Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Brasil soma 4 milhões de infectados pelo novo coronavírus; média diária de mortes fica em 878

Desde o primeiro milhão, em 19 de junho, País levou 75 dias para quadruplicar número de contaminados; taxa de contágio registra leve queda

Ludimila Honorato e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 20h00

SÃO PAULO - Seis meses e uma semana foi o tempo que o Brasil levou para somar 4 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus. A marca foi registrada nesta quarta-feira, 2, com a contabilização de 48.632 novos casos nas últimas 24 horas, segundo levantamento feito por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL junto às secretarias estaduais de Saúde. Em relação às mortes, a média diária vinha caindo, mas registrou pequeno aumento e ficou em 878, referente aos sete dias anteriores. Ao todo, 123.899 brasileiros morreram em decorrência da covid-19 e 4.001.422 se contaminaram.

Nas últimas 24 horas, 1.218 novos óbitos foram acrescidos ao número total, e o País segue como o segundo mais afetado do mundo em termos de casos e mortes, atrás dos Estados Unidos. O balanço mais recente do Ministério da Saúde, divulgado no fim da tarde desta quarta-feira, mostra que 3.210.405 pessoas se recuperaram da covid-19 e outras 663.680 ainda estão em acompanhamento.

Um cenário de queda em relação a casos e mortes tem sido visto no Brasil como um todo, e até mesmo a taxa de contágio diminuiu pela segunda vez desde abril. Porém, esses indícios promissores ocorrem só agora, depois de mais de um semestre de pandemia no País, ao custo de 4 milhões de casos e mais de 120 mil mortes. Isso é reflexo da ação descoordenada de resposta à covid-19, avalia o infectologista Evaldo Stanislau de Araújo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

“Enquanto outros países levaram mais a sério e conseguiram diminuir número de casos e circulação do vírus com lockdown, por exemplo, a gente teve sucessivos exemplos de uma sabotagem das recomendações de medidas de contenção não farmacológicas, até de quem está no poder”, diz o médico, que é membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI). Ele observa que o fato de o Brasil ter adotado uma política muito heterogênea de enfrentamento, “quem ganhou corpo foi o vírus” e o resultado foi a pandemia crescendo.

O que também permite entender o crescente aumento de casos no País é a forma como o vírus se espalhou, começando pelos grandes centros urbanos e depois se dirigindo ao interior dos Estados. “Causou um descompasso. Enquanto tem regiões metropolitanas caindo e regiões do interior crescendo, o total ainda é de crescimento de casos”, afirma Araújo.

Em uma análise mais ampla, isso também foi observado em diferentes regiões. O Sul e Centro-Oeste, que até julho pareciam ter sido poupados de epidemias locais em grande escala, começaram a registrar avanço da covid-19 em meados daquele mês. A explicação para isso se apoia em dois fatores: o isolamento social precoce, que adiou o aumento de casos e mortes, e a reabertura das atividades comerciais, que permitiu a quem ainda não estava imune circular pelas ruas, se aglomerar e se expor ao vírus.

Dados indicam estabilização da pandemia

Até esta terça-feira, 1º, a média móvel diária de mortes pelo novo coronavírus vinha caindo, o que parece indicar uma queda sustentada, embora lenta. Um dos motivos, segundo Araújo, é o fato de os profissionais de saúde terem aprendido a lidar melhor com a covid-19. “As pessoas aprenderam a identificar melhor os sinais de gravidade e têm aprendido a tratar melhor os pacientes. Embora se veja número de casos crescente, a mortalidade começa a cair.”

Dados da renomada universidade britânica Imperial College também ratificam o cenário de possível estabilização, uma vez que a taxa de transmissão apresentou leve queda pela segunda vez desde abril. Também se observa um padrão na evolução de casos. O Brasil levou 27 dias do primeiro ao segundo milhão, depois mais 23 para chegar aos 3 milhões e agora 25 dias se passaram até os 4 milhões de infectados.

“Tem esse padrão de aceleração e depois desacelera. Regionalmente desacelerou e não tem outra explicação, porque tem circulação viral, senão a possibilidade de ter desenvolvido algum grau de imunidade, fazendo cair o número de reprodução regionalmente”, avalia o médico do Hospital das Clínicas.

Para ele, a desaceleração do aumento casos em algumas regiões metropolitanas não tem mérito das medidas de distanciamento social, por exemplo, uma vez que em todo o País a ação foi desorganizada e as pessoas pouco aderiram a elas. A possibilidade de uma imunidade de rebanho existir seria a única explicação para isso, argumenta.

Cuidados devem continuar

A situação, porém, ainda exige cautela. Ter uma taxa de contágio menor que 1 é positivo, mas não significa zero transmissão, lembra o infectologista. E a esperança de uma vacina deve ser encarada com os pés no chão.

“Não é porque chegou a vacina hoje que acabou o problema. Tem de ser efetiva a operação logística para vacinar todo mundo. Passado por todo esse desafio, vai ser no final do ano que vem, talvez 2022. Os Estados Unidos publicaram a lista de prioridade para a vacina, mas o Brasil não tem isso definido ainda. Quando chegar nesse ponto perfeito, vai ser ainda com casos acontecendo, porque o vírus não vai deixar de circular”, diz Araújo. O que talvez ocorra, segundo ele, é uma desaceleração de volume de novos casos.

Em meio ao estresse, pressão econômica e medo que a pandemia traz, o médico deixa uma mensagem à população: “As pessoas têm de ter muita paciência. Está todo mundo querendo uma solução, mas a realidade é essa: não tem caminho fácil, tem de respirar fundo e continuar se protegendo. Se a pessoa teve ou não covid, as únicas ferramentas de proteção são as medidas não farmacológicas. Tem de evitar aglomeração, usar todas as estratégias no transporte público, no trabalho, usar máscara e fazer higiene da mãos. Calma e paciência, porque mesmo quando tiver vacina, não é da noite para o dia que se resolve.”

Consórcio de imprensa

O balanço de óbitos e casos é resultado da parceria entre os seis meios de comunicação que passaram a trabalhar, desde o dia 8 de junho, de forma colaborativa para reunir as informações necessárias nos 26 Estados e no Distrito Federal. A iniciativa inédita é uma resposta à decisão do governo Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia, mas foi mantida após os registros governamentais continuarem a ser divulgados.

Segundo o Ministério da Saúde, foram registrados 46.934 novos casos e mais 1.184 mortes pela covid-19 nas últimas 24 horas, o que elevou os números totais para 3.997.865 e 123.780, respectivamente. Somente nos últimos três dias, 392 pessoas morreram por causa da doença e 2.658 óbitos estão em investigação. Os números são diferentes do compilado pelo consórcio de veículos de imprensa principalmente por causa do horário de coleta dos dados.

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