ALEXANDRE BRUM/ESTADÃO
ALEXANDRE BRUM/ESTADÃO

Brasil pode ter tido 173 mil mortes por covid-19 a mais do que apontam os registros oficiais

Pesquisadores calcularam a subnotificação nos registros da doença em todo o mundo e concluíram que dados globais podem ser até três vezes superiores aos divulgados. Total de vítimas no Brasil pode chegar perto de 800 mil

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2022 | 10h17

A pandemia de covid-19 pode ter provocado a morte de cerca de 18,2 milhões de pessoas em todo o mundo entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021, número que supera em três vezes as estatísticas oficiais de óbitos pela doença. A estimativa foi apresentada em estudo publicado na revista científica The Lancet nesta sexta-feira, 11, data que marca os dois anos do reconhecimento da doença como pandemia. No Brasil, pode ter havido até 173 mil mortes a mais do que o notificado. 

A primeira estimativa global de excesso de mortes a ser submetida à revisão por pares sugere que o impacto do novo coronavírus é muito maior do que as 5,9 milhões de mortes registradas nos dados oficiais disponíveis até o momento. Quanto aos dados brasileiros, o estudo apresenta que o total de óbitos por conta da pandemia seria de 792 mil, em vez das 619 mil mortes registradas oficialmente até dezembro. 

Em linhas gerais, os pesquisadores apontam que "o impacto total da pandemia foi muito maior do que o indicado pelas mortes relatadas devido apenas à covid-19". Ainda com essa constatação, reforçam que mais pesquisas são necessárias para ajudar a distinguir a proporção entre o excesso da mortalidade causada diretamente pela infecção pelo SARS-CoV-2 e as mortes que ocorreram como consequência indireta da pandemia.

Conforme a publicação, as infecções causadas por covid-19 não foram diagnosticadas com eficiência. Os pesquisadores sugerem que a grande diferença entre os números oficiais de vítimas e as mortes adicionais que aparecem nos registros pode ser explicada pela "falta de diagnóstico por carência de testes" e por "problemas com a publicação" dos dados. Acrescentam ainda que a pandemia teria sido responsável por elevar o número de óbitos de forma indireta, como ocorreu no principal colapso no sistema de saúde enfrentado pelo Brasil ao longo da pandemia, no primeiro semestre de 2021.

"É uma tentativa de se ver o quanto foi registrado de mortes por covid, e de analisar quantas teriam ocorrido a mais na pandemia", aponta o professor da Faculade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Lotufo. Ele foi um dos pesquisadores que contribuíram na frente brasileira do estudo. 

Segundo Lotufo, por mais que o Brasil tenha enfrentado um apagão de dados de covid, essa variável não afetou o total de mortes registradas no País, mas pode ter gerado subnotificações quanto ao tipo de óbito. Desse modo, pode-se fazer um comparativo com anos anteriores para se analisar qual é o impacto real dos óbitos por covid. "É algo que sempre defendi: analisar o excesso de mortes é muito mais interessante, porque não tem oscilação por outras variáveis", aponta.

O que não dá para se apontar com exatidão, pondera, são as causas exatas e as principais variantes que teriam que teriam levado à subnotificação de mortes. "Se alguém morreu no início do ano passado, não necessariamente foi pela variante Gama. Essa pessoa poderia estar internada já há 30, 40 dias, então não dá para saber", explica Lotufo.

Assessora técnica da organização global de saúde pública Vital Strategies, a pesquisadora Fatima Marinho, que também participou do estudo, explica que as mortes em decorrência da pandemia podem ser divididas em três tipos: as que ocorreram por covid e que estão nos registros oficiais; as que também foram por covid, mas que, normalmente por falta de testes, não foram notificadas como tal; e, por fim, as que não foram por covid, mas que teriam ocorrido por problemas relacionados à pandemia, como sobrecarga no sistemas de saúde. O levantamento busca mensurar esses dois últimos grupos.

"Não tem como esconder o excesso de mortes. É a melhor metodologia para estimar o impacto da covid", aponta Fatima. A pesquisadora estima que, das 173 mil mortes a mais que teriam ocorrido no contexto da pandemia, cerca da metade teria sido diretamente pela covid. O restante, aponta, seria em decorrência de fatores indiretos, como sobrecarga dos sistemas de saúde, adiamento de exames, entre outros fatores.

"A Amazônia, por exemplo, foi uma ferida enorme para o Brasil", diz Marinho, em alusão ao colapso enfrentado por Manaus no começo de 2021. "O estudo é uma oportunidade de ver quais locais podem ter sofrido mais, sobretudo por terem sistemas de saúde mais precários e uma cobertura vacinal menor, e atacar esse problema", acrescenta. Segundo a pesquisadora, dados preliminares de um outro estudo apontam que, somente em 2020, o Brasil teria tido cerca 36 mil mortes por covid a mais do que as registradas. Os óbitos ocorridos de forma indireta naquele ano ainda estão sendo mensurados.

A Bolívia é o país que apresenta a maior excesso de mortalidade no período analisado, segundo os autores do texto, que ressaltam que em geral os países andinos sofreram particularmente com a pandemia. O governo boliviano reportou 19,7 mil óbitos pela doença até dezembro. No entanto, segundo o estudo, a estimativa de excesso de mortes é de 161 mil, ou seja, em média, 141.300 mortes a mais que as notificadas oficialmente. Dessa forma, a taxa de mortalidade excessiva estimada por 100 mil da população é de 734,9.

Por regionalidade, países da zona andina da América Latina (Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) são os mais atingidos com 512 mortes adicionais por 100 mil habitantes, seguidos pelo Leste Europeu (345 mortes), a Europa Central (316 mortes), o sul da África Subsaariana (309 mortes) e a parte central da América Latina (274 mortes).

Em números absolutos, segundo o estudo, a Índia foi o país com o maior número de excesso de mortes cumulativas (4,1 milhões), seguida por Estados Unidos (1,1 milhão), Rússia (também 1,07 milhão), México (798 mil) e Brasil (792 mil).

Entre esses países, a taxa de mortalidade excessiva foi mais alta na Rússia (374,6 mortes por 100 mil habitantes) e no México (325,1 por 100 mil), e foi semelhante no Brasil (186,9 por 100 mil) e nos EUA (179,3 por 100 mil).

Por outro lado, alguns países, que ficaram praticamente isolados do resto do mundo por meses,  registraram uma taxa de mortalidade abaixo da média durante esse período, incluindo Islândia (48 mortes a menos por 100 mil habitantes), Austrália (38 mortes a menos) e Cingapura (16 a menos).

"Das 12,3 milhões de mortes adicionais em comparação com as mortes contabilizadas por covid-19, uma parte substancial provavelmente foi em decorrência de infecções causadas pelo Sars-CoV-2, vírus que originou a pandemia", reforçam os pesquisadores.

'Estatísticas oficiais dão imagem parcial do verdadeiro balanço da mortalidade'

Os especialistas reconhecem, no entanto, que seu estudo precisa ser complementado com mais pesquisas. "As estatísticas oficiais sobre as mortes de covid-19 dão apenas uma imagem parcial do verdadeiro balanço da mortalidade relacionado à pandemia", dizem os autores. Se esses dados forem verdadeiros, a doença seria uma das principais causas de mortalidade no mundo em 2020 e 2021.

Os pesquisadores que prepararam a análise, coordenada pelo Instituto para Métrica e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington (EUA), ressaltam que é necessário mais trabalho para entender qual proporção dessa mortalidade é consequência direta da covid-19 e o que faz parte do peso dos efeitos indiretos da pandemia.

"Estudos anteriores sobre dados de países como Suécia e Noruega sugerem que o vírus é a causa direta de grande parte das mortes, mas agora há evidências suficientes disponíveis para determinar isso com maior certeza", disse Haidong Wang, um dos autores do estudo.

Os pesquisadores coletaram dados sobre a mortalidade por todas as causas nos anos de 2020, 2021 e até 11 anos antes da pandemia, em alguns casos, de 74 países e 252 autoridades regionais, além de três grandes bancos de dados internacionais.

A partir dessas informações, construíram um modelo que permitiu estimar o excesso de mortes globais. Os autores alertam que a precisão de seus números tem limitações, pois usaram métodos estatísticos para estimar um possível excesso de mortalidade em países que não publicaram dados suficientes. No planeta como um todo, morreram 120 pessoas a mais por 100 mil habitantes do que seria esperado se a pandemia de coronavírus não tivesse se alastrado, segundo estimativa do estudo.

Já as mortes que não foram causadas diretamente pela doença podem ter ocorrido devido a causas como suicídio, uso de drogas motivado por mudanças de comportamento, bem como falta de acesso a cuidados de saúde e outros serviços essenciais, segundo os pesquisadores.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado que o saldo da pandemia pode ser entre duas e três vezes maior do que o estimado até agora. / AFP e EFE

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