Brasil deveria adotar mesmas medidas de EUA e Europa contra novo coronavírus?

Brasil deveria adotar mesmas medidas de EUA e Europa contra novo coronavírus?

Especialistas dizem que países como Itália e Estados Unidos estão em outro estágio do surto, pois já existe transmissão local da doença 

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 10h00

RIO - Medidas drásticas de contenção da expansão do novo coronavírus adotadas na Europa e nos Estados Unidos têm feito brasileiros questionarem as práticas adotadas no País, em um tom mais moderado. Especialistas ouvidos pelo Estado, porém, consideram corretos os procedimentos do País que, explicam, está numa fase muito inicial da doença, diferente do que ocorre no exterior.

No Brasil, há três casos confirmados vindos da Itália (e outro com teste positivo, mas ainda com contraprova pendente). Ainda não foi registrada infecção dentro do território brasileiro. Enquanto isso, Europa e EUA já enfrentam um segundo momento da epidemia. Nele, há transmissão local da infecção. Por isso, dizem os médicos, as medidas adotadas por cada país são diferentes e respondem a fases distintas do avanço do vírus.

Um caso que se destaca pelo rigor das medidas é o da Itália. Lá, onde já são mais de 2 mil casos confirmados e 52 mortes, grandes aglomerações de pessoas são evitadas. Também foram isoladas pequenas cidades, na tentativa de evitar disseminação maior do vírus. Os Estados Unidos, com mais de cem casos e nove mortes, restringiram voos diretos da China, epicentro da epidemia.

No Brasil, por enquanto, os passageiros procedentes dos países que já apresentam transmissão local do vírus (são 31 até esta quinta-feira, 3) são monitorados se apresentarem febre e sintomas respiratórios. O País tem 531 casos suspeitos e que estão sendo testados para o novo vírus. Nos casos confirmados, pessoas que mantiveram contato próximo com os doentes estão sob monitoramento. Para especialistas, essas medidas são suficientes para o atual estágio da doença por aqui.

A seguir, alguns pontos que têm originado questionamentos no Brasil e o que dizem deles os especialistas em saúde.

Quarentena 

A medida adotada inicialmente pela China, que isolou cidades inteiras e milhares de pessoas, é muito questionada por especialistas. Segundo eles, em regimes democráticos é praticamente impossível isolar uma quantidade muito grande de pessoas. Além disso, há poucos estudos que embasem a eficácia da medida. Sobretudo no caso de um vírus que pode ser transmitido mesmo quando a pessoa não apresenta sintomas.

“Na Itália houve o cancelamento de jogos de futebol e até o isolamento de pequenas cidades, mas ninguém ousou fazer isso numa cidade grande”, afirmou o epidemiologista Roberto Medronho, da Universidade Federal do Rio (UFRJ). “Não há recomendação formal ou oficial das autoridades sanitárias mundiais para a quarentena.”

Para o epidemiologista Expedito Luna, da Universidade de São Paulo (USP), a quarentena já se revelou ineficaz. “Houve pânico excessivo que prejudica o mundo inteiro; talvez essas medidas tenham ajudado a frear um pouco a disseminação, mas esse momento já passou, a barreira sanitária já foi furada. O momento é de mudar de tática.”

Cancelamento de voos

O Brasil está monitorando passageiros procedentes de países onde já há a transmissão do novo coronavírus. Pessoas que apresentarem febre e sintomas respiratórios são classificadas como casos suspeitos e são submetidas a testes. Os EUA suspenderam voos diretos da China. Mas os dois países mantêm tráfego muito intenso de pessoas, o que não ocorre com o Brasil.

“As pessoas procedentes da Itália que desembarcam nos EUA não estão sendo postas em quarentena, não tem como fazer uma coisa dessas”, diz o infectologista Estevão Portela, da Fiocruz. “O que o Brasil está fazendo é retardar a entrada do vírus – porque não há como impedir – e conter a transmissão ativa aqui dentro.”

Testagem em massa

Pessoas próximas aos pacientes diagnosticados com o coronavírus em São Paulo são acompanhadas por autoridades de saúde. “Fora isso, não há recomendação para testar todas as pessoas. A testagem é feita apenas em pessoas que apresentem sintomas; essa é a norma pactuada internacionalmente”, diz Medronho.

Diferentemente de aeroportos na Europa, o Brasil optou por não usar scanners térmicos para monitorar as temperaturas dos passageiros. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),esses equipamentos têm pouca efetividade para identificar casos suspeitos, uma vez que a pessoa pode não apresentar sintomas. 

Grandes aglomerações

A Itália está evitando eventos públicos com grande aglomeração de pessoas, como jogos de futebol, e também determinou fechamento temporário de escolas e universidades. Para especialistas brasileiros, são medidas para conter a velocidade da transmissão local do vírus que já ocorre nesses países. No Brasil, porém, isso ainda não foi registrado.

Uso de máscara

Especialistas são unânimes: a máscara só é indicada para doentes com sintomas não propagarem o vírus. Não impede a contaminação de pessoas saudáveis. A França chegou a confiscar máscaras. O objetivo era que não faltassem para quem realmente precisa delas: os doentes.A Organização Mundial da Saúde chegou a alertar sobre a redução dos estoques destes produtos na quarta-feira, 4. 

Epidemia de informação

A velocidade e a quantidade de informação inédita em circulação potencializa o medo. A situação se agrava, sobretudo, com as mentiras produzidas pela chamada ‘fake science’. São narrativas incorretas e alarmistas, falsamente atribuídas a supostos especialistas. A ação tenta emprestar credibilidade a boatos sem base científica, mas criam medo.

“Em nosso novo ecossistema midiático, a velocidade da informação é cada vez maior, assim como a desqualificação da informação científica”, afirma Igor Sacramento, do Laboratório de Comunicação e Saúde da Fiocruz. “Há desconfiança generalizada das instituições e muitos boatos, notícias falsas e teorias da conspiração circulando nas redes sociais.” A OMS já mencionou o problema da infodemia e disse trabalhar com as empresas de redes sociais para combater notícias falsas. 

Pânico

Especialistas dizem que é normal certa dose de pânico toda vez que um vírus novo - desconhecido e para o qual ninguém tem imunidade - aparece. Todos os dados reunidos até agora sobre o novo vírus, porém, mostram que a letalidade é relativamente baixa. Atinge 2,3% dos casos.

“Não há motivo para pânico: O novo coronavírus se parece muito com o vírus da gripe, com gravidade eventualmente maior em pessoas que já têm outras doenças” diz o infectologista Estevão Portela, do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz. “Mas o que fica no imaginário das pessoas é o fato de ser uma coisa nova, sobre a qual não temos muito conhecimento.”

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