença. Uma dose adicional aumenta os níveis de anticorpos e reduz a chance de adoecer e de contágio. 

Diante da Ômicron, a dose de reforço é considerada uma das três estratégias cruciais para reduzir casos graves da covid-19, diz Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações. “Aumentar o número de vacinados, completar os esquemas de vacinados e reforçar as doses de quem perdeu a proteção parecem ser o tripé necessário para conter o aumento de formas graves nessa explosão de casos.” Na terça-feira, o Brasil registrou 73,6 mil novos casos de covid-19 em apenas 24 horas - o maior número diário desde setembro. 

Dados apresentados pelo secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz, mostram que a taxa de internação de idosos por covid-19 na rede pública da capital é 24 vezes maior entre não vacinados na comparação com idosos que receberam a terceira dose.

A taxa de internação de idosos com o reforço é de 8,6 por 100 mil, e de 31,41 por 100 mil entre idosos com as duas doses. Já o índice de internação de idosos não vacinados é de 204,88 por 100 mil. Já na população de 12 a 59 anos, a taxa de internação é 20 vezes menor entre os receberam o reforço, na comparação com não vacinados. E seis vezes menor entre os que já receberam o reforço na comparação com aqueles que têm as duas doses.  

Os Estados Unidos orientam a vacinação com o reforço até mesmo para adolescentes. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano, a eficácia das vacinas na prevenção de infecções ou doenças graves diminui com o tempo, especialmente em pessoas com 65 anos ou mais. O surgimento da variante Omicron reforça ainda mais a importância da estratégia de reforço, segundo o CDC. 

Para o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a dose de reforço tem ainda outro papel: o de reduzir a transmissibilidade do vírus e os casos leves. “Nos locais de baixa cobertura com a terceira dose, esperamos um índice um pouco maior de hospitalizações e óbitos comparado com locais com elevada cobertura de terceira dose. Mas o impacto (da terceira dose) é muito maior na transmissão, (para reduzir) formas leves.”

Postos de saúde já sofrem os impactos do grande número de infectados pela covid-19 nos últimos dias. As filas para testes são longas e o atendimento demora horas. A alta de casos de síndromes gripais nos últimos dias também tem levado ao afastamento de suas funções milhares de profissionais de saúde infectados pela covid-19 ou pela influenza em várias regiões do País. Consequentemente, as equipes na linha de frente estão sobrecarregadas. 

“Teremos maior impacto nas emergências e unidades básicas de saúde. Com isso, deixa-se de atender outras patologias, acompanhar outros tipos de pacientes”, diz Croda.  Para o especialista, não há justificativa para que as pessoas que já podem tomar a terceira dose deixem de procurar os postos de saúde.

Podem tomar a terceira dose pessoas vacinadas com as duas doses da Pfizer, AstraZeneca ou Coronavac há pelo menos quatro meses. No caso de vacinados com a vacina da Janssen (de dose única), a orientação é receber a segunda dose (dose de reforço) pelo menos dois meses após a primeira aplicação.

Quando eu devo tomar a dose de reforço?

  • Quem tomou a 1ª e a 2ª doses da Coronavac, AstraZeneca e Pfizer: buscar um posto de saúde quatro meses depois da segunda dose. A vacina a ser utilizada para a dose de reforço deverá ser, preferencialmente, da Pfizer ou, de maneira alternativa, da Janssen ou da AstraZeneca. 
  • Quem tomou a 1ª dose da Janssen: tomar a 2ª dose (dose de reforço) a partir de dois meses após a primeira. Mulheres que tomaram Janssen previamente e atualmente estão grávidas ou puérperas deverão ser imunizadas exclusivamente com a vacina da Pfizer.
  • Pessoas com alto grau de imunossupressão (como pessoas que fazem quimioterapia e hemodiálise) devem tomar duas doses adicionais, sendo a primeira dose adicional pelo menos 28 dias após a última dose do esquema vacinal (segunda dose ou dose única); e a segunda dose adicional pelo menos 4 meses após a última dose. 

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