Kim Kyung-Hoon/ Reuters
Kim Kyung-Hoon/ Reuters

Brasil tem 739 casos suspeitos de microcefalia

Nascimentos foram registrados em 160 municípios, em 9 Estados; registros ultrapassam Nordeste e chegam ao Centro-Oeste

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2015 | 11h48

Atualizada às 23h12

BRASÍLIA - O avanço da epidemia de microcefalia previsto por autoridades sanitárias está se concretizando numa velocidade mais rápida do que o esperado. O Brasil registrou até agora 739 casos da má-formação, cinco vezes mais do que havia sido contabilizado há duas semanas, quando o estado de emergência sanitária de importância nacional foi decretado.

Além da expansão de registros, a epidemia se alastra. O número de cidades com casos notificados passou de 55 para 160. O problema também rompeu a barreira do Nordeste. Um caso de microcefalia foi notificado em Goiânia. “Há risco de os casos se espalharem pelo País”, disse o ministro Marcelo Castro.

A maior parte das notificações ocorreu em Pernambuco: 487 registros. Em seguida, vêm Paraíba (com 96), Sergipe (54), Rio Grande do Norte (47), Piauí (27), Alagoas (10), Ceará (9), Bahia (8) e Goiás (1). “Estamos prestes a dizer de forma peremptória e definitiva que esse aumento é provocado pela infecção das mães pelo vírus.”

Castro disse que as chances de o zika vírus ser o responsável pelo aumento de nascimento de bebês com microcefalia é de 90%. Ele é transmitido pelo Aedes aegypti, mosquito também responsável pela dengue e pelo chikungunya. “Além da dengue, que mata, e da chikungunya, que aleija, temos agora o problema da zika, que causa microcefalia. É um problema muito grande para a gente enfrentar”, disse o ministro.

Para Cláudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do ministério, os casos de zika não têm precedentes no mundo. Diante disso, o governo espera reunir mais informações para atribuir a relação de causa e efeito entre as doenças.

As evidências, no entanto, são fortes. Como antecipou o Estado, exames identificaram material genético do zika no líquido amniótico em dois fetos na Paraíba que apresentavam a má-formação. Outros dois fatores pesam para essa avaliação: o fato de bebês nascerem meses depois de a epidemia ter sido identificada no Nordeste e o relato da maior parte das mães de ter apresentado, nos primeiros meses de gestação, febre, manchas pelo corpo e coceiras - os sintomas clássicos da zika.

Estados. O vírus chegou ao Brasil neste ano. Em poucos meses, provocou epidemia no Nordeste. Dados do ministério indicam que 18 Estados apresentam a circulação do vírus, entre eles São Paulo e Rio - quatro a mais do que na semana passada.

Na próxima semana, deve desembarcar no País uma equipe de pesquisadores com integrantes do Centro de Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ao falar de estratégias de combate à dengue, o ministro citou a possibilidade, a médio prazo, da adoção de “mosquitos transgênicos” ou infectados por uma bactéria, a wolbachia. Embora promissoras, Castro observa que tais iniciativas não estão disponíveis imediatamente. O governo também não descarta pedir auxílio do Exército para combater o mosquito. Nesta semana, será lançada uma campanha de prevenção às doenças.

'Problemão'. O ministro da Saúde, Marcelo Castro, admitiu que o País está diante de um problema de saúde pública de grandes dimensões. O verão que se aproxima será o primeiro em que três doenças - dengue, chikungunya e zika - estarão presentes. Para o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Rivaldo Cunha, o Brasil enfrenta uma “tríplice epidemia”.

“Estamos com um problemão para resolver. Ele terá de ser resolvido por todos juntos: população, governos estaduais, municipais e o governo federal”, disse o ministro. Neste ano, a dengue bateu todos os recordes. Até a semana 45, foram contabilizados 1.534.932 casos da infecção, 7% a mais do que em 2013, ano que até então registrara a maior marca histórica.

Neste ano, a doença provocou 811 mortes, 25% a mais do que em 2013. O número de casos graves também subiu no período, com 1.488 pacientes.

Ao contrário do que ocorreu em outros anos, a doença não deu trégua nos meses mais frios. Para se ter uma ideia, há cinco semanas, o número de casos era de 1.485.397. Neste curto espaço de tempo também se elevou o total de casos graves.

O fenômeno se repete com a chikungunya, doença também transmitida pelo Aedes aegypti, com sintomas semelhantes ao da dengue. Embora o risco de morte seja menor, ela pode atingir as articulações, tornar-se crônica e deixar o paciente por meses impossibilitado de executar tarefas simples, como vestir-se ou se alimentar.

Foram confirmados 6.724 casos, com outros 8.926 em investigação. Há quatro semanas, haviam sido confirmados 5.034 casos. O avanço atípico preocupa autoridades sanitárias e é considerado como prenúncio de que, no verão, essas infecções podem aumentar.

Guillain-Barré. Como não há kits de diagnóstico, o governo não dispõe de números exatos sobre a zika. A doença, que quando chegou ao País era considerada uma versão amena da dengue, hoje mostra o contrário. Além da microcefalia, há a suspeita de que ela provoque uma doença autoimune, que leva à paralisia, a Guillain-Barré.

Há registros de casos no Brasil, tanto na Bahia quanto em Pernambuco. Os pacientes desenvolvem o problema semanas depois da fase aguda da infecção por zika. O tratamento exige internação e demanda um longo período até a completa reabilitação. “Estamos diante do desconhecido”, disse o secretário de Vigilância em Saúde, Antonio Carlos Nardi.

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