EFE/ Raphael Alves
EFE/ Raphael Alves

Brasil precisa de lockdown para conter alta de infecções pela covid-19?

Medida poderia ser adotada em locais mais críticos e com intervalos de reabertura; na Europa, restrição foi intensificada

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 10h00

Com o aumento de infecções e óbitos por covid-19 no País, além da possibilidade de uma explosão de casos por causa das aglomerações no fim de ano, especialistas avaliam que a adoção do lockdown ajudaria a frear o avanço da doença, mas dizem que a solução não é factível no Brasil, tendo em vista a falta de um plano nacional e de liderança no âmbito federal para implantar as restrições.

Na Europa, países que já estão vacinando a população intensificaram o confinamento e fecharam serviços considerados não essenciais. A preocupação aumentou com a detecção da nova variante da covid-19, que é mais contagiosa. No Brasil, o Estado do Amazonas (por força de uma ordem judicial) e a cidade de Belo Horizonte adotaram restrições ao funcionamento do comércio nesta semana, numa nova tentativa de barrar o avanço da doença nessas regiões. 

Infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Julio Croda diz que a medida ajudaria a diminuir a curva ascendente de casos, mas que o lockdown não precisaria ser adotado no País todo.

"Isso poderia ser feito avaliando o cenário epidemiológico e taxa de ocupação de leitos de cada região. Acredito que é importante ter medidas restritivas, mas tem de ser analisado neste sentido. A Inglaterra e a Alemanha fizeram porque o cenário epidemiológico é semelhante em todo o país.

Croda, que também é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Escola de Saúde Pública de Yale, afirma que, diante da postura que o governo federal vem adotando durante a pandemia, sem incentivo a medidas de isolamento, a proteção por meio da imunização parece ser mais possível do que restrições de circulação da população.

"Lockdown é elevar o isolamento para acima de 70% e o Brasil nunca teve isso. As pessoas só podem sair uma vez ao dia para ir ao supermercado ou hospital. Nossa esperança é a vacina. Não teve lockdown no começo, não é agora que vai ter sem apoio do governo federal."

A redução da mobilidade é algo mais viável do que o lockdown na visão do infectologista e Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Carlos Magno Fortaleza. Ele, que integra o Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, diz que o modelo praticado na Europa não foi feito no País e as tentativas não deram certo.

"As cidades brasileiras que tentaram, como Fortaleza e São Luís, falharam porque conseguiram fazer no centro, mas não nas periferias. Lockdown é ideal, mas não é factível no Brasil, não com restrições ativas. O que se tenta é restringir por modelos passivos, para a população não ter para onde ir, que é a fase vermelha (em São Paulo)."

Fortaleza diz que, dependendo da evolução de casos, é possível que a fase mais rígida volte a ser adotada no Estado. "Não está descartada a possibilidade de colocar todo o Estado em fase vermelha, mas não é algo que vai acontecer nesta semana. A  depender do que aconteça nas próximas semanas, do resultado das festas, o fechamento dos serviços não essenciais é uma possibilidade não descartada com o crescimento abrupto e a chegada da variante inglesa." Segundo o infectologista, a indicação pode ser apresentada ao governador João Doria (PSDB) após a análise dos dados epidemiológicos e constatação da necessidade.

Uma das principais dificuldades para a implementação do lockdown no Brasil é a falta de um plano nacional e de forte liderança para conduzir a população para respeitar o isolamento, de acordo com Claudio Maierovitch, sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Brasília.

"Já deveríamos ter feito vários lockdowns, assim como o Reino Unido está no terceiro e a Alemanha, em um longo segundo. Alguns governadores e prefeitos tiveram decisões que se assemelharam ao lockdown, mas não houve respaldo do governo federal e teve muita pressão econômica. O governo federal não só não respaldou como era contra. O governo desmoralizou a ideia de que este poderia ser um caminho para salvar a saúde e isso saiu da agenda política brasileira."

Segundo Maierovitch, o plano teria de conter informações sobre quais estabelecimentos poderiam abrir, quem poderia sair e por quanto tempo, medidas de apoio para a população e para os mais diversos setores da economia.

"Precisa de fiscalização, liderança, comunicação e coordenação. Não houve nenhuma dessas coisas. No Brasil, jogamos fora o principal insumo que é o tempo, poderíamos ter feito lockdown, mas, para que isso aconteça, tem de ter uma decisão forte de Estado e uma liderança grande que diga isso. O que está prevendo é que a curva vai subir muito mais rápido em janeiro e fevereiro. Se tivéssemos realmente um lockdown de duas semanas, a curva cairia rapidamente, desde que, depois, mantivesse uso de máscara e demais cuidados."

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