Brasil, EUA e Peru se unem para estudar malária na Amazônia

Cientistas vão pesquisar características da transmissão da doença e dar base para medidas de saúde pública

Agência USP

13 Julho 2010 | 16h37

SÃO PAULO - Cientistas do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP farão parte de um grupo trinacional (Brasil, Peru e EUA) que vai pesquisar as características da transmissão de malária na Amazônia brasileira e peruana.

Na semana passada, o grupo teve assegurado US$ 9,2 milhões do governo dos EUA para fazer pesquisas pelos Institutos Nacionais de Saúde durante sete anos. O objetivo é dar bases científicas para medidas de saúde pública na região.

Os pesquisadores integrarão o Centro Internacional Brasileiro/Peruano de Excelência em Pesquisa de Malária (Icerm), um órgão sem sede que a partir de setembro vai agregar e financiar pesquisadores de oito instituições diferentes.

A malária é causada pelos protozoários do gênero plasmódio, que parasitam os seres humanos e os mosquitos anofelinos. A doença mata cerca de 1 milhão de pessoas por ano no mundo.

No Brasil, 610 mil pessoas foram contagiadas em 2006 e cerca de 310 mil em 2009, segundo o Ministério da Saúde. O número corresponde a 60% de todos os casos na região amazônica.

“Apesar de o governo implementar medidas de controle de malária [como distribuição de mosquiteiros e pulverização de inseticidas], a doença no País ainda está longe da erradicação”, explica Marcelo Ferreira, professor do ICB, responsável pela parte brasileira do projeto. “Era de se esperar que houvesse menos casos.”

“Ainda não está claro por que a malária tem se provado tão difícil de controlar na bacia amazônica”, afirma o professor da Universidade da Califórnia Joseph Vinetz, coordenador do projeto. “Juntamos um impressionante time de especialistas que estão preparados para examinar todos os aspectos da transmissão da malária na região, a fim de aprimorar o diagnóstico, tratamento e prevenção da infecção”, diz.

Os cientistas vão estudar na Amazônia brasileira e peruana a quantidade de pessoas infectadas e de novos casos. Eles também examinarão a genética dos mosquitos, o horário e local em que eles picam e se estão se tornando resistentes a inseticidas.

Além disso, os pesquisadores vão estudar se o parasita da malária adquiriu resistência aos remédios repelentes. Por fim, acompanharão pessoas que têm o parasita no sangue, mas não sofrem os sintomas e, por isso, não são tratadas pelos serviços de saúde. Quando essas vítimas são picadas, o parasita infecta o mosquito, que o passa adiante.

Brasil, Peru e EUA

As pesquisas de campo acontecerão em Acrelândia, zona rural do Acre, e nas cidades peruanas de Iquitos e Puerto Maldonado, região mineradora onde novas estradas estão contribuindo para espalhar a doença.

As amostras de sangue brasileiras serão examinadas no ICB e na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Os mosquitos serão estudados na FSP e na Unesp de Botucatu (SP). As amostras peruanas serão estudadas na Universidade Peruana Cayetano Heredia, em Lima.

Também colaborarão pesquisadores da Universidade Federal do Acre (UFAC), do Departamento de Saúde de Nova York, da Universidade Johns Hopkins e do destacamento em Lima do Centro Médico Naval dos Estados Unidos.

O Icerm Brasileiro/Peruano faz parte de uma rede de dez centros semelhantes em regiões onde a transmissão de malária é alta - como a África subsaariana, o sudeste da Ásia, a Índia e Papua Nova Guiné.

“Reuniremos dados de diferentes países para ter uma ideia de como está a malária no mundo”, explica o professor Ferreira, do ICB. O projeto também prevê que os pesquisadores possam fazer intercâmbios de treinamento em centros de diferentes países.

Os pesquisadores brasileiros também receberão verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq) e do Ministério da Saúde.

No Brasil, já começaram as pesquisas mais importantes, que vão focar nas pessoas com infecções assintomáticas. Os cientistas estudam qual a proporção desses casos, quantos têm parasitas que podem infectar mosquitos e como o organismo adquire resistência ao parasita sem conseguir eliminá-lo por completo.

Os pesquisadores também testarão a hipótese de que a infecção assintomática protegeria os pacientes de uma infecção sintomática.

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