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Brasil não deve mudar estratégia de prevenção à aids

Aprovação de pílula para prevenir doença nos EUA não muda nada no País; para ministério, Truvada pode ter efeitos colaterais a longo prazo, risco de baixa adesão e risco de resistência à droga

Fernanda Bassette,

17 Julho 2012 | 08h24

O Departamento de DST/Aids do Ministério da Saúde afirmou que não vai mudar a estratégia de prevenção à doença no Brasil. Nesta segunda-feira, 16, a FDA - agência americana que regulamenta remédios e alimentos - aprovou a indicação do antirretroviral Truvada como forma de prevenir a infecção pelo HIV.

Apesar do otimismo em torno da indicação do uso do Truvada como prevenção, Ronaldo Hallal, coordenador de cuidado e qualidade do programa de DST/Aids do Ministério da Saúde afirmou que, por enquanto, nada muda no País.

De acordo com ele, o grupo técnico do ministério se reuniu recentemente para atualizar as diretrizes, discutiu esse assunto, mas decidiu manter tudo como está, com foco no incentivo ao sexo protegido, no diagnóstico e tratamento, e na oferta da profilaxia pós-exposição (para pessoas que fizeram sexo desprotegido com parceiro de risco).

"Os estudos demonstram que, se a pessoa doente for tratada corretamente, há uma redução de até 95% na transmissão do vírus. Esse é um resultado bem mais eficaz do que os 75% alcançados com a profilaxia pré-exposição", afirmou Hallal.

O Truvada é a combinação de dois antirretrovirais: tenofovir com emtricitabina. A droga é produzida pelo laboratório Gilead e conseguiu o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em maio deste ano. A indicação da droga como forma de profilaxia pré-exposição ao vírus vem exatamente um ano depois de dois grandes estudos americanos demonstrarem que o consumo diário de uma dose oral do Truvada pode reduzir em até 78% a transmissão do vírus para pessoas saudáveis que mantém relações com parceiros de alto risco, entre elas casais sorodiscordantes (em que apenas um deles tem o vírus) e homens que fazem sexo com homens.

Para Hallal, o Truvada como prevenção ainda tem várias lacunas, como o aparecimento de possíveis efeitos colaterais a longo prazo, o risco de baixa adesão e o risco de resistência à droga.

"Estamos falando de resultados obtidos em estudos controlados, em que as pessoas são orientadas e acompanhadas a cada 30 dias. Transpor esses resultados para a vida real, numa política de saúde pública, é totalmente diferente", diz Hallal.

Otimismo. A pesquisadora Valdilea Veloso, diretora do Instituto de Pesquisas Clínicas Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), diz que o Truvada é uma potencial arma de prevenção da doença, especialmente entre homens que fazem sexo com homens - grupo de alto risco de contaminação.

Valdilea afirma ver com otimismo a indicação do uso do Truvada como mais uma forma de combate à doença de maneira complementar ao que já existe - como fazer sexo seguro - e não como um substitutivo.

Para ela, os estudos clínicos demonstraram que não há risco de acontecer a "desinibição sexual", que é a pessoa parar de se proteger com preservativos por acreditar que a medicação sozinha já garantiria a prevenção.

"Não podemos generalizar e achar que as pessoas vão fazer mau uso desse instrumento de prevenção. Além disso, o que o Brasil tem disponível hoje como política de prevenção à doença definitivamente não deu conta de controlar o avanço da epidemia. Novos casos surgem todos os dias", diz a pesquisadora.

Para Valdilea, é um retrocesso o fato de o governo afirmar que "nada muda" na política de DST/Aids sem existir uma ampla discussão com pacientes e comunidade científica.

"A OMS está discutindo intensamente esse assunto. O mundo inteiro vê isso com otimismo. É claro que muita coisa ainda precisa ser discutida, mas antes de descartar a possibilidade, precisamos ver como as pessoas de risco percebem a chegada desse medicamento e se elas estão dispostas a usá-lo ou não", diz. "Esse foi só o primeiro passo."

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