Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Brasil terá 625 mil novos casos de câncer em 2020, estima Inca

Aumento na expectativa de vida é uma das justificativas para o crescimento da incidência, que em 2019 tinha previsão de 600 mil

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - O câncer é uma das quatro principais causas de morte prematura, antes dos 70 anos de idade, na maioria dos países e, no Brasil, a estimativa é que hajam 625 mil novos casos da doença em 2020, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Os dados fazem parte do estudo Estimativas 2020: Incidência de Câncer no Brasil, divulgado nesta semana.

A projeção do órgão ligado ao Ministério da Saúde vale para o triênio 2020-2022 e teve aumento de 25 mil casos em relação ao previsto para 2019. O câncer de pele não melanoma continua sendo o mais incidente, com projeção de 177 mil casos para este ano. Em seguida, os tumores mais comuns na população são de mama e próstata (66 mil cada), cólon e reto (41 mil), pulmão (30 mil) e estômago (21 mil).

O Inca afirma que a incidência e a mortalidade por câncer vêm aumentando no mundo e os motivos incluem o envelhecimento e o crescimento populacional. Outro fator é a mudança na distribuição e prevalência dos fatores de risco da doença, especialmente os relacionados ao desenvolvimento socioeconômico.

Nesse ponto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, em dados divulgados também nesta semana, que os registros de câncer em países de baixa e média renda aumentarão 81% até 2040. Nesses lugares, as taxas de sobrevivência são atualmente mais baixas, diz a entidade. No mundo, a expectativa é de que se veja um crescimento de 60% nos casos da doença.

“Os cânceres, em geral, ocorrem em pacientes de certa idade. A expectativa de vida tanto de homens quanto de mulheres no mundo inteiro tem crescido e isso tem feito com que a população morra menos de problemas cardíacos, por exemplo, e tenha mais problemas de câncer, que é a doença da velhice”, avalia Óren Smaletz, oncologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein.

O médico destaca que os tumores de maior incidência apontados pelo Inca costumam afetar pessoas a partir dos 50 ou 60 anos. Mas há casos raros, como o da palestrante Roberta Perez, de 31 anos, que foi diagnosticada com câncer de mama aos 27.

“Eu tinha o costume de trabalhar muito e, sem perceber, não ia ao médico, só fazia autoexame [nas mamas]”, conta. Em maio de 2016, ela sentiu um nódulo e marcou consulta com um mastologista. Em julho daquele ano, ela recebeu o diagnóstico de carcinoma no estágio 3, considerado avançado.

Outro ponto que Smaletz observa quanto ao aumento no número de novos casos é o sistema de coleta de informações. “É difícil avaliar, mas, provavelmente, os métodos de notificações do Inca melhoraram nos últimos anos e, com a modernização e informatização das informações, chegam dados mais adequados, mais casos são notificados”, diz.

Aspecto comportamental

O Inca aponta que, no mundo, há um declínio nas taxas de incidência do câncer de pulmão em homens, ao contrário do que se observa nas mulheres. “Essa diferença é reflexo dos padrões de adesão e cessação do tabagismo”, justifica. No País, o órgão defende a Política Nacional de Controle do Tabaco como um dos fatores que contribuem para a redução das taxas de iniciação no tabagismo.

“Isso realmente tem impacto, mas o câncer de pulmão, infelizmente, ainda é o que mais mata no mundo inteiro, apesar da diminuição na incidência”, diz Smaletz. No caso da efetividade de outras campanhas como Outubro Rosa e Novembro Azul, o médico é mais cauteloso. “Não sei se faz com que as pessoas procurem mais o serviço médico. Para ter essa afirmação como positiva, precisaria ver se os casos novos estimados são de estágios mais precoces, mas o documento não fala o tipo de estágio.”

Câncer infanto-juvenil

Dentre os diversos tipos de câncer, aqueles que acometem pessoas entre 0 e 19 anos de idade, chamados de infanto-juvenis, ganham destaque por terem uma natureza diferente dos diagnosticados em adultos. Na maioria dos casos, há uma questão genética e embrionária. Nessa população, o Inca estima, para cada ano do triênio 2020-2022, 4.310 casos novos no sexo masculino e de 4.150 no sexo feminino.

“São tumores mais na linhagem de leucemia, sarcomas que têm aspecto genético muito forte. Você consegue identificar mutações de maneira mais fácil e, felizmente, as taxas de curabilidade são maiores do que em adultos”, diz o oncologista do Albert Einstein. O Inca informa que, hoje, em torno de 80% das crianças e adolescentes acometidos de algum tumor podem ser curados se forem diagnosticados precocemente e devidamente tratados.

Prevenção do câncer

A prevenção de qualquer tipo de câncer está, geralmente, associada a mudanças de hábitos. Óren Smaletz explica que, embora o aparecimento de um tumor ocorra devido a uma alteração genética, há fatores externos que contribuem para essas mutações, que podem ser prevenidas.

“Cigarro, obesidade, alguns tipos de vírus como o HPV, os da hepatite B e C, dieta rica em embutidos. São substâncias que podem vir a causar câncer”, afirma o médico, que reforça a necessidade de parar de fumar e ter vida saudável, com prática de atividades físicas e modificação da alimentação. Segundo ele, cessar o tabagismo diminui em até 25% os casos de câncer de pulmão.

O que não se consegue prevenir ainda são os cânceres hereditários, cujo gene ‘defeituoso’ passa de pais para filhos. Esse casos representam menos de 10% de todos os tumores registrados e devem ser acompanhados com rastreio precocemente.

Roberta conta que tinha o costume de beber socialmente aos fins de semana e mudou esse comportamento após o diagnóstico de câncer, pois descobriu que o álcool está, em alguma medida, relacionado à doença. “Não me sinto culpada, mas mudei hábitos para me sentir saudável. Comecei a praticar atividades físicas e me alimentar bem.”

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