Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Brasil tem 10 milhões de idosos com dose de reforço contra a covid atrasada

Terceira dose é considerada fundamental para prevenir infecções e hospitalizações, principalmente entre os mais vulneráveis

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 10h00

O Brasil tem 10 milhões de idosos com a dose de reforço contra a covid-19 atrasada, indica um levantamento do Ministério da Saúde. A dose de reforço é considerada fundamental para prevenir infecções, hospitalizações e óbitos pela doença, principalmente entre os grupos mais vulneráveis. As informações, ainda preliminares, soam o alerta sobre a necessidade de estratégias de mobilização para incentivar a vacinação com a terceira dose.

Conforme o documento da pasta, de 4 de março, 10.026.720 pessoas com mais de 60 anos de idade já poderiam ter tomado a dose de reforço, mas ainda não compareceram aos postos de vacinação ou não entraram nos sistemas de registro. O Brasil tem 30,3 milhões de pessoas acima de 60 anos. Para calcular o número de pessoas aptas para a dose de reforço, a pasta leva em consideração aquelas que tomaram a segunda dose há mais de 120 dias e não voltaram aos postos para tomar a terceira dose.

Todos os brasileiros que tomaram a segunda dose há mais de 4 meses já podem buscar a vacinação com a dose de reforço. Entre o público de 18 a 59 anos de idade, os dados indicam 54,1 milhões de pessoas com o reforço atrasado. No total, 64,2 milhões de brasileiros estão aptos a receber a dose de reforço, mas ainda não compareceram aos serviços de vacinação ou não tiveram a vacina computada, segundo o Ministério da Saúde.

A pasta pondera que parte desses números tem relação com atrasos nos registros. Em muitas áreas do País, a vacinação ocorre, mas os dados sobre a pessoa imunizada não são registrados rapidamente. Por isso, é possível que os números de “atrasados” para a dose de reforço sejam menores, na prática, do que aqueles que aparecem nos registros do Ministério da Saúde. Entre idosos, porém, a aplicação da dose de reforço começou em setembro do ano passado.

O Ministério destaca ser “relevante” a quantidade de faltosos na vacinação contra a covid-19. “Reitera-se a necessidade de esforços adicionais empreendidos pelas três esferas de gestão do SUS, como a busca de parceiros para avançar no processo de vacinação, melhorar as coberturas vacinais, principalmente sobre as doses de reforço nos públicos mais vulneráveis”, conclui o documento do Ministério da Saúde.

A proteção da vacinação com as duas doses cai com o tempo para todas as faixas etárias, mas principalmente entre os idosos. A dose de reforço ativa anticorpos contra a doença e é uma estratégia para deixar os idosos menos vulneráveis em relação à covid-19.

A dose de reforço também restaura barreiras contra a infecção pelo vírus - ou seja, pessoas que já tomaram a terceira dose têm menos chance de se infectar do que aquelas que só tomaram as duas doses da vacina contra a covid-19. A ampliação da proteção é importante não só contra casos graves, mas também pode ser útil para evitar a covid longa - os sintomas duradouros da covid-19 mesmo após um quadro leve da doença.

Segundo o Ministério da Saúde, a proporção de vacinados com a dose de reforço está abaixo de 90% para todas as faixas etárias. Em algumas regiões, o índice não chega a 60%. Nenhum Estado da Região Norte, com exceção de Rondônia, alcançou a cobertura de 60% entre jovens ou idosos. No Nordeste, a cobertura com a dose de reforço também é baixa em Estados como Maranhão e Pernambuco.

No Estado de São Paulo, que tem as melhores coberturas do País com as duas doses, o número de registros de atrasados para o reforço ou de pessoas cuja a terceira dose ainda não foi anotada chega a 2,3 milhões entre os idosos acima de 60 anos e a 14,9 milhões na população de 18 a 59 anos de idade, segundo o boletim do Ministério da Saúde. Os dados são até 21 de fevereiro. 

Ainda assim, o Estado conseguiu atingir 60% da cobertura com a dose de reforço na faixa etária dos idosos. Por meio de nota, a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo informou que já aplicou 21 milhões de doses adicionais e reiterou "a importância da conclusão do esquema vacinal para garantir a proteção contra a covid-19". A Prefeitura de São Paulo informou que a cobertura com a dose adicional está em 66,2% para a população acima de 18 anos.

Gestores e especialistas apontam que a redução na percepção de risco da população contribui para índices baixos de cobertura. Por outro lado, estratégias como busca ativa, campanhas e postos volantes, instalados em espaços públicos, ajudam a atingir os faltosos.

“A gente historicamente sabe que quanto mais doses se acrescenta à campanha, menor a taxa de cobertura. Para cada 100 que vêm fazer a primeira (dose), 90 vêm fazer a segunda e 75 vêm fazer terceira”, diz Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Na campanha da covid-19, no entanto, o abismo entre a procura da segunda e da terceira parece maior.

Fatores como a sensação de proteção da população, o medo de reação, fake news e mudanças nas orientações sobre prazos entre as doses contribuem para a cobertura baixa com o reforço, segundo Kfouri. A boa notícia, diz ele, é que há uma janela de oportunidades já que os municípios têm hoje os nomes e telefones dos vacinados - e sabem quem já deveria ter retornado ao posto e não voltou.

No Espírito Santo, um dos Estados com o maior avanço na dose de reforço, a comunicação por SMS avisando sobre a data da vacinação será retomada para aumentar as taxas, principalmente entre os mais jovens. A cobertura com a terceira dose estava em 83,17% nesta terça, 8, entre os maiores de 60 anos. O número é considerado bom pela secretaria de Saúde, mas ainda abaixo da meta de 90%.

Já na população capixaba mais jovem, de 18 a 59 anos, metade dos que já estão aptos a receber o reforço não voltou aos postos. Para Danielle Grillo, coordenadora do Programa Estadual de Imunizações, é preciso avançar no alcance da terceira dose no Estado, principalmente entre a população adulta. “Ela não tem mais a percepção de risco. O idoso ainda adere melhor ao esquema vacinal porque tem medo da covid.”

Além da estratégia de envio de SMS, o Estado manda aos municípios uma lista com os nomes dos faltosos e números de telefone de cada um deles, para ligações, e aplica vacinas em lugares de ampla circulação. Já o acesso a equipamentos públicos no Espírito Santo depende de comprovar que está com o esquema em dia - incluindo a dose de reforço.

Em São Paulo, o governo estadual diz apoiar a vacinação de reforço, com envio de mensagem via SMS e por e-mail para lembrar a data de retorno. Também incentiva os municípios a fazer a busca ativa dos faltosos e promover ações de divulgação.

Informações reunidas pelo consórcio de veículos da imprensa com as secretarias estaduais da Saúde indicam que, até esta terça-feira, 8, 67,24 milhões de pessoas foram vacinadas com terceira dose no Brasil, o que representa 31% da população total brasileira e 41,6% da população adulta (maior de 18 anos).  

Conforme o Estadão mostrou, os idosos voltaram a se destacar entre as principais vítimas da covid-19 mais de dois anos após o início da pandemia, indicando que uma quarta dose de imunizante pode ser fundamental para proteger essa faixa etária. Mato Grosso do Sul, por exemplo, já começou a aplicar a 4.ª injeção nos mais velhos e São Paulo prevê iniciar essa nova fase da campanha em abril. 

Por meio de nota, o Ministério da Saúde informou que articula ações de incentivo à vacinação contra a covid-19, “considerando as características próprias de cada Estado e município". A pasta também recomenda a busca ativa das pessoas para completar o esquema vacinal, “a fim de garantir a máxima proteção dos brasileiros, principalmente contra as novas variantes”.

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