WERTHER SANTANA/ESTADÃO 27/05/ 2021
Barreira de monitoramento foi montada no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com objetivo de evitar a disseminação da variante Delta WERTHER SANTANA/ESTADÃO 27/05/ 2021

Brasil registra 1ª morte pela variante Delta do coronavírus; 5 Estados notificaram 11 casos

Baixo índice de vigilância genômica no País pode dificultar a identificação da cepa; avanço da mutação pelo mundo preocupa

Marianna Gualter, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 17h10

Identificada pela primeira vez na Índia, a variante Delta do novo coronavírus está avançando por todo o planeta e preocupa especialistas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cepa circula por 92 países. No Brasil, o Ministério da Saúde informa que, até o momento, 11 casos já foram detectados, com a confirmação de uma morte. O óbito aconteceu no fim de abril, mas só foi divulgado nesta sexta-feira, 25. Somente a Região Norte segue sem incidência da variante.

Os primeiros registros da cepa no País foram confirmados em maio, no Maranhão, entre os tripulantes do navio MV Shandong da Zhi, que atracou em São Luís. No momento, seis entre os 11 casos listados pela pasta federal são de tripulantes da embarcação. Há ainda dois casos de Apucarana (Paraná), e ocorrências individuais nos municípios de Campos dos Goytacazes (Rio de Janeiro), Juiz de Fora (Minas Gerais), e Goiânia (Goiás).

O primeiro caso da Delta no Paraná foi anunciado no início do mês. Uma senhora de 71 anos, que apresentou sintomas, foi hospitalizada e sobreviveu. A senhora teve alta em maio. 

O segundo caso confirmado no Estado foi de uma mulher que tinha 42 anos, que acabou morrendo. Ela apresentou sintomas dois dias após chegar ao Brasil. Oito dias depois, ela foi internada. O quadro piorou e, no terceiro dia de hospitalização, ela faleceu após uma cesária de emergência no dia 18 de abril, segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, 25. O recém-nascido prematuro testou negativo para covid-19 e está saudável após dois meses internado.

A secretaria de Saúde do Estado não considera que há transmissão comunitária da Delta na região e informa que aguarda a análise de outras amostras também enviadas para o programa de vigilância realizado em parceria com Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Goiânia, por outro lado, é a única cidade do País a constatar transmissão comunitária da cepa. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o caso da variante Delta foi detectado em um estudo feito em parceria com a Universidade Federal de Goiás, que testou 62 pessoas.

A cepa foi identificada em uma jovem com sintomas leves e sem histórico de viagem. O município informa que outros casos de covid-19 foram confirmados após uma busca ativa da Vigilância Sanitária em contatos próximos da paciente. Apesar disso, como essas pessoas não eram participantes do estudo, não é possível afirmar que também sejam infecções pela Delta. 

Tanto no primeiro positivo registrado no Paraná quanto no caso de Goiás, os pacientes não eram considerados suspeitos de infecção pela variante e foram localizados de maneira aleatória por estudos locais de monitoramento genômico. 

“Temos uma vigilância genômica, que é a maneira que a gente consegue ver essas cepas, muito ruim no País”, afirma o diretor da Fiocruz São Paulo, Rodrigo Stabeli, também professor de medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e consultor da OMS para genômica. 

“Espero que um dos legados que essa pandemia possa nos trazer é justamente reforçar a vigilância em saúde no Brasil, principalmente a epidemiológica que antes era vista como uma ciência e não como um ato de saúde pública. É ela quem consegue prever e planejar as ações que vão dar conta de um surto, seja ele em um local específico ou seja ele numa parte do Brasil”. 

De acordo com o especialista, apesar de ser um dos líderes da prática na América Latina, o Brasil ainda está longe de outros lugares no que diz respeito a essa atividade. “Fazemos menos de 1% do que o Estados Unidos, por exemplo”. 

Essa ausência de dados acarreta em lacunas de informação. “Nós podemos ter essa variante já circulado. Por isso, precisamos incentivar a vacinação e também o uso de máscaras. A máscara previne qualquer variante, seja ela Gama, Delta ou Alfa”, explica. 

“O distanciamento físico também é muito importante. Ninguém está dizendo: ‘Vamos entrar em lockdown porque existe uma variante que pode ser mais infecciosa que outra’. Mas o comportamento individual de não procurar aglomerações também é importante, um ato de saúde pública.” 

Mais transmissível que as cepas anteriores

Detectada pela primeira vez em fevereiro na Índia, a variante Delta se tornou uma preocupação global nos últimos meses. Devido à acelerada transmissibilidade, a cepa gera temores de sobrecarga nos sistemas de saúde e ameaça reverter planos de reabertura mundo afora. 

Responsável por 91% dos casos no Reino Unido e 96% em Portugal, a variante também avança na Alemanha, França e Espanha, de acordo com uma análise do Financial Times. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) aponta que a cepa é responsável por 10% dos casos no País. A  B.1.617.2, nome original da variante, também está presente na Oceania e África. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em maio, classificou a Delta e suas sublinhas como “variantes de preocupação”. A designação significa que uma variante pode ser mais transmissível ou causar doenças mais graves, não responder ao tratamento, evitar a resposta imune ou não ser diagnosticada por testes padrão.

Especialistas atrelam a variante à onda de infecções que abalou a Índia no primeiro semestre. No pior dia da pandemia no País, a Índia chegou a concentrar 49% dos infectados e 28% dos óbitos do mundo em 24h, foram 3.980 mortes. 

Em entrevista coletiva recente, a cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), Soumya Swaminathan, afirmou que a cepa está prestes a se tornar a variante dominante global por causa de sua maior transmissibilidade. 

De acordo com o diretor da Fiocruz São Paulo, é comum que ao longo da pandemia, o vírus sofra mutações. São essas alterações no material genético que dão características diferentes para as cepas. 

“A variante Delta é mais adaptada ao ser humano, por isso, ela se espalha mais. Ela tem essa capacidade de espalhamento maior que as outras”, afirma. “Nós não sabemos se essa variante é mais letal, mas como ela se espalha muito, as exceções também acontecem de forma mais frequente, o que satura o sistema de saúde com pessoas de diversas idades.” 

O pesquisador ressalta que no momento atual de pandemia não há faixa etária de maior letalidade. “Todos nós estamos suscetíveis e cada indivíduo responde de um jeito”. 

A boa notícia, porém, é que estudos indicam que as vacinas oferecem proteção contra a cepa. Entre eles, uma análise feita com mais de 14 mil casos da Delta pela agência de saúde pública da Inglaterra descobriu que duas doses da vacina desenvolvida pela Pfizer e BioNTech reduzem o risco de hospitalização em 96%. 

"Existem dois trabalhos importantes científicos mostrando que as vacinas disponíveis no Brasil dão conta do recado, elas cobrem essa nova variante Delta. A vacinação sempre é um ato importante de incentivar e fazer”, enfatiza Stabeli. 

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Estratégias de contenção da variante Delta no Brasil diferem entre os Estados

Ações para conter a propagação da doença valem para todas as variantes e abrangem estratégias já conhecidas, como isolamento e testagem. Alguns locais optam por barreiras sanitárias e monitoramento genômico

Marianna Gualter, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 17h09

Na maior parte do Brasil, as ações para contenção e prevenção da covid-19 são universais para todas as variantes e abrangem estratégias de isolamento social, testagem, incentivo à vacinação e aos protocolos de proteção, como o uso de máscaras. Em alguns locais, porém, há também a realização de barreiras sanitárias, controladas, em sua maioria, por municípios e reforço nas ações de monitoramento genômico. 

No Maranhão, por exemplo, as barreiras estão localizadas nas principais portas de entrada da capital São Luís e de Imperatriz, segunda maior cidade do Estado. Apesar do caso dos seis tripulantes estrangeiros contaminados com a nova cepa, o Estado não registra episódios locais confirmados da variante. 

“Desde a suspeita de uma nova variante, a  Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão manteve o rastreio dos contatos, o monitoramento, testagem e isolamento dos sintomáticos”, afirma a pasta em nota. 

Em razão da identificação da cepa e o risco iminente de transmissão local, o Ministério da Saúde antecipou o envio de 300 mil doses de vacina contra covid-19 para os municípios de São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa.

As barreiras sanitárias também estão presentes em Manaus, no Amazonas, e em alguns municípios do Espírito Santo. Além de cidades, principalmente fronteiriças, do Pará e de Roraima - os três Estados não apresentam casos da variante Delta.

Desde o início de junho, o Rio de Janeiro intensificou o monitoramento de passageiros originários da Índia que chegam aos aeroportos Internacional Tom Jobim (Galeão) e Santos Dumont. 

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) informa que uma equipe, em prontidão 24 horas por dia, é acionada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quando ocorre a chegada desses passageiros. 

A testagem obrigatória é feita em uma área restrita nos próprios aeroportos após autorização da Infraero. Os positivados são isolados em um hotel no município do Rio e passam por testes PCR. As amostras são então encaminhadas para  sequenciamento genômico e identificação da variante. Até quinta-feira, 24, 30 exames foram realizados, todos com resultados negativos para covid-19.

Na cidade de São Paulo, a Secretaria Municipal de Saúde implementou barreiras em terminais rodoviários e no aeroporto de Congonhas no final de maio. Há triagem de passageiros sintomáticos, com quadro de síndrome gripal, para investigação clínica e laboratorial, e recomendações de isolamento para casos suspeitos. 

Até o momento, 1.549 ônibus foram abordados e 29 sintomáticos foram avaliados, além de 820 voos monitorados com 63 sintomáticos.

 “Caso seja identificado algum caso com variante, esse paciente será encaminhado para o Hospital Geral Guaianazes para o tratamento” disse a pasta em nota. A unidade pertence ao governo estadual, que informou, através da Secretaria Estadual de Saúde que: “O Hospital Geral de Guaianases é uma das referências para covid-19 e opera com 190 leitos exclusivos para pacientes com coronavírus, podendo também receber suspeitos da variante Delta, se necessário”. 

Na última quinta-feira, 24, a unidade registrou 90% de taxa de ocupação dos leitos de UTI e 65% de enfermaria. Atualmente, não há casos registrados da variante Delta no Estado. 

As ações de vigilância genômica do coronavírus têm sido ampliadas em Minas Gerais, segundo a secretaria estadual responsável. Por meio de nota, o órgão informou que o Estado realiza amostragem de casos em diferentes municípios para investigação laboratorial. 

O mesmo ocorre no Paraná. De acordo com a pasta estadual de saúde, o trabalho tem relevância epidemiológica e não de diagnóstico ou tratamento de casos de infecção pelo coronavírus.

“Precisamos trabalhar de forma coordenada, coisa que nunca aconteceu com o governo brasileiro”, aponta o pesquisador Rodrigo Stabeli. “Fazer barreiras sanitárias isoladas, lockdown isolado e medida restritiva isolada não resolve o problema. Já tem 15 meses que estamos enfrentando essa pandemia fazendo a mesma coisa, o resultado sempre será o mesmo. Para ter resultados diferentes é preciso ter um planejamento diferente.” 

“Nós temos que fazer uma frente única para combater esse vírus. Se ela não vem do governo federal, que venha então da população ou do engajamento de outras casas, como o Senado ou o Supremo, que também têm trabalhado para isso”, afirma. 

A respeito da transmissão comunitária autóctone em Goiânia, Stabeli pontua que as medidas de contenção tomadas também precisam ser coordenadas. “Não adianta estabelecer uma barreira sanitária se não sabemos quantas pessoas estão contaminadas ou se as cidades vizinhas já possuem esse tipo de contaminação.”

Por meio de nota, o município informou que a principal ação realizada para conter a variante é a vacinação da população. “Assim que chegam doses é feita uma força tarefa para a aplicação, já chegamos a vacinar mais de 22 mil pessoas em um único dia. No momento, 35% da população já recebeu a primeira dose”. 

Segundo a pasta local, há grande preocupação da cidade com a cepa. “Como ainda não há vacinas para todos, a todo momento a Secretaria Municipal de Saúde enfatiza a necessidade da manutenção das medidas sanitárias de segurança, principalmente em relação ao uso de máscara e distanciamento social”. 

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