Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Brasil registra 115 mortes e 1.781 casos do novo coronavírus em 24 horas

País chegou ao total de 1.056 óbitos e quase 20 mil pessoas diagnosticadas com a covid-19; Ministério da Saúde prevê que o pico da doença seja entre o fim de abril e início de maio

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 15h54
Atualizado 11 de abril de 2020 | 19h28

SÃO PAULO - O Brasil passou das mil mortes pelo novo coronavírus nesta sexta-feira, 10, e tem quase 20 mil pessoas diagnosticadas com a covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde. Nas últimas 24 horas, foram registradas 115 novas mortes (acréscimo de 12%) e 1.781 casos a mais (aumento de 10%), elevando os números totais para 1.056 óbitos e 19.638 casos confirmados da doença em todas as unidades federativas. O número de mortes (antes em 1.057) foi atualizado pela pasta quase uma hora após a divulgação do balanço, uma vez que o Estado de Alagoas retificou o dado de 4 para 3.

O Estado de São Paulo segue sendo o mais afetado, com 8.216 casos e 540 mortes, seguido por Rio de Janeiro (2.464 e 147 óbitos) e Ceará (1.478 e 58 óbitos). Na quinta-feira, 9, o governador João Doria (PSDB) prometeu mais rigor nas medidas de distanciamento social, cogitando, inclusive, prisão para quem desrespeitar a recomendação.

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O objetivo, segundo ele, é que o isolamento englobe cerca de 70% da população em todo o Estado, patamar considerado ideal para desacelerar a doença. Porém, o Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI-SP) do Governo de São Paulo mostra que o porcentual de isolamento social no Estado foi de apenas 47% na quinta-feira.

Segundo o infectologista e epidemiologista Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, membro do Comitê de Contingenciamento do Estado de São Paulo, estudos mostram uma clara desaceleração no crescimento da doença depois que Doria decretou quarentena a partir de 24 de março. "Hoje, uma pessoa passa para um pouco mais de uma. Isso ainda é um crescimento mais lento. A questão é como ficará daqui duas semanas se não decretar prorrogação. Podemos ter crescimento exponencial", avalia o especialista.

Novo coronavírus no Brasil

Na quinta-feira, o País bateu recorde, pelo terceiro dia consecutivo, quanto ao número de mortes. A primeira foi em 17 de março, em São Paulo, de um homem de 62 anos que tinha diabete e hipertensão, sem histórico de viagem ao exterior. Em menos de dez dias, em 25 de março, eram 57 mortes, passando para mais de 200 em 1º de abril e ultrapassando os mil óbitos nesta sexta-feira.

Segundo o Ministério da Saúde, o País deve alcançar o pico da covid-19 entre o fim de abril e início de maio. A pasta já propôs que algumas regiões afrouxem o isolamento, desde que estejam providas de leitos, respiradores, testes, equipamentos de proteção e equipes de saúde suficientes. O médico Carlos Magno avalia que é "irresponsabilidade deixar adoecer desde que tenha leito". "Não vejo nenhuma possibilidade segura de abertura antes de meados ou fim de maio. Precisamos ter medida profilática importante, clínica ou vacina, mas medicações que estão sendo testadas podem ter resultados observacionais rápidos. Precisamos ainda manter a quarentena", diz.

Para o infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Emilio Ribas, o pico da doença já deveria estar acontecendo agora, mas o Brasil conseguiu adiar. "Essas curvas foram desaceleradas pelas quarentenas e, em paralelo, pela otimização dos hospitais de campanha, com leitos de UTI e aparelhos", diz o especialista. "Se crescer de forma acentuada, medidas terão de ser estabelecidas para garantir que pessoas não tenham risco de vida, não só para não sobrecarregar o sistema de saúde", avalia.

O médico afirma que as medidas que limitam a mobilidade social nos Estados e municípios tiveram impacto no número de casos, porém, nos últimos dez dias, houve aumento da circulação de pessoas. "Isso pode fazer com que haja mais circulação do vírus e contaminação, que pode levar a quem é mais vulnerável", diz. "É por isso que tem de estar muito atento à frouxidão das medidas.  À medida que circula, mais casos haverá e consequentemente mais mortes."

Também na quinta-feira, o Estado mostrou que a quarentena afrouxou em todas as capitais do País entre a última semana de março e os primeiros dias de abril. Entre as dez maiores capitais, a que apresentou maior proporção de pessoas circulando nas últimas semanas foi Manaus. O Estado do Amazonas registra, hoje, 981 casos confirmados e 50 mortes por covid-19.

Carlos Magno lembra que, segundo estudos, se nenhuma medida fosse adotada, em 30 dias já não haveria leitos em São Paulo. O melhor cenário, de isolamento total no País, faria com que menos pessoas fossem acometidas. "Nesse cenário mais ou menos, a incerteza é muito grande. Mas uma coisa ficou clara: quando decreta limitação social no município de São Paulo, desacelera casos."

Novo coronavírus no mundo

Ainda sem nomear o vírus, a China registrou os primeiros casos da nova doença em 2019. Em 31 de dezembro do ano passado, o governo da cidade chinesa de Wuhan confirmou para autoridades de saúde a existência de dezenas de casos de uma pneumonia desconhecida na região. Em 11 de janeiro, oficiais de saúde de Wuhan informaram sobre a primeira morte no país asiático. Desde então, a covid-19 se espalhou por todos os continentes e deixou mais de 100 mil mortos até esta sexta-feira, segundo levantamento da universidade norte-americana Johns Hopkins. O número de infectados passou de 1,6 milhão.

Da China, o novo epicentro da doença passou a ser a Europa, com Itália e Espanha destacando-se pelo crescente número de casos e mortes. Depois, os Estados Unidos passaram a chamar a atenção, superando registros europeus. O epidemiologista considera três fatores para essa propagação do vírus pelo mundo: o padrão de deslocamento das pessoas, a velocidade de resposta dos países e o negacionismo dos líderes políticos. Ele avalia que a Itália reconheceu tarde que se tratava de uma emergência de saúde e que os norte-americanos "são vítimas do negacionismo do presidente", que chegou a minimizar a doença.

Em comparação com esses países, o infectologista Gorinchteyn afirma que o Brasil está conseguindo fazer com que as pessoas entendam a importância de ficar em casa e, ao mesmo tempo, tem preparado unidades de saúde, especialmente de UTIs e com respiradores.

"Apesar desse número de casos, estamos fazendo uma história diferente de China, Itália, Espanha e Estados Unidos. Por isso, nesse momento, não é adequado deixar afrouxar (o isolamento). Muitas cidades estão tendo transmissão sustentada, mas as que não estão devem estar atentas para não haver aglomeração. Evitar aglomeração inclusive de clientes, limitando a circulação das pessoas, diminuindo funcionários. Dessa forma, garantindo menor risco de circulação grande do vírus e contaminação das pessoas que chamamos de vulneráveis", diz o infectologista.

Perfil das mortes pelo novo coronavírus

Segundo o Ministério da Saúde, das 1.056 mortes por covid-19 no País, 77% eram de pessoas com mais de 60 anos, mas a faixa etária de 70 a 79 anos é a que concentra o maior número de óbitos (211). Há apenas um registro de morte em menores de cinco anos, a de um bebê que faleceu com cinco dias de vida em Natal, e três óbitos na faixa de 6 a 19 anos. Doenças cardiovasculares continuam sendo o fator de risco predominante no grupo de mortos, seguidas por diabete e pneumopatia.

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