EFE/EPA/JUSTIN LANE
Em Nova York, pessoas são vistas usando máscaras no metrô  EFE/EPA/JUSTIN LANE

Brasil vai incluir EUA na lista de alerta de países para casos suspeitos de coronavírus

De acordo com o Ministério da Saúde, aproximadamente 30 países estarão na nova listagem; País tem 488 casos suspeitos

Amanda Pupo e Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 17h51
Atualizado 06 de março de 2020 | 18h18

BRASÍLIA e SÃO PAULO - O Ministério da Saúde vai incluir até quarta-feira, 4, novos países na lista de alerta para casos suspeitos do novo coronavírus, incluindo os Estados Unidos, informou o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo dos Reis. Com isso, segundo ele, aproximadamente 30 países estarão na nova listagem.

Se enquadram em casos suspeitos as pessoas que regressam desses países e apresentam febre e mais um sintoma gripal, como tosse ou falta de ar. Também são incluídas as situações em que a pessoa sente febre ou sintoma respiratório e teve contato com caso confirmado ou suspeito de Covid-19.

Em função da ampliação no número de países de risco, o ministério destacou que, a partir de agora, a preocupação é menos direcionada às estatísticas e mais à prevenção e assistência, principalmente a pessoas com maior risco da doença, como idosos, imunodeprimidos e quem têm doenças crônicas, em especial as respiratórias.

Lista dos países monitorados pelo Brasil em razão do coronavírus

  1. Alemanha *
  2. Austrália *
  3. Canadá *
  4. China *
  5. Coreia do Norte *
  6. Coreia do Sul *
  7. Croácia *
  8. Dinamarca *
  9. Emirados Árabes Unidos *
  10. Espanha *
  11. Estados Unidos *
  12. Finlândia *
  13. França *
  14. Grécia *
  15. Holanda*
  16. Indonésia *
  17. Irã *
  18. Itália *
  19. Japão *
  20. Malásia *
  21. Noruega *
  22. Reino Unido *
  23. San Marino **
  24. Cingapura *
  25. Suíça *
  26. Tailândia *
  27. Vietnã *

OBS: Além deles, Filipinas e Camboja, que não têm transmissão local, mas estão na região afetada.

*Países com transmissão local, segundo a OMS

**San Marino está em análise pelo Ministério da Saúde

Com a inclusão dos Estados Unidos na lista de países de risco para o coronavírus, Gabbardo afirma que o Ministério da Saúde já prevê um aumento no número de casos suspeitos nos próximos dias. Quem vier de um dos países em alerta, mas apresentar sintomas leves ou esteja sem sintomas, porém com dúvida, a pasta orienta buscar atendimento médico por conta da possibilidade de ser coronavírus.

"[Mas] Gradativamente, temos de desmobilizar esse movimento", disse o secretário-executivo, "senão, vamos encher unidades de saúde. Não precisamos impor que as pessoas se dirijam a unidades de saúde com sintomas leves", disse Gabbardo. "Nos preocupa o número e volume de pessoas que vão buscar nossas unidades de saúde", afirmou, referindo-se a já esperada demanda por conta de gripes no inverno e das pessoas que, mesmo com sintomas leves, procuram atendimento por medo do coronavírus.

Casos suspeitos de coronavírus no Brasil

O número de casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus no Brasil aumentou de 433 para 488, divulgou o Ministério da Saúde em coletiva à imprensa nesta terça-feira, 3. O Estado com mais registro é São Paulo, com 130, seguido por Rio Grande do Sul (82), Rio de Janeiro (62) e Minas Gerais (58).

O País segue com dois casos confirmados, de um homem de 61 anos e outro de 32 anos, ambos em São Paulo. Das notificações suspeitas, 240 foram descartadas. Segundo o secretário de vigilância em saúde Wanderson Oliveira, o número atual de casos suspeitos demonstra que os profissionais de saúde estão atentos aos sinais da doença que, até o momento, não apresenta tranmissão local, ou seja, não há circulação do vírus dentro do território brasileiro.

Gabbardo explicou que, a partir de determinado momento, se os casos confirmados de coronavírus chegarem a cerca de 100 no Brasil, o critério de testes vai mudar. Em vez de fazer para todas as pessoas, os esforços serão concentrados nos casos graves, de pessoas com síndromes respiratórias agudas e pneumonia extensa, por exemplo, e naqueles de interesse epidemiológico a fim de monitorar a circulação do vírus e analisar mutações.

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Argentina e Chile confirmam primeiros casos de coronavírus

Infectados são homens que visitaram países com risco para a doença

Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 18h28

SÃO PAULO - O Chile e a Argentina registraram nesta terça-feira, 3, os primeiros casos de coronavírus nos países. As informações foram confirmadas pelo presidente chileno Sebastián Piñera e pelo ministro da saúde argentino Gines Gonzalez Garcia.

No caso da Argentina, o paciente é um homem de 43 anos que voltou de uma viagem à Itália no dia 1º de março. Ele havia passado também por outros lugares da Europa e está internado em uma clínica de Buenos Aires.

Já no Chile, a vítima do vírus é um homem de 33 anos que viajou por cerca de um mês pelo sudeste asiático, incluindo Cingapura, onde há registro de mais de 100 infecções por coronavírus até o momento.

O homem chegou ao Chile em 25 de fevereiro, mas apresentou sintomas apenas há poucos dias. Ele sentiu febre e dor de cabeça, mas está em boas condições de saúde e deve receber alta em breve para ficar sob vigilância epidemiológica em sua própria residência.

O ministro da Saúde chileno, Jaime Mñalich, disse que o governo está entrando em contato com todas as pessoas próximas ao paciente que possam ter sido contaminadas, informou a CNN Chile.

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Anvisa libera medicamento da China usado para imunizar pacientes

Expectativa de secretários de saúde era de que o produto acabasse em 30 dias; droga pode vir a ser usada contra o novo coronavírus

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 16h45

BRASÍLIA - A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou nesta terça-feira, 3, a importação de imunoglobulina comprada pelo Ministério da Saúde para ser distribuída à rede pública. Como o Estado revelou, o estoque do produto estava "baixíssimo", segundo fontes do governo. A expectativa de secretários estaduais era de que o medicamento terminasse em cerca de 30 dias.  

A droga é usada para imunizar pacientes de diversas doenças e, na leitura do Ministério da Saúde, poderá servir para casos mais graves do novo coronavírus.

Cerca de 45 mil frascos do produto estão guardados em aeroporto no Brasil à espera de aval da Anvisa para serem distribuídos. Trata-se de parte de um contrato de R$ 209 milhões, fechado pelo governo em dezembro de 2019 com empresa da China para entrega de 300 mil frascos. O resto do produto deve ser embarcado em breve.

O governo também fechou em dezembro contrato de R$ 70 milhões para entrega de 100 mil frascos de empresa da Coreia do Sul. A liberação desta carga ainda terá de passar pela Anvisa. Segundo pessoas da indústria e do governo, o consumo médio mensal no SUS de imunoglobulina é de 40 mil frascos.

Anvisa receosa

O aval para a importação foi dado em reunião sigilosa da diretoria colegiada da Anvisa. Representantes da empresa chinesa e do Ministério da Saúde foram impedidos de acompanhar.

O caso teve de ser levado à discussão dos diretores por ser excepcional: o produto não têm registro sanitário no Brasil, ou seja, não passou pelo crivo da Anvisa.

A compra do remédio sem registro feita pelo Ministério da Saúde levanta desconfiança da Anvisa e da indústria nacional.

Em uma primeira discussão, no fim do ano passado, a Anvisa exigiu que o ministério fizesse testes de qualidade sobre o produto para liberá-lo. As análises foram aprovadas pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS).

Semanas antes da votação na Anvisa, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, esteve na agência para pressionar os diretores do órgão. Ele argumentou que os estoques estavam "zerados" e que a chegada do novo coronavírus poderia aumentar a demanda pelo produto. 

Integrantes da Anvisa avaliam que o governo não poderia ter feito uma compra de produto sem registro. As regras para aquisição de medicamentos não avaliados pela agência são rígidas e tidas como barreira para evitar entrada no País de produtos falsos ou perigosos aos pacientes.

O presidente substituto da Anvisa, Antonio Barra Torres, reuniu-se com o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, horas após a decisão de liberar a imunoglobulina. Questionado por jornalistas, ele não revelou a decisão da Anvisa. Sugeriu que buscassem a resposta via Lei de Acesso à Informação. 

O Estado apurou que a Anvisa aprovou a importação, mas com ressalvas. Os diretores pedem que o Ministério da Saúde realize testes para garantir a segurança dos pacientes que receberem o medicamento.

Impasse

A disputa para importar a imunoglobulina se estende desde o fim de 2018, quando um contrato de R$ 280 milhões teve o preço questionado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O Ministério da Saúde argumenta que, após recomendação do tribunal, começou a busca no exterior pelo medicamento sem registro, porque não encontrou empresa no País que apresentasse os preços regulares.

A distribuição da droga para o governo está em disputa na Justiça e no TCU. Uma entrega de 55 mil frascos do produto, por exemplo, foi impedida neste mês pelo Judiciário, pois o medicamento estaria novamente acima do preço fixado pela Câmara de Regulação de Medicamentos (CMED/Anvisa), órgão que define estes preços.

Em meio ao imbróglio, o governo Jair Bolsonaro chegou a tentar a compra em uma empresa da Ucrânia, que não cumpria exigências mínimas da Anvisa. A agência negou a importação do ministério e, nos bastidores, deixou claro à época que o produto poderia ser ineficaz e perigoso aos pacientes.

De acordo com o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, a disputa fez com que os frascos chegassem aos Estados em volumes menores em 2019. A droga está sendo “racionada”. “É uma importação excepcional. Não vai ser regra daqui para frente. Mas é o que tem de possível para evitar que pessoas morram. O que se espera é sensibilidade da Anvisa”, afirma Beltrame.

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Surto de coronavírus pode encarecer remédios no Brasil

Associações que reúnem a indústria afirmam que grande parte dos insumos é importada da China; por enquanto, não há registro de problema de abastecimento

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 16h32

BRASÍLIA - Fabricantes de medicamentos no Brasil temem que o avanço do novo coronavírus (Covid-2019) possa ter impacto na produção de remédios no País, o que poderia implicar em uma alta nos preços. Segundo dados de associações da indústria, mais de 90% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) usados no Brasil é importado, sendo que parte relevante vem da China, epicentro da doença. Até o momento, porém, não foi registrado qualquer problema de abastecimento.

As entidades do setor dizem que trabalham para mapear a situação dos estoques e eventual necessidade de reajustes. Os dados serão levados para reunião nesta quarta-feira, 4, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na semana passada, a agência publicou um edital pedindo para a indústria informar sobre os seus estoques. 

O Estado apurou que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já manifestou preocupação sobre o tema com colegas do governo.

A presidente da ProGenéricos, Telma Salles, disse ao Estado que a situação “preocupa”, mas que não há relatos de associadas com problemas com fornecedores da China. “As nossas associadas, e quase todas as empresas do setor, estão obviamente fazendo mapeamento dos seus estoques e checando como o fornecimento pode ser afetado. É lógico que a preocupação é grande, mas não posso dizer pontualmente quais seriam os ativos (prejudicados)”, disse Telma. 

Para o presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), a alta do dólar tem pressionado mais a indústria do que o avanço do novo coronavírus. “O que preocupa é uma corrida às farmácias por notícias de suposto desabastecimento. Aí vai ter mesmo uma falta de medicamentos”, disse Mussolini. Ele afirmou ainda que a indústria brasileira faz planejamentos de longo prazo, com estoques largos, e que a logística para trazer ao Brasil insumos para fabricação de medicamento é simples. 

O avanço do novo coronavírus também deve pressionar preços de medicamentos no Brasil. Antes mesmo do surto mundial da doença, o governo já discutia a possibilidade de ajuste excepcional de preços, que poderia ser usado em casos sobre este, mas o debate está travado no Comitê Técnico-Executivo (CTE) da CMED/ANVISA, órgão que é presidido pelo Ministério da Saúde e que reúne também Economia, Casa Civil e Justiça.

O presidente da Associação de Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac) reforça que a situação preocupa, mas que não há relatos de interrupção de fornecimento da China. “Empresas estão se antecipando. Seria um problema para o mundo todo”, afirma. 

Segundo Tada, não há como apontar que tipo de medicamento seria mais afetado por possível redução de exportações da China, pois todos os segmentos têm insumos do país na cadeia produtiva. Ele afirma que uma medida positiva seria a Anvisa priorizar o aval para troca de fornecedores de insumos de empresas que forem prejudicadas pelo avanço do novo coronavírus.

Pressão sobre preços

A possível interrupção de fornecimento de produtos da China também pressiona preços de medicamentos no Brasil. Isso porque a produção pode ficar mais cara se as empresas brasileiras tiverem de buscar novos fabricantes de insumos. As associações afirmam que ainda não há necessidade de repassar preços ao consumidor. 

A legislação brasileira impede um ajuste de preços por eventos extraordinários, como alta do dólar ou avanço de uma doença que impacta na economia. Há exceção para medicamentos isentos de prescrição, que apresentam baixo risco para uso, como antiácidos, cicatrizantes e medicamentos para dor de cabeça. Estes produtos não têm preços máximos definidos pelo governo, mas ainda assim, há regras para evitar cartéis e outros tipos de abuso.  

“Seria interessante que a legislação fosse alterada (para permitir ajuste excepcional), disse Tada. “É difícil deixar em linha um projeto que dá prejuízo.” Segundo o presidente da Alanac, porém, ainda não há decisão da indústria sobre pedir ao governo mudanças em regras sobre preços de medicamentos.

Em nota, a Anvisa disse que "está avaliando medidas que assegurem a manutenção do abastecimento de toda a cadeia produtiva de medicamentos no país".

Também em comunicado, o Ministério da Saúde afirmou que tem contrato com empresas da China para importação de medicamento e que "não há, até o momento, nenhuma sinalização de risco de descumprimento".

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Casos de coronavírus no mundo passam dos 90 mil, diz OMS

O número de mortes chegou a 3.110; segundo a entidade, 12 novos países reportaram os primeiros casos

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 14h18

SÃO PAULO - A Organização Mundial da Saúde anunciou nesta terça-feira, 3, que já foram registrados 90.893 casos de coronavírus no mundo, com 3.110 mortes. A entidade afirmou que 12 novos países reportaram os primeiros casos e 21 têm apenas um caso confirmado.

"As ações que esses países recém-afetados adotam hoje serão a diferença entre um punhado de casos e um cluster maior", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Na China, os números continuam caindo, o que anima a organização. O país registrou nas últimas 24 horas 129 casos, o menor número desde 20 de janeiro. Fora da nação asiática, a OMS registrou 1.848 casos de Covid-19 em 48 países, sendo que 80% deles vêm da Coreia do Sul, Itália e Irã.

Segundo a entidade, a regressão da doença na China é estável. "O que temos visto na China é um declínio desde janeiro, não só nas províncias fora de Hubei, mas dentro também, em especial em Wuhan. Acreditamos que essa queda é real por causa da extensão do caso, rastreamento de contatos e testes que estão em andamneto na China", disse Maria Van Kerkhove, líder técnica do programa de emergências da entidade.

"Esse vírus não é Sars, não é Mers, não é influenza. É um novo vírus com características únicas", destacou Ghebreyesus, que diferenciou que o Covid-19 não tem uma transmissão tão eficiente quanto o vírus da gripe, embora ambos sejam doenças respiratórias e "se espalhem do mesmo jeito".

"Enquanto muitas pessoas já desenvolveram imunidade [contra influenza], Covid-19 é um novo vírus que ninguém tem imunidade e isso significa que muitas pessoas são suscetívies à infecção", acrescentou o diretor-geral da OMS. Globalmente, ele disse que cerca de 3,4% dos casos relatados de Covid-19 morreram enquanto a gripe sazonal geralmente mata muito menos que 1% das pessoas infectadas.

Ghebreyesus recomenda que os países onde há poucos casos de coronavírus se empenhem em conter a doença. "Cada país está em uma situação diferente. É preciso ter uma abordagem compreensiva [da doença]." Ele deu como exemplo alguns países das Américas, como Equador, com 7 casos registrados, Méximo com 5 e Brasil com 2.

Sobre os Jogos Olímpicos de Tóquio, o diretor-geral da OMS disse que o Japão está fazendo o que pode para conter o surto. "Tenho confiança de que o Japão terá progresso." Ao mesmo tempo, a entidade está conversando com o comitê olímpico e ambos concordam que o melhor agora é monitorar a situação.

Michael Ryan, diretor executivo do programa de emergências da organização, acrescentou que "cada país tem de tomar uma decisão baseado na situação que vive". "Em determinadas áreas, deve-se criar uma distância social, garantir ter o menor risco e contato das pessoas onde o vírus pode ter transmissão. Se não tem transmissão, não tem por que manter distância social". Ele reforçou que cada país deve entender sua epidemia para definir qual seria essa distância social a ser implementada.

Falando acerca das restrições de viagens, Ghebreyesus orientou que as medidas devem ser proporcionais ao risco público do coronavírus. Ryan disse que a entidade tem evidências científicas para orientar os países, mas não pode punir aqueles que ultrapassam as recomendações.

A OMS, mais uma vez, insistiu na possibilidade de contenção do vírus, principalmente devido aos casos que tiveram sucesso e da ciência, que tem conseguido sequenciar o genoma do vírus e rastrear a doença. Ghebreyesus reforçou que é preciso a união de forças para trabalhar no caso. "Isso não pode ser resolvido somente pela OMS ou por apenas um setor. Isso exige que todos nós trabalhemos juntos para garantir que todos os países possam proteger as pessoas que protegem o resto de nós."

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Superfícies? Espirros? Como o coronavírus pode e não pode se propagar

Especialistas acreditam que espirrar e tossir são as principais formas de transmissão, assim como compartilhar uma refeição com alguém

Heather Murphy, The New York Times

03 de março de 2020 | 13h36

Um vírus delicado, mas extremamente contagioso, cerca de 900 vezes menor do que um fio de cabelo humano, se propaga de pessoa para pessoa em todo o mundo. O coronavírus já infectou pessoas em pelo menos 60 países.

Como este vírus é novo, o entendimento dos especialistas sobre como ele se dissemina é limitado, mas oferece algumas orientações sobre como pode ser transmitido, ou não.

- Se você se deparou com uma pessoa doente, ficará doente também?

Você vai a um supermercado lotado. Um vendedor está com o coronavírus. Isto o coloca mais em risco de ser infectado por essa pessoa?

Os especialistas concordam que há muita coisa ainda para se saber, mas quatro fatores provavelmente são importantes: o quão próximo e por quanto tempo você se mantém próximo da pessoa; se ela projeta gotículas do nariz ou da boca em você; e o quanto você toca o seu rosto (naturalmente sua idade e saúde também são fatores importantes).

- O que são gotículas virais?

É a que contém partículas do vírus. Um vírus é um micróbio minúsculo codependente que se fixa numa célula, toma conta dela e se locomove para o próximo hospedeiro. É o seu “estilo de vida”, disse Gary Whittaker, professor de virologia na faculdade de medicina veterinária da Cornell University.

Um vírus “nu” não pode ir para qualquer parte, a não ser que pegue uma carona de uma gotícula de muco ou saliva, disse Kin-on-Kwok, professor da Jockey Club School of Public Health and Primary Care da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Essas gotículas de muco e saliva são ejetadas da boca ou do nariz quando tossimos, espirramos, rimos, cantamos, respiramos e falamos. Se não alcançam alguma coisa no caminho, elas normalmente pousam no chão ou terreno.

Para ter acesso às suas células, as gotículas virais precisam entrar pelos olhos, pelo nariz ou boca.  Alguns especialistas acreditam que espirrar e tossir são provavelmente as principais formas de transmissão. Para o professor Kwok, falar cara a cara com uma pessoa ou compartilhar uma refeição com alguém implicam também um risco.

Julian Tang, virologista e professor na Universidade de Leicester, na Grã-Bretanha e vem pesquisando o coronavírus, concorda com o professor Kwok.

“Se você cheira o que alguém está comendo no almoço – alho, curry, etc –  está inalando o que essa pessoa está expirando, incluindo qualquer vírus na sua respiração.

- O quão próximo é próximo demais?

Christian Lindmeier, porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que o melhor é se manter distante pelo menos 90 centímetros da pessoa infectada. Segundo os Centros de Prevenção e Controle de Doenças, uma distância de cerca de 1m80 implica um risco.

- Quanto tempo já é considerado excessivo para ficar perto de uma pessoa que está infectada?

Isto ainda não está claro, mas muitos especialistas concordam que mais tempo equivale a mais risco. 

- E você vai saber se uma pessoa está infectada?

Não necessariamente. Tenha em mente o fato de que, se ficar doente, muitos sintomas são tão leves como um resfriado ou uma gripe. Mas os que estão infectados com o coronavírus nunca caem doentes totalmente. (Tecnicamente, COVID-19 é o nome da doença causada pelo vírus respiratório).

Mas o lado negativo disto é que é difícil dizer quem pode propagar o coronavírus.

Num número crescente de casos, pessoas sem sintomas infectaram outras. A OMS anda acredita que muitos dos que disseminaram o coronavírus estavam claramente doentes no momento da transmissão, disse Lindmeier. 

- O vírus pode se fixar num ponto de ônibus, numa tela de toque ou outra superfície?

Sim. Depois que inúmeras pessoas que participaram de um serviço num templo budista, o Centro de Proteção de Saúde da cidade coletou amostras do local. As torneiras do banheiro e as capas dos livros de oração budistas testaram positivo para o coronavírus, segundo a OMS.

Tecnicamente, este vírus é o mais recente dos muitos similarmente formados. (O coronavírus tem esse nome pelas pontas que brotam da sua superfície e se assemelha a uma coroa solar). Um estudo de outros coronavírus concluiu que eles permanecem em metal, vidro ou plástico durante duas horas a nove dias.

Se uma superfície parece suja ou limpa, isto é irrelevante. Se uma pessoa infectada espirra e uma gotícula cai numa superfície, quem tocar essa superfície pode ser infectada. Não está claro o quanto é necessário para infectar uma pessoa.

Os coronavírus são relativamente fáceis de destruir, disse Whittaker. Usar um simples desinfetante em uma superfície é quase garantido quebrar o delicado envelope que envolve o minúsculo micróbio, tornando-o inócuo.

Desde que você lave as mãos antes de tocar seu rosto, está tudo bem, porque as gotículas virais não atravessam a pele.

Se está preocupado em adoecer porque uma pessoa pode ter espirrado num produto que encomendou e foi fabricado na China, não se inquiete. No momento em que o produto chegar aos Estados Unidos, você pode se sentir seguro. Mas se está realmente preocupado, limpe a superfície dele com um desinfetante ou lave suas mãos depois de tocá-lo.

- É importante a marca ou tipo de sabão a usar?

Não, afirmam vários especialistas. 

- Meu vizinho está tossindo. Devo ficar preocupado?

Não existem evidências de que partículas virais atravessem paredes ou vidro, disse o Dr. Ashish K. Jha, diretor do Harvard Global Health Institute.

Ele disse se preocupar mais com espaços comuns do que riscos representados por respiros, desde que haja uma boa circulação de ar no espaço. Um vizinho infectado pode espirrar num corrimão de escada e se você tocar nesse corrimão “esta seria a maneira mais natural de ser infectado pelo vírus do seu vizinho”, disse ele.

- Posso contrair o vírus fazendo sexo com alguém?

O beijo pode, sem dúvida, propagar o vírus, afirmam vários especialistas. Ainda é muito cedo para saber se o coronavírus é transmitido sexualmente, afirmou a OMS.

- É seguro comer onde há pessoas doentes por causa do coronavírus?

Se uma pessoa doente manuseia o alimento ou se é um bufê com muita gente, os riscos não podem ser descartados. Mas aquecer ou reaquecer a comida deve matar o vírus, disse Whittaker. O professor Jha concorda.

“Como regra geral, não temos observado que o alimento é um mecanismo de propagação”, disse ele.

- Meu cão ou meu gato podem ficar ao meu lado em segurança numa quarentena?

Milhares de pessoas já iniciaram vários tipos de quarentena. Algumas por ordem das autoridades de saúde e outras voluntariamente, o que significa primariamente permanecer em casa.

Whittaker, que estudou a propagação do coronavírus em animais e humanos, disse não ter visto nenhuma evidência de que uma pessoa pode se tornar um risco para o seu pet.

Tradução de Terezinha Martino

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