Erasmo Salomao/MS
João Gabbardo dos Reis, secretário executivo do Ministério da Saúde Erasmo Salomao/MS

Brasil tem oito casos confirmados de coronavírus

Ministério da Saúde confirmou que há transmissão local da doença. Número de casos suspeitos no País chega a 636; São Paulo tem o maior número, 182. Caso suspeito no DF aguarda contraprova

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 17h07
Atualizado 06 de março de 2020 | 18h17

BRASÍLIA - O Brasil tem oito casos confirmados do novo coronavírus e já há transmissão local da doença, segundo balanço divulgado nesta quinta-feira, 5, pelo Ministério da Saúde. São seis em São Paulo, 1 no Rio de Janeiro e outro no Espírito Santo. Uma mulher tem teste positivo no Distrito Federal e aguarda contraprova; a idade dela foi divulgada de formas divergentes ao longo da coletiva de imprensa da pasta e acabou sendo confirmada em 53 anos. O caso diagnosticado no Espírito Santo é de uma mulher de 37 anos que esteve na Itália.

O número de casos suspeitos da doença subiu de 531 para 636 de quarta para esta quinta-feira. Já foram descartadas 378 análises. Os Estados com mais casos suspeitos são: São Paulo (182), Rio Grande do Sul (104), Minas Gerais (80) e Rio de Janeiro (79).

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Transmissão local

De acordo com o ministério, já há transmissão local da doença, com dois casos em São Paulo. As pessoas infectadas dentro do País têm relação com o primeiro caso confirmado, de um homem de 61 anos, e são do sexo feminino. A primeira pegou a infecção por contato com o homem durante reunião de cerca de 30 pessoas. Na sequência, ela transmitiu a doença para a outra paciente. Não há detalhes ainda sobre a evolução clínica do primeiro paciente diagnosticada no Brasil. Sabe-se que ele continua com sintomas e está em casa.

Com transmissão interna, o Brasil pode ser inserido em lista da Organização Mundial da Saúde (OMS) de países em monitoramento para o novo coronavírus, disse o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira. Para uma pessoa ser investigada para o vírus, ela precisa ter passado por um dos países desta lista.  

Oliveira disse que o Brasil ainda não tem "transmissão comunitária" do vírus. "O vírus não está produzindo doentes que não conseguimos identificar qual é a fonte", explicou. Apenas China, Itália e Coreia do Sul têm transmissão sustentada da doença, afirmou.

Mesmo com oito casos confirmados no País, o Ministério da Saúde não mudará ainda a estratégia sobre combate à doença. "Não tem o menor sentido fechar escolas neste momento em que não há transmissão comunitária", exemplificou o secretário. A pasta mantém recomendação de fazer higiene simples, como lavar as mãos e usar álcool em gel 70%, se hidratar e buscar atendimento médico em caso de sintomas suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, o Covid-19.

Caso confirmado sem sintomas

Mais cedo, o governo confirmou contraprova positiva em uma jovem de 13 anos, de São Paulo, que testou para o vírus na quarta-feira, 4. Ela está sem sintomas, apresenta baixa carga viral no organismo e está em recuperação, segundo Oliveira, sem isolamento. Segundo o secretário, não há risco de transmissão da doença, pois o vírus estaria "fragmentado" e em baixa quantidade no corpo dela. Além disso, os contatos próximos à adolescente não foram diagnosticados após testes.

Oliveira explicou que a reclassificação do caso foi discutida com a secretaria do Estado de São Paulo e decidiu-se que ele cumpre com a definição a partir do resultado laboratorial, mas não foi considerado como tal a princípio porque não houve sinais e sintomas. "Essa pessoa foi submetida a procedimento hospitalar, com medicamentos que suprimem sinais e sintomas", disse.

Possível caso no Distrito Federal

O caso suspeito no Distrito Federal é de uma mulher de 53 anos que esteve na Inglaterra e Suíça entre 25 de fevereiro e 2 de março. Ela testou positivo para o novo coronavírus em exame feito em hospital privado e passará por contraprova no Laboratório Central de Goiás. Por enquanto, ela permanece internada.

Coronavírus no Rio de Janeiro

O primeiro caso de coronavírus no Estado do Rio de Janeiro foi anunciado nesta quinta-feira pelo governo do Estado. Trata-se de uma mulher brasileira de 27 anos que mora em Barra Mansa e esteve na Europa, passando por Itália e Alemanha entre 9 e 23 de fevereiro. Ela apresentou sintomas no dia 17 de fevereiro (tosse, coriza e falta de ar) e buscou atendimento médico no Brasil em 2 de março, segudo o ministério. No Estado do Rio, há 79 suspeitas sendo monitoradas.

A confirmação desse caso foi feita durante entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira, no Palácio Guanabara (sede do governo do Estado), em Laranjeiras, pelo secretário estadual de Saúde, Edmar Santos. /COLABOROU FABIO GRELLET e LUDIMILA HONORATO

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OMS encoraja 'preparação agressiva' contra coronavírus

Número crescente de nações que registram casos preocupa entidade, bem como a pouca ação de algumas diante da ameaça; doença soma mais de 95 mil casos ao redor do mundo e mais de 3,2 mil mortes

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 14h38

SÃO PAULO - A principal mensagem da Organização Mundial da Saúde a todos os países que enfrentam a epidemia do coronavírus é: "não desistam". Foi esse o tom que norteou a coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira, 5, em que foram anunciados 95.265 casos da doença no mundo e 3.281 mortes. Diante disso, a entidade encoraja as nações a adotarem uma "preparação agressiva".

Embora alguns países tenham tido resultados promissores — exemplo da China, que parece estar próxima da estabilidade, e da Coreia do Sul, onde o número de casos também parece estar diminuindo — o crescente número de nações que registram casos preocupa a entidade.

"Essa epidemia é uma ameaça para todos os países, ricos e pobres. Mesmo os países de alta renda devem esperar surpresas. A solução é a preparação agressiva", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

"Estamos preocupados que alguns países não tenham levado isso a sério o suficiente ou tenham decidido que não podem fazer nada. Estamos preocupados que em alguns países o nível de comprometimento político e as ações que demonstram esse comprometimento não correspondam ao nível da ameaça que todos enfrentamos", acrescentou.

Com tom incisivo, Ghebreyesus falou diversas vezes que "não é hora de desistir" e que é preciso um comprometimento de políticas sustentáveis para conter o vírus Covid-19, algo em que a entidade acredita ser possível mediante uma ação "coletiva, coordenada e abrangente".

Na China, a OMS atualizou que foram registrados 143 casos nas últimas 24 horas, a maioria na província de Hubei, e oito províncias chinesas não registraram casos nos últimos 14 dias. Fora do país asiático, são 2.055 casos do novo coronavírus em 33 países, e cerca de 80% deles continuam vindo de três países. "Sabemos que as pessoas estão com medo, e isso é normal e apropriado", disse Ghebreyesus, reforçando que o medo pode ser contido por meio de informações adequadas.

Comportamento do coronavírus

A OMS não tem uma visão muito clara sobre se o vírus se comporta de formas diferentes em climas e temperaturas diversos, mas sabe-se que ele está presente em condições variadas. "Não temos razão para acreditar que esse vírus vai se comportar diferente em diferente temperatura, e é por isso que nós queremos uma ação agressiva de todos os países para garantir que vamos prevenir a transmissão", afirmou Maria Van Kerkhove, líder técnica do programa de emergências da entidade.

A variedade de sintomas e mesmo a ausência deles é outro fator que vem sendo investigado por especialistas, segundo ela. A possibilidade de uma pessoa infectada pelo vírus, mas sem sintomas, transmiti-lo existe, mas a OMS não acredita que essa seja a principal forma de transmissão, "senão, teríamos um número maior de casos".

Exemplo disso é o Brasil, onde o quarto caso confirmado da doença foi de uma jovem de 13 anos que testou positivo, mas não tinha características sintomáticas. A representante da OMS reforçou que é preciso rastrear os contatos e monitorar pessoas pré-sintomáticas.

Segundo Maria, estudos estão em andamento para saber sobre quantas pessoas infectadas desenvolvem ou não sintomas e o grau de transmissão de quem é assintomático. "Estamos aprendendo todo dia sobre esse vírus", afirmou.

Outro fator que tem gerado preocupação é da possível transmissão do vírus para animais. Em Hong Kong, um cachorro testou positivo para coronavírus, não apresentou sintomas e está bem, segundo a OMS, sendo o único caso conhecido. A entidade ainda não tem evidências de que o Covid-19 seja transmitido de humanos para pets e vice-versa.

"Estamos trabalhando com autoridades em Hong Kong, com parceiros que estão observando o cachorro, que têm estado em residências de pessoas infectadas pelo Covid-19", disse Maria Van Kerkhove.

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Brasil deveria adotar mesmas medidas de EUA e Europa?

Especialistas dizem que países como Itália e Estados Unidos estão em outro estágio do surto, pois já existe transmissão local da doença 

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 10h00

RIO - Medidas drásticas de contenção da expansão do novo coronavírus adotadas na Europa e nos Estados Unidos têm feito brasileiros questionarem as práticas adotadas no País, em um tom mais moderado. Especialistas ouvidos pelo Estado, porém, consideram corretos os procedimentos do País que, explicam, está numa fase muito inicial da doença, diferente do que ocorre no exterior.

No Brasil, há três casos confirmados vindos da Itália (e outro com teste positivo, mas ainda com contraprova pendente). Ainda não foi registrada infecção dentro do território brasileiro. Enquanto isso, Europa e EUA já enfrentam um segundo momento da epidemia. Nele, há transmissão local da infecção. Por isso, dizem os médicos, as medidas adotadas por cada país são diferentes e respondem a fases distintas do avanço do vírus.

Um caso que se destaca pelo rigor das medidas é o da Itália. Lá, onde já são mais de 2 mil casos confirmados e 52 mortes, grandes aglomerações de pessoas são evitadas. Também foram isoladas pequenas cidades, na tentativa de evitar disseminação maior do vírus. Os Estados Unidos, com mais de cem casos e nove mortes, restringiram voos diretos da China, epicentro da epidemia.

No Brasil, por enquanto, os passageiros procedentes dos países que já apresentam transmissão local do vírus (são 31 até esta quinta-feira, 3) são monitorados se apresentarem febre e sintomas respiratórios. O País tem 531 casos suspeitos e que estão sendo testados para o novo vírus. Nos casos confirmados, pessoas que mantiveram contato próximo com os doentes estão sob monitoramento. Para especialistas, essas medidas são suficientes para o atual estágio da doença por aqui.

A seguir, alguns pontos que têm originado questionamentos no Brasil e o que dizem deles os especialistas em saúde.

Quarentena 

A medida adotada inicialmente pela China, que isolou cidades inteiras e milhares de pessoas, é muito questionada por especialistas. Segundo eles, em regimes democráticos é praticamente impossível isolar uma quantidade muito grande de pessoas. Além disso, há poucos estudos que embasem a eficácia da medida. Sobretudo no caso de um vírus que pode ser transmitido mesmo quando a pessoa não apresenta sintomas.

“Na Itália houve o cancelamento de jogos de futebol e até o isolamento de pequenas cidades, mas ninguém ousou fazer isso numa cidade grande”, afirmou o epidemiologista Roberto Medronho, da Universidade Federal do Rio (UFRJ). “Não há recomendação formal ou oficial das autoridades sanitárias mundiais para a quarentena.”

Para o epidemiologista Expedito Luna, da Universidade de São Paulo (USP), a quarentena já se revelou ineficaz. “Houve pânico excessivo que prejudica o mundo inteiro; talvez essas medidas tenham ajudado a frear um pouco a disseminação, mas esse momento já passou, a barreira sanitária já foi furada. O momento é de mudar de tática.”

Cancelamento de voos

O Brasil está monitorando passageiros procedentes de países onde já há a transmissão do novo coronavírus. Pessoas que apresentarem febre e sintomas respiratórios são classificadas como casos suspeitos e são submetidas a testes. Os EUA suspenderam voos diretos da China. Mas os dois países mantêm tráfego muito intenso de pessoas, o que não ocorre com o Brasil.

“As pessoas procedentes da Itália que desembarcam nos EUA não estão sendo postas em quarentena, não tem como fazer uma coisa dessas”, diz o infectologista Estevão Portela, da Fiocruz. “O que o Brasil está fazendo é retardar a entrada do vírus – porque não há como impedir – e conter a transmissão ativa aqui dentro.”

Testagem em massa

Pessoas próximas aos pacientes diagnosticados com o coronavírus em São Paulo são acompanhadas por autoridades de saúde. “Fora isso, não há recomendação para testar todas as pessoas. A testagem é feita apenas em pessoas que apresentem sintomas; essa é a norma pactuada internacionalmente”, diz Medronho.

Diferentemente de aeroportos na Europa, o Brasil optou por não usar scanners térmicos para monitorar as temperaturas dos passageiros. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),esses equipamentos têm pouca efetividade para identificar casos suspeitos, uma vez que a pessoa pode não apresentar sintomas. 

Grandes aglomerações

A Itália está evitando eventos públicos com grande aglomeração de pessoas, como jogos de futebol, e também determinou fechamento temporário de escolas e universidades. Para especialistas brasileiros, são medidas para conter a velocidade da transmissão local do vírus que já ocorre nesses países. No Brasil, porém, isso ainda não foi registrado.

Uso de máscara

Especialistas são unânimes: a máscara só é indicada para doentes com sintomas não propagarem o vírus. Não impede a contaminação de pessoas saudáveis. A França chegou a confiscar máscaras. O objetivo era que não faltassem para quem realmente precisa delas: os doentes.A Organização Mundial da Saúde chegou a alertar sobre a redução dos estoques destes produtos na quarta-feira, 4. 

Epidemia de informação

A velocidade e a quantidade de informação inédita em circulação potencializa o medo. A situação se agrava, sobretudo, com as mentiras produzidas pela chamada ‘fake science’. São narrativas incorretas e alarmistas, falsamente atribuídas a supostos especialistas. A ação tenta emprestar credibilidade a boatos sem base científica, mas criam medo.

“Em nosso novo ecossistema midiático, a velocidade da informação é cada vez maior, assim como a desqualificação da informação científica”, afirma Igor Sacramento, do Laboratório de Comunicação e Saúde da Fiocruz. “Há desconfiança generalizada das instituições e muitos boatos, notícias falsas e teorias da conspiração circulando nas redes sociais.” A OMS já mencionou o problema da infodemia e disse trabalhar com as empresas de redes sociais para combater notícias falsas. 

Pânico

Especialistas dizem que é normal certa dose de pânico toda vez que um vírus novo - desconhecido e para o qual ninguém tem imunidade - aparece. Todos os dados reunidos até agora sobre o novo vírus, porém, mostram que a letalidade é relativamente baixa. Atinge 2,3% dos casos.

“Não há motivo para pânico: O novo coronavírus se parece muito com o vírus da gripe, com gravidade eventualmente maior em pessoas que já têm outras doenças” diz o infectologista Estevão Portela, do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz. “Mas o que fica no imaginário das pessoas é o fato de ser uma coisa nova, sobre a qual não temos muito conhecimento.”

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Taxa de mortalidade é até 9 vezes maior entre doentes crônicos

Taxa considera dados do novo coronavírus compilados na China por missão da OMS. O país asiático já confirmou 80.422 casos e 2.984 óbitos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - A taxa de mortalidade por coronavírus é até nove vezes maior entre pessoas com alguma doença crônica quando comparada à de pacientes sem patologia preexistente. Segundo dados do governo chinês compilados por uma missão de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em fevereiro, no grupo de infectados que não tinham nenhuma comorbidade, apenas 1,4% morreu. Já entre os pacientes com alguma doença cardiovascular, por exemplo, o índice chegou a 13,2%. Considerando todos os pacientes infectados, a letalidade foi de 3,8%.

A análise do perfil foi feita com base em amostra de 55.924 casos e 2.114 mortes registrados na China até 20 de fevereiro. O país asiático já confirmou 80.422 casos e 2.984 óbitos.

As estatísticas mostram a taxa de mortalidade para pacientes com diferentes tipos de doença crônica. No caso de diabéticos, o índice foi de 9,2%. Em hipertensos, a taxa observada foi de 8,4%. Entre aqueles que já tinham alguma doença respiratória, como asma, a letalidade foi de 8%. Entre os doentes com câncer, a taxa ficou em 7,6%.

Análises anteriores já haviam mostrado que outro importante fator de risco para complicações é a idade. Segundo o relatório da OMS, acima de 80 anos, a mortalidade pela doença chegou a 21,9%.

Nos dois casos, a principal explicação por trás do risco é a resposta imunológica deficiente do organismo. Isso porque, como não há tratamento ainda para a infecção por coronavírus, as células de defesa do paciente é quem precisam trabalhar para eliminar a ameaça. Nas pessoas com sistema imunológico enfraquecido, o corpo não consegue ter uma resposta igual à de uma pessoa saudável.

“Essas pessoas têm uma alteração na imunidade celular e nos processos inflamatórios. Geralmente elas já têm um ou mais órgãos comprometidos, sem funcionar adequadamente. Quanto tem um processo inflamatório, esse órgão pode ser demandado ainda mais e não dar conta”, explica a infectologista Nancy Bellei, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De acordo com Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), não só a condição crônica pode levar a uma infecção viral mais aguda, como a contaminação pelo vírus piora a doença preexistente. “Uma exacerba a gravidade da outra. A infecção viral também piora a doença de base, aumentando o risco de morte não só pelo vírus, mas por complicação da doença crônica”, diz.

Os especialistas explicam que o tamanho do risco para doentes crônicos vai depender do estágio da doença de base e do nível de controle dela. “Quanto maior o nível de cuidado daquela pessoa com a doença preexistente, melhor será a resposta, mas, mesmo com a doença controlada, o risco de complicações é maior do que o de uma pessoa sem nenhuma comorbidade”, explica o especialista.

“Todo diabético, por exemplo, pode ter alterações no metabolismo e descompensações no quadro clínico quando enfrenta uma infecção. Por isso, em caso de surto, a orientação é que esse grupo procure orientação médica quando tiver sintomas”, ressalta Nancy.

Pouca gravidade entre crianças ainda intriga 

Idosos e doentes crônicos já são considerados grupos com maior risco de complicação em outras doenças respiratórias, como a gripe. As crianças, no entanto, que também costumam integrar esse grupo mais crítico, não estão sendo afetadas de forma significativa pelo coronavírus - e isso está intrigando os cientistas.

De acordo com uma análise feita pelo Centro de Controle de Doenças chinês (CCDC) no início de fevereiro, não foi registrada nenhuma morte pela doença em pacientes com menos de 9 anos. E a taxa de letalidade em crianças, adolescentes e adultos jovens ficou em apenas 0,2%. 

“Nenhum estudo mostrou ainda por que as crianças estão sendo poupadas. Pode ser por algum receptor celular do vírus que não é tão expressivo nelas. Ou então pode ser que, como elas se infectam com outros coronavírus mais fracos na infância, tenham imunidade cruzada para esse novo. Mas essa é uma hipótese que não aposto muito”, diz Nancy Bellei, professora de infectologia da Unifesp.

A análise do perfil dos mortos mostra ainda que a letalidade é muito maior na região de Wuhan (5,8%), epicentro da crise, em comparação com outras áreas da China (0,7%). A mortalidade também foi muito mais alto nas primeiras semanas do surto, em dezembro e janeiro, do que em fevereiro. A explicação, segundo especialistas, pode estar no fato de os serviços médicos terem aprendido melhores formas de suporte aos doentes e também à redução de casos na China nas últimas semanas, o que teria feito o sistema de saúde ficar menos sobrecarregado. 

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Cientistas chineses descobrem como coronavírus entra no organismo

Estudo mostra que o vírus se liga a uma proteína presente na membrana celular; descoberta foi publicada na 'Science'

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 16h16

RIO - Em velocidade sem precedentes na história da ciência, especialistas chineses já descobriram os mecanismos pelos quais o novo coronavírus entra no organismo humano. A descoberta, publicada em caráter extraordinário na Science, é crucial para o desenvolvimento de medicamentos, vacinas e novos testes de diagnóstico para o Covid-19.

Segundo o novo estudo, o vírus se liga a uma proteína presente na membrana celular. Ao determinar a proteína que serve de porta de entrada para a doença, os cientistas oferecem um importante alvo para a ação de novas drogas. O próximo passo é ampliar o estudo para definir a estrutura completa dessa proteína.

“Nossas descobertas não apenas lançam luz sobre a compreensão dos mecanismos da infecção viral, como também vão facilitar o desenvolvimento de técnicas de detecção viral e potenciais medicamentos antivirais”, afirmaram os autores, em nota oficial.

O estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto para Estudos Avançados de Hangzhou, da Universidade Westlake de Hangzhou e da Universidade de Pequim. Uma das características positivas da nova epidemia é a rapidez com que a comunidade científica vem oferecendo informações sobre o vírus recém-descoberto.

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Grupo que sequenciou genoma do coronavírus no Brasil vive fama repentina

O feito rápido dos cientistas brasileiros logo virou tema de debate político. Mensagens de orgulho e de parabéns se somaram às de defesa da pesquisa nacional

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 10h00

SÃO PAULO - “A dra. Ester está famosa. A nossa dra. Ester.” Exibindo um misto de orgulho e uma certa graça, o funcionário do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) guiava a reportagem pelas escadas do prédio enquanto tentávamos encontrar a pesquisadora Ester Sabino no início da tarde dessa terça-feira, 3. 

A médica, coordenadora brasileira do grupo de pesquisadores que sequenciaram o genoma dos dois casos de coronavírus no Brasil, está ela própria um tanto impressionada com a atenção que em recebido da mídia e de pessoas comuns desde a última sexta-feira. E não só ela. De maioria feminina, a equipe vive dias de fama – quase um assédio – inesperados nas ruas e nas redes sociais.

O feito rápido dos cientistas – de decifrar o genoma do coronavírus que aportou no Brasil apenas 48 horas após a identificação do primeiro caso da doença no País –, como noticiado pelo Estado no fim da tarde de sexta, logo virou tema de debate político. Mensagens de orgulho e de parabéns se somaram às de defesa da pesquisa brasileira. 

Muitos se valeram do avanço científico para contestar declarações do ministro da Educação, Abraham Weintraub, – que já disse que universidades brasileiras tinham “balbúrdia” e “plantações excessivas de maconha”. Mas até a direita fez propaganda com os resultados.

“Eu me assustei mesmo quando vi uma mensagem do MBL (Movimento Brasil Livre), com uma foto minha, um resumo das matérias, com parabéns e pedido de doação para eles. Muita gente que conheço recebeu isso. Me ligaram perguntando se eu era do MBL”, diverte-se Ester. 

“E achei graça que na foto que usaram eu era 5.6 e não 6.0, como agora”, brinca, citando a idade. “Depois passei um bom tempo lendo comentários das matérias para tentar entender o que estava acontecendo. Não entendi muito bem ainda, mas acho que foi uma história que mexeu com algum sentimento das pessoas, com o emocional”, opina. “É um sentimento de orgulho pela ciência brasileira, por serem mulheres por trás das pesquisas. Orgulho acho que foi a palavra que mais ouvi”, conta.

A bioquímica Jaqueline Goes de Jesus, de 30 anos, que faz pós-doutorado em Moléstias Infecciosas sob orientação de Ester, afirma que até perfis falsos em seu nome surgiram nas redes sociais depois da divulgação dos resultados. “Não acho que foi por maldade, mas me senti um pouco invadida. Meu instagram tinha mil seguidores – todos pessoas que eu conhecia –, e de repente passou para mais de cem mil. Descobri que teve uma campanha por eu ser mulher, negra, nordestina”, afirma a pesquisadora baiana, de 30 anos.

O susto veio um pouco pela quantidade de compartilhamentos, comentários, novos seguidores e pedidos de entrevistas, mas também pela repercussão da pesquisa em si. “As pessoas falaram bastante de ter sido feito em 48 horas, e na hora a gente pensou: 'mas isso é normal aqui dentro'. Depois vimos outros pesquisadores elogiando e pensamos: 'puxa, acho que é uma grande coisa mesmo'”, diz Jaqueline.

Ela se refere ao fato de que a tecnologia usada para sequenciar o genoma do novo coronavírus já vinha sendo usado, por exemplo, para rastrear com a mesma rapidez a atual epidemia de dengue com a mesma rapidez – seu tema da pesquisa atual. Os pesquisadores do grupo vinham trabalhando há alguns anos em formas de simplificar e baratear os equipamentos que fazem o sequenciamento.

Segundo Ester, isso foi possível por causa de cooperação em rede com pesquisadores do Reino Unido que já tinham trabalhado com a epidemia de ebola em 2014. Na ocasião, para fazer o sequenciamento com vírus nos países africanos com o surto, como Serra Leoa, os sequenciadores começaram a ser reduzidos, o que facilitou o transporte e reduziu o custo. 

“A tecnologia, na prática, é igual para qualquer vírus. Quando se trabalha em rede e colaborando, não precisamos sentar e desenhar tudo. Uma parte do trabalho já tinha sido feito e outra parte foi acontecer aqui”, explica a pesquisadora.

Com a epidemia de zika, em 2016, esta tecnologia veio para cá e foi barateada, a ponto de ser possível reduzir o custo do sequenciamento de vírus de algo que variava entre US$ 500 a US$ 1.000 para um valor entre US$ 20 e US$ 40 por amostra. O aparelho agora consegue analisar até 20 amostras ao mesmo tempo. 

“Com o modelo que havia antes não era possível fazer epidemiologia em tempo real”, diz. “Mas aqui no Brasil temos tido muita epidemia. Então, estamos ficando espertos”, afirma. “Veja a Itália. Quantas epidemias eles tiveram nos últimos tempos? Talvez pudessem ter feito com o sarampo. Mas temos sarampo, zika, chikungunya, dengue, febre amarela. É uma atrás da outra.”

Mulheres se sentiram representadas, diz cientista

Ester, que se formou em Medicina pela USP e fez residência em Pediatria, sempre quis trabalhar com pesquisa e iniciou sua carreira investigando HIV no Instituto Adolfo Lutz, quando o vírus começava a ser entendido, em meados dos anos 1990. Primeira mulher a dirigir o Instituto de Medicina Tropical da USP, já nesta década, voltou à pesquisa com vírus com o zika. E hoje lidera os trabalhos para mapear a dinâmica de epidemias em tempo real e ajudar os sistemas de saúde a responderem a essas ameaças.

Este é o objetivo do Cadde (Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus), projeto lançado há cerca de um ano. O foco até então eram vírus de doenças como dengue, febre amarela e chikungunya, num trabalho que se desdobrou da rede criada por cientistas em 2016 para trazer respostas para a epidemia de zika.

Parte do grupo que atuou no sequenciamento do novo coronavírus se conheceu nessa época. É o caso de Jaqueline, então doutoranda da Fiocruz na Bahia, e da também biomédica Ingra Morales Claro, de 28 anos, que era aluna de aprimoramento de Ester. As duas começaram a trabalhar com o monitoramento de epidemias com a zika e continuaram com as demais doenças. 

Foi Jaqueline, agora, que esteve à frente dos dois sequenciamentos feitos no Adolfo Lutz. Ela já vinha trabalhando com o instituto para desenvolver lá a aplicação da tecnologia mais barata e rápida de sequenciamento de vírus. Responsáveis pela vigilância epidemiológica, são eles que recebem as amostras dos pacientes infectados para poder testá-las. Desse trabalho, surgiu o interesse de fazer o sequenciamento conjunto do genoma do novo coronavírus.

Apesar de assustada com a repercussão inicial, Jaqueline agora quer aproveitar a onda. “Ganhamos visibilidade como cientistas e isso ajuda a inspirar outras mulheres. A maior parte dos comentários foi porque as mulheres estavam querendo incentivar outras mulheres na ciência. Elas se sentiram representadas, viram que têm em quem se inspirar”, afirma Jaqueline.

Ela planeja agora usar sua conta no instagram, que ganhou milhares de seguidores, para divulgar os trabalhos do grupo. “Vou fazer a divulgação científica das nossas descobertas lá. Mostrar coisas que acontecem na universidade e as pessoas nem sabem. E não serpontual, mas mostrar que a ciência é importante.”

Ingra faz coro. “Nessa época em que estamos no País, com tão pouco incentivo à ciência, é importante mostrar o que estamos conseguindo. E lembrar que é preciso incentivo. Só conseguimos trabalhar nisso porque temos dinheiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Ciência do Estado de São Paulo). Nós duas somos bolsistas”, diz. “Fazemos esse tipo de sequenciamento desde 2016, com a zika. Aprimoramos as técnicas. Demos essa resposta rápida agora porque estávamos preparados."

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