Ueslei Marcelino/REUTERS
Cemitério de Taguatinga, no Distrito Federal, unidade federativa com a pior taxa de óbito no Brasil Ueslei Marcelino/REUTERS

Brasil chega à marca de 150 mil mortos por covid; 4 Estados têm mais de mil casos por milhão

Se fossem países independentes, quatro Estados brasileiros estariam no topo do ranking mundial com os piores índices de morte por milhão de habitantes

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 14h17
Atualizado 10 de outubro de 2020 | 20h30

Em sete meses de pandemia, o Brasil chegou às 20h deste sábado, 10, à marca de 150.236 mortes por covid-19, de acordo com dados do levantamento realizado por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL com as secretarias estaduais de Saúde. A análise da taxa de óbito em cada Estado também confirma o mau resultado brasileiro no combate ao novo coronavírus. Se fossem países independentes, quatro unidades federativas estariam no topo do ranking mundial com os piores índices de morte por milhão de habitantes.

Hoje, o Peru é quem apresenta a maior taxa de óbito no mundo, com 1.002 casos por milhão de habitantes, segundo aponta a organização Worldometers, que compila estatísticas de órgãos oficiais sobre a pandemia. Com a atualização de dados às 20h, o site apontou que o Brasil assumiu a 3ª posição, com 705 mortes por milhão, atrás também da Bélgica, e levemente à frente que Bolívia e Espanha.

Esta lista é formada só por países com mais de um milhão de pessoas, como faz o Ministério da Saúde em comparativos publicados nos boletins epidemiológicos, motivo pelo qual os europeus San Marino e Andorra foram desconsiderados.

Levantamento do Estadão Dados indica que quatro unidades do Brasil têm índice pior do que o Peru: Distrito Federal (1.132 óbitos por milhão de pessoas), Rio de Janeiro (1.117), Mato Grosso (1.037) e Amazonas (1.022). A reportagem excluiu Roraima por ter população estimada de 605,7 mil habitantes.

Na outra ponta da tabela, Minas Gerais aparece com a menor taxa do Brasil, de 381 mortes por milhão. Estados da Região Sul, onde o coronavírus também chegou mais tarde, vêm logo em seguida: Santa Catarina (406), Paraná (412) e Rio Grande do Sul (451).

Segundo pesquisadores ouvidos pelo Estadão, o fato de a pandemia se manifestar em momentos e intensidades distintas ajuda a explicar a disparidade de mortes nos diferentes locais do Brasil – mas não é a única justificativa. Sudeste, Norte e Nordeste registraram pico de óbitos por covid-19 no período entre o fim de abril e meados de maio. Já as regiões Sul e Centro-Oeste apresentaram uma curva mais tardia, com maior patamar no mês de julho.

 

“No Brasil, a epidemia chegou em três lugares primeiro, com uma quantidade imensa de casos: São Paulo e Rio de Janeiro, que têm grandes aeroportos internacionais, e em Fortaleza, onde o turismo é forte e recebe voos da Itália”, relata o epidemiologista Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP. “A idade é outro fator que precisa ser considerado. Enquanto na cidade do Rio de Janeiro 18% das pessoas têm acima de 60 anos, esse índice em Roraima é de 6%.”

Reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o infectologista Pedro Hallal avalia que a discrepância nas taxas também reflete as ações adotadas em cada lugar. “Os melhores resultados estão, sim, em regiões em que a epidemia demorou mais a chegar”, analisa. “Mas foram esses Estados que tomaram melhores medidas de controle, seja em termos de distanciamento social ou de preparação de leitos hospitalares.”

Para o pesquisador Marcelo Mendes Brandão, do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp, o resultado deixa em evidência a falta de coordenação nacional no enfrentamento ao novo coronavírus. Com a pandemia ganhando conotação política, segundo argumenta, medidas de isolamento perderam adesão nos Estados, governadores passaram a ser pressionados e alguns lugares deram início à reabertura antes da hora. No período, o governo Jair Bolsonaro ainda promoveu duas trocas no comando do Ministério da Saúde.

“A primeira acelerada da doença no Brasil acontece entre o fim de abril e o início de junho. Era neste momento de dispersão que deveria ter havido uma coordenação interestadual para frear a covid-19, a exemplo do que foi feito na Nova Zelândia”, descreve Brandão. “Mas aqui a gente perdeu o ‘timing’. Foi quando começou a história da cloroquina, da ‘gripezinha’ ou de ‘todo mundo vai pegar’. Estamos pagando por esse descontrole até agora.”

Responsável pela pior taxa do País, o Distrito Federal até interrompeu precocemente as atividades consideradas não essenciais, mas o governador Ibaneis Rocha (MDB) mudou de postura mesmo com novos casos de coronavírus aumentando. Em junho, ele chegou a declarar ao Estadão que as “restrições não servem mais para nada”. “(A covid-19) Vai ser tratada como uma gripe, como isso deveria ter sido tratado desde o início”, disse.

O Rio precisou lidar logo cedo com a chegada da doença (foi o segundo Estado brasileiro a registrar óbito por coronavírus) e convive com flagrantes desrespeitos ao isolamento social, num alto e baixo dos números de mortes desde então. No período, também sofreu com suspeitas de corrupção na área da Saúde. Em comum com Brasília, o Estado convive com presença de favelas e grande fluxo de pessoas entre regiões – particularidades que também precisam ser levadas em conta, de acordo com os cientistas.

“Rio e Brasília estão entre as maiores rendas per capita do Brasil. Com mais acesso à informação, era de se pensar que teriam maior controle sobre a pandemia, mas, quando a gente vai ver, Leblon e Ipanema são os locais com mais covid-19 no Rio. Em Brasília, é no Lago Sul. Ou seja, as maiores rendas trataram a doença como uma questão secundária”, diz Brandão. “Quem acaba pagando são as pessoas sem acesso a hospitais de ponta, que precisam trabalhar no shopping ou pegar transporte público. Essa diferença social também se reflete nas regiões de maior mortalidade do País."

Consideradas fundamentais para detectar e isolar focos ativos da doença, políticas de testagem em massa nunca saíram do papel. Para Edimilson Migowski, professor de Infectologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Estado perdeu com o baixo alcance do sistema de vigilância, uma alternativa para identificar, monitorar e cuidar de pessoas infectadas. “Na capital, que puxa esses números para cima, a Saúde da Família é muito precária, talvez com 40% de cobertura”.

Segundo Migowski, em geral, as estratégias atuais também estariam “muito concentradas na profilaxia e prevenção”. Na visão dele, é preciso avançar em ações para além do uso de máscara e do incentivo à etiqueta de higiene respiratória. “Não existe trabalho nos outros dois pilares: instrumentalizar para que se identifique os casos e tratar precocemente os pacientes.”

Apesar de a média diária de mortes estar em queda no Brasil, os cientistas alertam que o patamar ainda é alto e que o controle de transmissão da covid-19 requer cuidados. A pandemia não acabou nem foi controlada. Um exemplo é o Amazonas. Primeiro a entrar em colapso, entre abril e maio, o Estado chegou a abrir valas coletivas e a usar contêineres frigoríficos para abrigar seus mortos, mas os casos caíram a partir do mês seguinte e houve reabertura de comércios e serviços. Em julho, Manaus se tornaria a primeira capital a autorizar retorno das aulas presenciais.

Com a retomada das atividades, no entanto, os óbitos por covid-19 começaram a subir novamente – neste mês, o Amazonas ultrapassou o Ceará na taxa de mortes por milhão de pessoas. Diante da explosão de novos casos, o prefeito de Manaus, Arthur Neto (PSDB), voltou a falar em lockdown, o fechamento completo da cidade, hipótese que foi descartada pelo governador Wilson Lima (PSC).

Cansado de isolamento social, Brasil busca saída por protocolos de convivência

Em números absolutos, os 150 mil mortos colocam o Brasil em segundo lugar do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Quatro a cada cinco municípios brasileiros já perderam alguém para o coronavírus. Em perspectiva, o contingente equivale a quase dois Estádios do Maracanã lotados e é maior do que as mortes provocadas por outras doenças, grandes tragédias ou violência urbana no País.

O Brasil registrou a primeira morte por coronavírus no dia 12 de março – a de uma mulher de 57 anos, moradora de São Paulo. Cerca de um mês depois, todos os Estados brasileiros já tinham notificado pelo menos um óbito. Segundo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, hoje a maioria das vítimas é homem e apresenta algum fator de risco, como idade acima de 60 anos, problema cardíaco ou diabetes. Entre os óbitos notificados, também há 451 crianças de até 5 anos.

O Ministério da Saúde aponta que, ao todo, 4.608 cidades (ou 83% do País) já fazem parte das estatísticas de perdas para a covid. Por sua vez, em 5.565 municípios, o equivalente a 99,9% do Brasil, houve algum caso confirmado do novo coronavírus.

Embora a proliferação da doença tenha começado por grandes centros urbanos, ela também já se espalhou pelo interior. Pelos dados do Ministério da Saúde, 50% dos óbitos recentes foram registrados fora de regiões metropolitanas.

Para especialistas, em tese, o isolamento social continua sendo a melhor forma de conter a transmissão do vírus. Eles admitem, entretanto, que esta não é mais uma estratégia viável. Por questões sociais ou financeiras, uma parcela da população nunca pôde aderir à quarentena no País. Outros se negam a acatar a recomendação de cientistas e da Organização Mundial de Saúde (OMS). Quem ficou em casa, agora, também já está há tempo demais recluso, segundo avaliam.

“Psicologicamente, as pessoas começam a ficar pesadas. Esse período longo do Brasil no topo do gráfico foi cansando”, afirma Marcelo Mendes Brandão. Uma amostra desse problema, descreve, foi o aumento de casos registrados após o feriadão de 7 de setembro, quando hotéis voltaram a lotar e houve aglomerações em praias. “Hoje, o que nos resta fazer é combater maluquices de desinformação, como a história de que medição de temperatura pela testa causaria problemas de saúde, e também desenvolver um protocolo prático de convivência. Por exemplo: fui para rua e me senti mal, o que eu faço? Estou contaminado, quem eu procuro?”

Um dos defensores do lockdown durante os momentos mais críticos da pandemia, Pedro Hallal concorda que, na prática, não faz mais sentido fechar as cidades. “Fazer o distanciamento social está mais difícil, as pessoas estão cansadas e precisando sair de casa, seja por questões financeiras ou por problemas de saúde mental”, diz. “O #FicaEmCasa não é mais prioridade. Hoje, a gente tem de estar preocupado em usar máscara, manter hábitos de higiene e #EviteAglomeração."

Hallal avalia, ainda, que médicos e hospitais estão atualmente mais preparados para lidar com a doença. “Uma pessoa que pegou covid-19 em março tinha muito mais chance de morrer do que quem pegou em setembro. Não é que hoje pode pegar, é que antes era mais grave”, diz. “É claro que a pandemia ainda é um problema, mas todas as evidências mostram que, no Brasil como um todo, a taxa de transmissão diminuiu e a média móvel de casos e de mortes está em processo de queda. A pergunta que tem de ser feita agora é: precisávamos ter chegado a 150 mil mortos? A resposta é ‘não’.”

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Com melhor resultado, MG tem adesão a isolamento e até multa por falta de máscara

Minas Gerais tem menos 400 mortes por milhão de habitantes, mas especialistas questionam qualidade dos dados do Estado

Leonardo Augusto, Especial para o Estadão

10 de outubro de 2020 | 14h14

BELO HORIZONTE e CARMO DO CAJURU - Com menos de 400 mortes por milhão de habitantes, Minas Gerais tem o melhor desempenho na comparação entre as unidades do Brasil. Embora questionem a qualidade dos dados no Estado, especialistas também avaliam que a adesão satisfatória ao isolamento e até multa para quem andar sem máscara em Belo Horizonte, a maior e principal cidade, estão entre os fatores que evitaram ainda mais vítimas do coronavírus. O que não significa dizer, no entanto, que Minas atravesse a pandemia sem sofrimento.

Para evitar a propagação do vírus, ainda hoje há pessoas “ilhadas” e sem ter contato nem com parentes. É o caso de um abrigo de idosos em Carmo do Cajuru, cidade de aproximadamente 24 mil habitantes, que registrou três mortes e dois surtos de covid-19 – um em abril e outro em agosto. Com 49 internos de 48 a 90 anos, o local segue sob ordem de isolamento há cinco meses. Posto na entrada, um tapume parece lacrar a instituição. Lá, só entram médicos, cuidadores e pessoal de limpeza.

No primeiro surto, quando houve as três mortes, todos os funcionários tiveram de ficar trancados. Foram 34 dias de confinamento. Hoje, mesmo com a situação considerada sob controle no local, ainda não há prazo para que os internos possam voltar a ver seus familiares. “O que sentem mais falta são as atividades que foram suspensas, como a missa e o forró”, relata Juliana Paula Esteves, diretora de Vigilância em Saúde de Carmo do Cajuru.

“O que me deixou preocupada não foi pegar a doença, mas a possibilidade de transmitir para um idoso acamado, o que poderia significar mais mortes. Não quis nem contar para eles”, diz a cuidadora Poliana Lopes Barbosa, de 34 anos, que contraiu covid-19 em agosto, cumpriu a quarentena em casa e depois voltou a trabalhar. Colega dela, o enfermeiro Pedro Victor de Carvalho, de 23 anos, afirma se sentir seguro com os equipamentos de proteção disponíveis no local. “Mas, se fosse pelos meus pais, não estaria aqui”, diz.

Na semana passada, Minas ultrapassou a marca de 300 mil casos confirmados e mais de 7,4 mil mortes por coronavírus – número, por si só, mais de 30 vezes superior à tragédia de Brumadinho. Para o secretário de Estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, impedir a transmissão do vírus é difícil, mas, ao contrário de outras unidades da federação, o Estado conseguiu evitar uma “explosão de casos”, o que teria acontecido se muitas pessoas fossem infectadas e precisassem de atendimento ao mesmo tempo.

Na visão de Amaral, a taxa de óbitos mais baixa do País está relacionada principalmente à adesão da população ao “isolamento social precoce”. Nas primeiras semanas de medição, em março, o índice chegou a 60%. “Estudos apontam que esse percentual é suficiente para evitar a transmissão, mas não a explosão dos casos”, diz. “Isso freou o vírus e nos deu tempo para preparar o sistema de saúde. Em julho, quando os casos aumentaram, a rede de atendimento já estava preparada.”

Segundo pesquisadores, o resultado de Belo Horizonte também tem forte impacto no balanço do Estado. Na capital, o uso de máscara de proteção é visto pela prefeitura como um dos principais trunfos – e, desde julho, quem for flagrado com nariz e boca descobertos está sujeito a multa de R$ 100. “Houve uma adesão importante após a multa. Depois, as pessoas foram se acostumando e, hoje, o uso de máscara na cidade é um hábito”, avalia Taciana Malheiros, secretária-adjunta municipal e subsecretária de Atenção à Saúde.

Medidas de distanciamento social, que entraram em vigor no dia 20 de março, também teriam sido fundamentais para impedir que a tragédia fosse ainda maior em Minas, segundo Taciana. “Ajudou a evitar a propagação do vírus enquanto preparávamos o sistema de saúde da cidade. Com isso, entre março e hoje, saímos de 101 leitos de UTI, voltados para doenças respiratórias, para 424”, diz. Atualmente, a taxa de isolamento oscila entre 43% e 45% ao longo da semana, e fica próximo de 50% aos domingos.

Outra aposta de Belo Horizonte foi conter a doença entre a população de rua e em abrigos para idosos, com esquema de transferência para área isoladas em casos suspeitos. Para moradores de vilas e favelas, foram distribuídos 2 milhões de equipamentos de proteção. De acordo com dados da secretária-adjunta, 70% dos pacientes que tiveram algum sintoma de covid-19 receberam ao menos atendimento inicial nos postos de saúde da prefeitura, a rede básica de atendimento.

Professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o infectologista Geraldo Cunha Cury afirma que a relação de óbitos por milhão de habitantes é a forma mais adequada de avaliar o avanço da doença, mas pondera que o resultado não significa que o problema foi superado. “Pode-se falar que Minas está em situação melhor que outros Estados da federação, mas não existe situação confortável em um cenário de pandemia”, pontua.

 

  

Segundo avalia, o desempenho estaria relacionado a proteções individuais e às restrições impostas na quarentena – sobretudo na capital, cujas medidas impactam em cidades vizinhas e atingem cerca de 6 milhões de pessoas, ou 30% da população do Estado. “Não temos vacina, não temos medicamento efetivo. O que temos são medidas como o fechamento do comércio e das escolas.”

Para Cury, porém, os cuidados com a doença ainda precisam ser melhor assimilados, principalmente em cidades maiores e mais distantes de Belo Horizonte, como Uberlândia, Montes Claros ou Governador Valadares. “O uso da máscara foi incorporado na capital, mas nem tanto no interior”, descreve. Outra falha, segundo afirma, é a atenção na hora de respeitar a distância mínima de 1,5 metro entre as pessoas. “Isso não está acontecendo em lugar nenhum”.

Pesquisadores também contestam a qualidade dos dados de Minas. O epidemiologista Wildo Navegantes de Araújo, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que, com mais de 850 municípios, pode haver defasagem de notificações. “A perda de dados é grande. Toda Belo Horizonte e a região sul é um tipo de Estado mas, quando você vai para o norte, as diferenças são muito intensas”, diz. 

Professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Lotufo afirma que a falta de testes também pode ser responsável por puxar as notificações para baixo – uma vez que deixa de constatar que a morte foi por covid. “Em Belo Horizonte, há um prefeito (Alexandre Kalil) que foi super comprometido. Já o governador (Romeu Zema) até chegou a declarar que não ia fazer teste porque era uma questão acadêmica.”/Colaborou Felipe Resk e Isabella Macedo/Especial para o Estadão

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Com áreas precárias e falta de testes, Rio e DF disputam pior resultado do Brasil

Rio também sofreu com suspeitas de corrupção na Saúde; no DF, governador mudou desistiu de isolamento no meio da pandemia

Roberta Jansen e Isabella Macedo*, *Especial para o Estadão

10 de outubro de 2020 | 14h15

RIO E BRASÍLIA - Entre as unidades do Brasil, Distrito Federal e Rio de Janeiro se alternam na pior colocação no critério de mortes por milhão de habitantes. Apesar das particularidades de cada local, especialistas apontam aspectos em comum que ajudam a explicar o mau desempenho no combate à covid-19: a falta de testes e a presença de áreas pobres, com carência de atendimento médico básico e dificuldade para fazer isolamento social.

Com mais de 18,5 mil mortes notificadas, o Rio proporcionalmente se equipara a regiões mais duramente atingidas pela infecção, como a Lombardia, na Itália, e Nova Jersey e Nova York, nos Estados Unidos. Para se ter ideia, levantamento do grupo Covid-19 Analytics, formado por especialistas da PUC-Rio e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que San Marino, com população de apenas 33,7 mil habitantes, que nem sequer daria para encher o Maracanã, é o único país do mundo com taxa de óbito superior ao Estado.

Não há consenso entre especialistas para explicar a situação do Rio. Entretanto, todos são unânimes em afirmar que o número de testagem e rastreamento de casos é baixo e que faltou coordenação entre autoridades federais, estaduais e municipais, para dizer o mínimo.

Segundo a pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, até as informações para entender o modelo de comportamento da covid-19 no Estado são insuficientes. “Não sabemos explicar as diferenças regionais. Por exemplo, não sabemos dizer o que caracteriza o recrudescimento da epidemia, se ele está ligado ao relaxamento do isolamento ou se há um papel importante da questão ambiental”, diz.

Integrante do Centro de Gestão em Saúde da Coppead/UFRJ, Chrystina Barros avalia que o Rio também sofre com questões políticas e suspeitas de desvio de recursos públicos. “Temos um governador (Wilson Witzel) afastado, um secretário de Saúde preso, outro secretário que pediu exoneração e um terceiro que não estabeleceu nenhum canal de comunicação com a população”, enumera. “E temos Estado e capital enfrentando problemas seríssimos de corrupção.”

Atualmente, o Estado do Rio vive aumento no número de internações na rede pública e privada que pode indicar o início de uma nova onda de coronavírus – embora isso ainda não esteja caracterizado. Em paralelo, houve registro de aglomerações irregulares em praias e bares nas últimas semanas. Mesmo assim, a reabertura de serviços não essenciais segue acontecendo.

“Há indicadores concretos de que a doença continua se espalhando e, em nenhum momento, vemos ações coerentes para o relaxamento do isolamento ou fiscalização de medidas”, afirma Chrystina. “Ou seja, um caldeirão perfeito para termos um dos piores cenários do Brasil, apesar de sermos o cartão postal do País no mundo.”

Para o infectologista Roberto Medronho, coordenador do grupo de trabalho multidisciplinar de enfrentamento à covid-19 da UFRJ, embora o Rio tenha uma das maiores redes de hospitais públicos do País, eles não foram devidamente preparados para a pandemia. Além disso, recursos que poderiam ter sido investidos na rede, deixando um legado, foram para os hospitais provisórios de campanha.

“Ao longo dos últimos anos, especialmente na gestão atual, houve uma subvalorização da estratégia de saúde da família, com a demissão de várias equipes”, diz. “Levando-se em conta que de 80% a 90% da população apresenta a forma mais branda da doença, esses profissionais seriam centrais para a detecção e isolamento de pacientes, evitando a sobrecarga das UPAs, o que acabou ocorrendo.”

Outro ponto citado por especialistas é que quase um terço da população do Rio mora em comunidades e bairros onde há um grande adensamento populacional, o que favorece a disseminação do vírus. “Temos muita gente vivendo em áreas muito densas, onde a quarentena não foi 100% respeitada. Quando o vírus entra, acaba contaminando muitas pessoas”, afirma o professor de economia da PUC Marcelo Medeiros, coordenador do Covid-19 Analytics. “Mas a verdade é que no Rio tem muito achismo, é difícil dizer exatamente.”

Em nota, a Secretaria de Saúde do Estado do Rio disse que desconhece os critérios de avaliação utilizados na pesquisa. “A área técnica da pasta sempre esteve disponível e mantendo contato ativamente com todas as autoridades e instituições relacionadas à Saúde do Rio de Janeiro desde o início da gestão”, afirmou nota enviada pela SES. “A comunicação com a população está aberta e acessível desde o primeiro dia em que Carlos Alberto Chaves assumiu a SES-RJ. O secretário pretende manter dessa forma a administração da Saúde e aprimorar cada vez mais a relação com a população e demais gestores. O secretário tem investido na transparência dos atos de sua gestão, participando de reuniões com órgãos de controle como o Ministério Público Estadual, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública”, concluiu a nota.

Diferenças sociais também são problema no DF

O Distrito Federal já contabiliza, em números absolutos, mais de 19o mil casos e 3,2 mil mortes em decorrência do novo coronavírus. Para pesquisadores, diferenças sociais e econômicas entre Brasília e regiões do entorno ajudam a explicar o cenário ruim.

“Temos serviço especializado basicamente no Plano Piloto, mas não temos tanto assim nas regiões administrativas periféricas. Estamos falando de Ceilândia, Samambaia, Riacho Fundo, Paranoá e outros mais que não têm a riqueza de tecnologia especializada e voltada à atenção desses pacientes”, descreve o epidemiologista Wildo Navegantes de Araújo, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Com a oferta precária, pacientes precisam recorrer às unidades do Plano Piloto. Um exemplo, cita o professor, é a Cidade Estrutural, região a cerca de dez quilômetros da Praça dos Três Poderes, que cresceu ao redor de um lixão. “Há apenas um centro de saúde dividido em dois prédios. E mais nenhum modelo de atenção, nenhum serviço de saúde ofertado para uma população praticamente 100% dependente do SUS.”

Outro problema foi o Distrito Federal ter deixado de ofertar testes diagnósticos na mesma quantidade do início da pandemia. Segundo o epidemiologista, isso aumenta os riscos de atendimento tardio aos pacientes e, portanto, as chances de óbito.

Araújo analisa, ainda, que no início o governador Ibaneis Rocha (MDB) acertou ao fechar rapidamente atividades não essenciais, dando tempo para melhorar o sistema de saúde, mas depois acatou o discurso do presidente Jair Bolsonaro e passou a “abrir mão das medidas de controle de forma totalmente inexplicada, tecnicamente falando”.

“Em um primeiro momento, ele fez um trabalho excepcional com sua equipe técnica, orientando o distanciamento social, o uso das máscaras e a não retomada de aglomerações”, afirma. “De um tempo para cá, vai assumindo que essa doença já não era mais importante, que poderia estar associada a uma 'gripezinha'. E essa gripezinha faz com que hoje tenhamos no DF milhares de mortes, uma das taxas de mortalidade mais altas do Brasil.”

Diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaéz pondera que as características e o tamanho da unidade federativa, com população de 3 milhões de pessoas, podem causar distorções na comparação com outros Estados. “Há um viés muito grande. O Distrito Federal, na verdade, é uma cidade. (Há diferenças) em termos de território, populações, deslocamentos e até as próprias naturezas das atividades econômicas”, diz.

Urbaéz também ressalta que, por ser uma unidade federativa mais nova, com poucas regiões e dispor de Sistema Único de Saúde (SUS) considerado robusto, o Distrito Federal tende a processar dados mais rapidamente comparado a outro lugares. No entanto, ele alerta que situação ainda inspira cuidados. “É importante lembrar que ainda estamos no pior momento da pandemia. O pior ainda não passou.”

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