WERTHER SANTANA/ESTADÃO - 20/06/2022
WERTHER SANTANA/ESTADÃO - 20/06/2022

Brasil deixou de aplicar 111 milhões de doses em atrasados, diz Ministério da Saúde

São 22 milhões de segundas doses e 62,2 milhões de terceiras (1º reforço) em atraso, além de 27,1 milhões de quartas doses (2º reforço) em pessoas com 50 anos ou mais

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 13h53
Atualizado 20 de junho de 2022 | 17h53

Mais de 111,8 milhões de doses contra covid-19 já poderiam ter sido aplicadas em indivíduos aptos, mas que ainda não buscaram postos de saúde para atualizar a imunização, segundo divulgou o Ministério da Saúde nesta segunda-feira, 20. São 22 milhões de segundas doses e 62,7 milhões de terceiras (primeiro reforço), em atraso, além de 27,1 milhões de quartas doses (segundo reforço) em pessoas com 50 anos ou mais. Conforme o Vacinômetro do governo federal, no total, o País já administrou 444,7 milhões de vacinas. A pasta também anunciou a expansão da quarta dose para o público com 40 anos ou mais.

Somente 17,6% do público 60+ e 2,5% pessoas de 50 a 59 anos já tomaram a quarta dose no País. A primeira dose de reforço (3ª dose) só foi administrada para 5,6% dos adolescentes de 12 a 17 anos, e a 33,4% dos jovens de 18 a 29. Quanto às vacinas pediátricas, apenas 37,5% das crianças de 5 a 11 anos completaram o esquema vacinal primário.

A aplicação de doses de reforço faz frente a estudos que demonstram que, ao longo do tempo, os níveis de anticorpos neutralizantes caem. “Temos verificado que se faz necessário, depois de aproximadamente quatro meses, ter uma dose de reforço para garantirmos a menor circulação do vírus e impedirmos cada vez mais que o paciente venha a ter o quadro mais grave da doença”, explicou Arnaldo Correia de Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde da pasta.

“Vacina boa é aquela aplicada no braço”, afirmou Medeiros. Ele destacou que o avanço da imunização de reforço tem reflexo na qualidade de vida da população e também no avanço da economia.

Cássia de Fátima Rangel Fernandes, diretora do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do ministério, mostrou que durante a primeira onda da Ômicron o risco de quadro grave de covid foi “muito superior” em não vacinados em qualquer faixa etária. “Pessoas não vacinadas tiveram risco de ter covid-19 grave ou ir a óbito de 6 a 9 vezes maior do que pessoas vacinadas durante os primeiros meses de 2022”, acrescentou.

Mesmo com mais de 111 milhões de doses em atraso, Socorro Gross, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, destacou que o País tem “um histórico de vitórias nos assuntos de vacinação”. “Ainda que outros países tenham mais vacinas. Não tem o grau (de cobertura vacinal) que o Brasil tem.”

Socorro incentivou que a população busque as doses nos postos. Isso porque, explica, o fim da pandemia em nível mundial só se dará com o “mundo vacinado”.

Quando questionado sobre a adição do imunizante anticovid no calendário vacinal “permanente” – o Programa Nacional de Imunizações (PNI) –, Medeiros destacou que o assunto é uma “preocupação” e está sendo discutido, mas não há prazo para isso. “Por não termos uma clareza com relação à posologia e aos grupos prioritários.”

Ao ser perguntado sobre o impacto da desinformação no avanço da imunização de reforço, Medeiros desviou do assunto. “O nosso papel enquanto ministério é garantirmos que a população brasileira tenha acesso às vacinas”, respondeu.

Quarta dose acima dos 40 anos

A divulgação dos dados de imunização foi feita junto ao anúncio de ampliação de quarta dose para pessoas com 40 anos ou mais, como o Estadão havia mostrado no domingo, 19. Com a ampliação, mais 8,9 milhões de brasileiros estão aptos a receber a 2ª dose de reforço a partir desta segunda.

No caso daqueles que iniciaram o ciclo vacinal com dose única da Janssen, além da terceira dose de reforço à população com mais de 40 anos, foi liberada a segunda dose de reforço para indivíduos a partir dos 18 anos.

O secretário executivo do ministério, Daniel Fernandes Pereira, destacou que, “por trás da ampliação”, há um “ processo bem discutido de evidências”. “Todas as nossas decisões são tomadas com base em notas técnicas”, afirmou. “A sociedade brasileira pode ter certeza que, quando viemos aqui divulgar qualquer tipo de informação de um reforço de dose vacinal, de um aumento de faixa etária, todas essas informações têm um amparo técnico robusto por trás.”

Especialistas avaliam que número de doses atrasadas preocupa e pedem mais campanhas

O sanitarista Gonzalo Vecina avalia que 111 milhões é um número que faz “tremer e muito”. “É muita dose atrasada para uma vacina que diminui mortalidade e casos graves.”

Frente a uma nova onda de casos, alavancada por sublinhagens da Ômicron, relaxamento de medidas de proteção e comportamento humano no frio, esse atraso pode significar aumento de interações e, consequentemente, mortes. “Convencer as pessoas a se vacinarem, convocá-las para serem vacinadas, diminuir o número de obstáculos no processo de vacinação é fundamental.”

Ele destaca que a peça chave para aumentar a cobertura vacinal está na “capacidade de convocação” das pastas da saúde. “Nossa vacinação é ‘campanhista’, depende de campanhas. Se não houver campanha, se não houver informação, a população não irá se vacinar como não tem ido."

O médico avalia que o País tem “perdido a mão” no quesito convocatório. Prova disso, explica, é a redução da taxa de imunização para outras doenças. “Nós estamos com baixas coberturas nas vacinas do Programa Nacional de Imunizações: poliomielite, sarampo, tétano… A vacina da gripe foi um desastre este ano!”

Marcelo Otsuka, infectologista e vice-presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), também avalia que o número “preocupa”, principalmente durante a alta de casos puxada pela BA.4 e BA.5 da Ômicron. 

“Nós não conseguimos ter uma eficácia adequada da vacinação sem as doses completas e as doses de reforço”, afirma. “Outro problema: a BA.4 e a BA.5 começam a resgatar um pouco aquela gravidade pulmonar. Não tanto quanto a Delta, mas já é uma linhagem da Ômicron que tem uma maior gravidade no pulmão.”

O infectologista chama atenção especialmente para a baixa cobertura vacinal nas crianças de 5 a 11 anos. Conforme a pasta da Saúde, só 37,5% completaram o esquema primário de duas doses. “É um número muito pequeno. A gente entende que isso traz maior chance de crianças terem quadros graves. E nós já temos visto crianças com quadros graves”, destaca. “As situações complicam ainda mais se pensarmos em uma criança com câncer, com problema renal grave, com uma imunodepressão, com uma doença genética.”

Além do aumento nas internações e óbitos, Otsuka alerta para a oportunidade de surgimento de novas variantes à medida que mais pessoas se infectam. “Circulação do vírus significa mais mutações. E mutações podem trazer problemas tanto em redução da eficácia vacinal como em quadros mais graves.” 

Ele também aponta para a possibilidade de vencimento de doses compradas pelo governo. “Vamos perder milhões.”

Otsuka atribui o atraso à associação de dois fatores: fake news e falta de campanhas por parte do governo. “Fake news, toda hora aparece no celular de todo mundo. E orientação para fazer a vacina nas crianças, por exemplo? Ou mesmo nos adultos? Você vê? Não.” 

Para avançar na cobertura vacinal, os especialistas destacam a necessidade de mais campanhas e também de busca ativa. Além disso, no caso da imunização da população pediátrica, avaliam que está na hora de ela acontecer na escola. “Os países que conseguiram melhorar a cobertura vacinal na população pediátrica, fazem a vacinação nas escolas. A Inglaterra, por exemplo, conseguiu reduzir muito a doença nas crianças”, aponta Otsuka. 

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