Pascal Pochard-Casabianca/AFP
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Brasil tem ao menos 38 mortes por coronavírus na enfermagem, diz Cofen

Outros 11 óbitos aguardam resultado de testes; levantamento de conselho aponta 6.269 profissionais de Enfermagem com suspeita ou confirmação da covid-19

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 17h15

Com contato muito próximo e frequente com pacientes, auxiliares e técnicos de enfermagem e enfermeiros estão entre as profissões mais expostas ao contágio durante a pandemia do novo coronavírus. Segundo levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), ao menos 38 profissionais da área morreram por causa da covid-19 no Brasil, enquanto outros 11 óbitos ainda não tiveram diagnóstico confirmado por teste

O levantamento do Cofen aponta, ainda, 6.269 casos suspeitos ou confirmados da doença entre profissionais de enfermagem, dos quais 3.950 ficam na região sudeste. O Estado com mais registros é São Paulo, com 1.404 casos suspeitos e 417 confirmados. Um deles é do enfermeiro Idalgo Moura, de 45 anos, cuja família acompanhou o enterro pela internet.

Os números se aproximam aos da Itália, que teve 34 mortes e 8,8 mil casos confirmados entre profissionais de enfermagem, segundo noticiou a agência Ansa na sexta-feira,17. 

No Brasil, entre os pacientes suspeitos e confirmados na enfermagem, 36,7% têm entre 31 e 49 anos, 23,2% têm de 41 a 50 anos, 16,3% têm de 18 a 30 anos, 7,8% têm de 51 a 60 e 1,1% é idoso. Segundo registros do Cofen, o País tem mais de 2,2 milhões de profissionais de enfermagem registrados. 

Desde 13 de março, a entidade recebeu 5,3 mil denúncias de falta de equipamentos de proteção individual, proibição do uso de materiais disponíveis na unidade, reutilização de materiais descartáveis e exigência para que profissionais comprem os próprios equipamentos. Em fiscalizações a 3,2 mil instituições durante a pandemia, foi identificado problemas relacionados ao segurança dos profissionais em 90% dos locais. 

“Nós já tínhamos como certo que alguns profissionais de saúde seriam contaminados por esse vírus, até pelas próprias características da atividade. Mas o que está acontecendo é muito mais preocupante, e os números continuam crescendo”, comenta o enfermeiro Walkirio Almeida, coordenador do Comitê Gestor de Crise Covid-19 do Cofen. “Isso pra gente sinaliza que algo precisa ser feito no ambiente de trabalho.”

Ele considera que, se não forem adotadas medidas mais intensas de proteção, poderá ocorrer um afastamento cada vez maior de profissionais das atividades, impactando o atendimento aos pacientes. “Se (o trabalhador de enfermagem) não for preservado, não adianta ter equipamento, leito de UTI, respirador, porque não vai ter quem assista o paciente.”

Profissional de enfermagem é o mais vulnerável ao contágio, ressalta especialista

Doutora em Epidemiologia e professora de Enfermagem da UFRGS, Mariur Beghetto explica que o profissional de enfermagem é o mais vulnerável a contrair a doença por permanecer todo o período de trabalho em ambientes com alta concentração do vírus e muito próximos do paciente. O risco é ainda maior entre técnicos e auxiliares, que exercem mais funções de contato físico, como de higiene e alimentação, por exemplo.

“Até para acomodar a pessoa na cama, tem que abraçar o paciente. E enfermeiros também fazem isso, especialmente em ambientes de terapia intensiva. Quanto mais tempo exposto e em um ambiente mais intenso, mais risco existe. Há uma carga viral muito grande”, diz. “Para entubar um paciente, às vezes precisa de 4, até 6 pessoas para fazer.”

A professora comenta, ainda, que estudos têm apontado risco de contaminação até no momento de retirada e troca dos equipamentos de proteção. “Vamos pensar em uma unidade hospitalar. Só de estar lá dentro, é preciso higienizar as mãos muitas vezes, trocar de roupas. Aí um paciente toca a campainha, mas o quarto do lado também tocou. Você vai ter que escolher quem atender primeiro e, depois, sair de um e se desparamentar todo até ir no outro.”

Além disso, ela pontua que é comum que profissionais da área acumulem mais de um emprego e, com um cenário de maior número de doentes, a tendência é que esse grupo esteja mais sobrecarregado. “É uma carga horária maior em uma situação que já gera estresse, cansaço, e isso tudo influencia na imunidade. Além disso, muitos estão acumulando funções que antes dividiam”, comenta Mariur. 

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