Arte sobre foto de Alissa Eckert, MS; Dan Higgins, MAM/CDC/via REUTERS
Arte sobre foto de Alissa Eckert, MS; Dan Higgins, MAM/CDC/via REUTERS

Brasil supera a marca de 2 milhões de contaminados por coronavírus

País atinge 2.014.738 de casos registrados e tem média móvel de 1.081 mortes por covid-19 nos últimos sete dias

Giovanna Wolf e Sandy Oliveira, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 20h05

O Brasil ultrapassou nesta quinta-feira, 16, a marca de 2 milhões de casos confirmados de covid-19, após menos de cinco meses desde o início da pandemia no País. Ao todo, são exatamente 2.014.738 contaminações registradas - 43.829 nas últimas 24 horas - e 1.299 mortes, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa formado por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL junto às secretarias estaduais de Saúde. Nos últimos sete dias, o Brasil registrou uma média diária de 1.081 óbitos por covid-19.

A evolução da doença tem sido acelerada no Brasil, que chegou à marca de 500 mil casos registrados em 31 de maio, 95 dias após o primeiro caso, em 26 de fevereiro. O número de infectados dobrou depois em apenas 19 dias, quando o País chegou a 1 milhão de contaminados. A marca de 1,5 milhão veio apenas 13 dias depois e agora ultrapassa a barreira dos 2 milhões de casos em 14 dias. Se o País demorou 114 dias desde o primeiro caso para atingir a marca de 1 milhão de contaminados em 19 de junho, 27 dias foram suficientes para o número dobrar e chegar a dois milhões de casos. Isso sem contar que o Brasil é um país que testa pouco a sua população, ou seja, os números podem ser muito maiores que os registrados.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, o aumento se deve principalmente à curva de crescimento exponencial da pandemia e à interiorização da covid-19 no País: o novo coronavírus já está hoje em 95% dos municípios brasileiros (5.316), que respondem por 99% de toda a população, de acordo com levantamento do projeto de transparência de dados Brasil.io. Os números estão em alta no País em um momento que a pandemia cresce no mundo, com recorde de casos.

Só para se ter uma ideia, o Brasil o segundo país com mais casos de covid-19 no mundo. Só perde para os Estados Unidos, que somam 3.556.403 contaminações confirmadas, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. O terceiro país mais afetado é a Índia, com 968.876 casos. Os três juntos são responsáveis por quase metade de todos os casos registrados no mundo. Outro dado alarmante é que dois terços de todos os 230 mil casos registrados na quarta-feira são dessas três nações e da África do Sul, que vê a pandemia acelerar.

Para Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), apesar de o Brasil ter mantido neste último mês uma taxa de crescimento de cerca de 1.000 mortes por dia, isso não significa que a pandemia esteja controlada. “O número está mantido em um patamar alto, que deve ser ainda maior dada a subnotificação. Estacionamos em um pico, o que é grave. A pandemia continua em expansão com alta transmissão e mortalidade. Temos um controle pouco eficaz: testa-se muito pouco e isola-se muito pouco”, afirma. “Enquanto não houver redução da velocidade de crescimento, bateremos novas marcas rapidamente.”

Disseminação da covid-19 pelo Brasil

Especialista em geografia da saúde da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Raul Borges Guimarães afirma que a covid-19 chegou praticamente a todos os cantos do País. “Ao longo da pandemia vimos um modelo de difusão hierárquica, ou seja, uma rota do coronavírus das cidades maiores para as menores. Nesse último mês esse processo se completou chegando a todas as regiões e a todos os tipos de cidade, inclusive a municípios tipicamente rurais de menos de 15 mil habitantes”, afirma Guimarães, que é um dos pesquisadores envolvidos no Radar Covid-19, projeto da universidade que busca rastrear a difusão do vírus.

Com a interiorização da doença, médicos chamam atenção para possíveis impactos no sistema de saúde. “Cidades no interior costumam ter piores estruturas de hospitais, que podem não dar o suporte adequado à internação”, diz Chebabo, da SBI. Esse é um problema para os próximos meses. Jean Gorinchteyn, infectologista do hospital Emílio Ribas e do hospital Albert Einstein, também pontua que esse movimento pode sobrecarregar as UTIs de capitais, já que a população das cidades menores tende a buscar atendimento nas cidades maiores.

O avanço do novo coronavírus pelos Estados também mudou no último mês: principalmente as regiões Sul e Centro-oeste passaram a registrar um crescimento acelerado da pandemia, enquanto os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, epicentros impactados desde o início, passaram por semanas de ligeira desaceleração.

 “Temos várias epidemias dentro de um único País. Algumas regiões ainda estão se elevando em termos de número de casos”, diz Gorinchteyn. “Por causa dessas flutuações diferentes, vamos demorar mais para atingir um platô da doença no Brasil como um todo. Por enquanto não há previsão de quando esses números totais vão começar a cair.”

Para os especialistas, a reabertura em diversas cidades também é um ponto de atenção neste momento. Deveria ser repensada nos municípios onde a doença cresce e onde não há capacidade de UTIs. “A reabertura tende a elevar os casos. Corremos o risco de ter uma segunda onda ou mesmo uma elevação de número de casos ainda na primeira”, afirma Gorinchteyn. “Nessas próximas semanas esses processos precisarão ser milimetricamente monitorados. Também teremos de aprender a recuar, quando preciso, a despeito de interesses econômicos.”

Enquanto o Brasil atinge dois milhões de casos, o Ministério da Saúde completa mais de dois meses sem ministro. Em nota ao Estadão, a pasta afirmou que mantém esforço contínuo para garantir o atendimento em saúde à população desde o início da pandemia, e que já enviou R$ 9,9 bilhões a Estados e municípios voltados exclusivamente para combate ao coronavírus.

“Não temos uma coordenação centralizada para dar um rumo aos Estados e municípios nesse combate. Sem articulação, o controle fica muito mais difícil”, diz o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Consórcio de veículos de imprensa

O balanço de óbitos e casos é resultado da parceria entre os seis meios de comunicação, que uniram forças para coletar junto às secretarias estaduais de Saúde e divulgar os números totais de mortos e contaminados. A iniciativa inédita é uma resposta à decisão do governo Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia.

O órgão informou, no início da noite desta quinta-feira, que o Brasil contabilizou 1.322 óbitos e mais 45.403 pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Com isso, segundo o Ministério da Saúde, no total são 76.688 mortes e 2.012.151 casos confirmados pelo coronavírus. O número é diferente do compilado pelo consórcio de veículos de imprensa principalmente por causa do horário de coleta dos dados.

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