Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Brasil tem 25 mortes por coronavírus, de acordo com Ministério da Saúde

Em coletiva, ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que 'classe mais rica' trouxe covid-19 ao País: 'Início da doença é com as pessoas mais bem nutridas, com casas mais estruturadas'

Anne Warth, Eduardo Rodrigues, Felipe Frazão e João Ker, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 17h10
Atualizado 12 de abril de 2020 | 20h07

O Ministério da Saúde confirmou neste domingo, 22, que o País já tem 25 mortes causadas pelo novo coronavírus. De acordo com a pasta, são  1.546 casos confirmados da doença. Em relação aos dados divulgados no sábado, 21, são 418 casos a mais, um aumento de 37%, e mais sete mortes, um crescimento de 39%. São Paulo continua tendo o maior número de mortes, agora são 22, e também de casos confirmados631. No sábado, eram 15 mortes no Estado. Todas as sete novas mortes de São Paulo aconteceram na capital.

Como o coronavírus está distribuído pelo Brasil (casos confirmados e mortes)

De acordo com o Ministério da Saúde, todos os Estados do País já têm casos confirmados – até sábado, Roraima não tinha casos, e agora registra dois. No Norte, são 49 casos, 3,2% do total. No Nordeste, 231 casos, 14,9% do total. No Centro-Oeste, 161 casos, 10,4% do total. No Sul, 179 casos, 11,6% do total. O Sudeste concentra o maior número de casos, 926 ao todo, com 59,9%, e todas as mortes, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Durante a coletiva, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que os mais de 5 milhões de testes rápidos encomendados pelo governo para os próximos oito dias virão de uma fabricante chinesa e apresentam sensibilidade de 86,43% e especificidade de 99,5%. A expectativa é que a pasta trabalhe com uma escala de 30 a 50 mil exames por dia.

Produção de cloroquina no Brasil

Mandetta disse que o Brasil tem capacidade para produzir e exportar cloroquina, um dos medicamentos que têm tido resultados promissores em testes experimentais para tratamento do novo coronavírus. Segundo ele, tanto a Fiocruz quanto o Laboratório do Exército têm condições de produzir a medicação – que serve para tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide.

O minsitro também afirmou que alguns pacientes com o novo coronavírus já vêm sendo tratados com essa medicação, mas ainda não é possível dizer se a cloroquina foi decisiva ou não para a melhora do estado de saúde. “Agora, quando uma pessoa entra em estado grave, fica quase impossível ao médico negar o medicamento e dizer que ainda são estudos”, afirmou o ministro.Mandetta disse, porém, que o governo ainda não definiu o protocolo para uso da cloroquina – qual a dosagem, o intervalo entre a medicação e quem deve ou não ser tratado, se todos os infectados ou apenas os internados. Ele também alertou para os efeitos colaterais da automedicação com a substância, que podem ser “muito mais graves que uma gripe”.

Estimativa e recomendações 

O ministro estimou que metade da população será contaminada pelo novo coronavírus e, desse total, mais da metade terá assintomática. Dos que apresentarem sintomas, segundo Mandetta, apenas 15% deve necessitar de internação hospitalar. "Se isso acontecesse distribuído no ano, não teríamos problema nenhum. Como ninguém tem imunidade, vai acontecer de maneira bruta e levar muita gente ao SUS. É como ter uma geladeira em casa e todo o quarteirão precisar guardar algo nela."

Ele disse que o fato de o Brasil ter uma população jovem pode contribuir no enfrentamento da doença, formando um grande cordão imunológico com menos casos graves. O ministro ainda relembrou que a campanha de vacinação contra a gripe começa no País nesta segunda-feira, 23, com foco em profissionais de saúde e pessoas acima de 60 anos, como forma de evitar casos graves no futuro.

De acordo com Mandetta, é necessário ter "bom senso" na hora de sair de casa. "Se seu município é pequeno e não tem nenhum caso ainda, use o bom senso e ouça seu secretário [da Saúde]", disse. "Tem gente tomando decisão motivada por pânico, por eleições, por política, por sabe-se lá o quê. Eu peço a vocês: as motivações devem ser técnicas, científicas", reforçou o ministro, quando perguntado sobre a recomendação para que população permaneça em isolamento domiciliar.

Outro ponto adotado durante a coletiva foi o uso do álcool líquido que, de acordo com Mandetta, oferece grande periculosidade por ser inflamável e deve ser manuseado cuidadosamente. Ele teme que a substância seja utilizada em fogareiros, no corpo ou próximo a fumantes. “A única coisa de que não precisamos é queimadura e fumaça nessas horas. Não façam disso um grande arrependimento, principalmente em comunidades no Rio de Janeiro e da Baixada Santista”, afirmou. No lugar do líquido, o ministro recomendou o clorito, substância encontrada na água sanitária para limpeza de ambientes.

Merenda escolar

O ministro da Saúde atentou para a importância de manter a distribuição da merenda escolar, mesmo com a suspensão das aulas em meio à pandemia do novo coronavírus, já que muitas crianças mais pobres dependem da distribuição de comida feita pela rede pública para se alimentar ao longo do dia. “Isso é louvável, se o ministro Abraham [Weintraub, da Educação] assim proceder”, afirmou.

De acordo com ele, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, prepara medidas para reforçar a alimentação das crianças mais pobres, com proteína, leite em pó e barras.

Saneamento básico

Mandetta afirmou que a chegada do coronavírus ao Brasil se deu pela "classe mais rica" e que isso deve ser levado em consideração no debate em torno da doença. "Porque sempre a classe mais pobre era quem tinha doença e transmitia para os ricos. Agora, foi o contrário. São os ricos que estão trazendo a doença pra dentro da sociedade, porque foram para as estações de Alpes etc.", explicou. 

De acordo com o ministro, o surgimento da covid-19 em "pessoas mais bem nutridas, com as casas estruturadas" teve efeitos em possas sem acesso ao sanemaneto básico, o que ele categorizou como um condicionamento social de saúde. "Sabemos que temos problemas históricos de habitação e por isso pagaremos um preço. Por termos tolerado favelas e construções. Como vamos resolver o grande problema de saneamento básico, de hanseníase, de tuberculose? Já está mais do que na hora de fazermos uma reestruturação da dinâmica urbana. Quando temos problemas de saúde, esses problemas afloram e agravam qualquer situação", completou.

Mais médicos

Mandetta disse que o governo vai convocar profissionais para trabalhar por meio do programa Mais Médicos. No caso dos profissionais que se formaram em outros países, como Bolívia e Paraguai, e que ainda não possuem licença para exercer a medicina no Brasil, o ministro sugeriu que eles cumpram a “missão humanitária de atender nossos irmãos bolivianos e paraguaios, já que estão legitimados para tal”. Segundo ele, não trabalhar nesses locais “seria uma falta de cortesia dos médicos formados em países tão carentes e com uma qualidade tão boa”.

Sobre a antecipação da formatura de estudantes de medicina, o ministro esclareceu que é algo meramente burocrático e que servirá apenas para aqueles que estão no sexto ano, que já cumpriram 99,9% do curso e têm previsão de concluírem o ensino superior ainda no primeiro semestre.

São Paulo

De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde, dos sete novos óbitos confirmados desde sábado em São Pauo, cinco são homens, com idades entre 76 e 83 anos, e duas mulheres, de 88 e 96 anos. Entre o total de mortes registradas até o momento, 21 ocorreram em hospitais privados e uma em hospital público. 

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