Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Brasil volta a ter alta no contágio de covid uma semana após desaceleração, indica estimativa

Cálculo feito pela universidade britânica Imperial College mostra que taxa de contágio (Rt) voltou a 1; instituição ressalta que resultados devem ser interpretados com cautela porque regras de notificação estão mudando no País

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 12h33
Atualizado 26 de agosto de 2020 | 20h55

Uma semana depois de apresentar, pela primeira vez desde abril, queda na taxa de transmissão do coronavírus, o Brasil voltou a ter aumento do índice de contágio, segundo estimativas divulgadas nesta quarta-feira, 26, por pesquisadores da universidade britânica Imperial College de Londres.

Usando um modelo matemático que considera o número de mortes confirmadas a cada semana e estima o nível de transmissão do vírus mesmo com a subnotificação, o cálculo mostra que a taxa de contágio (Rt) do vírus no País subiu de 0,98, na semana passada, para 1, na semana atual, com contagem iniciada no dia 23 de agosto. Especialistas em epidemiologia e matemática afirmam, porém, que uma variação pequena como a observada entre os dois relatórios não é capaz de, sozinha, indicar mudanças significativas no comportamento da pandemia no País (leia mais abaixo).

A taxa  de contágio indica para quantas pessoas um paciente infectado consegue transmitir o novo coronavírus. Quando o indicador está abaixo de 1, há indícios de desaceleração do surto e, acima disso, ele tem tendência de alta.

Em julho, o País apresentou taxas de 1,01, situação definida como "fora de controle". Em maio, esse índice chegou a 1,3. O relatório da semana passada, no qual a Rt ficou em 0,98, foi o primeiro que apontava desaceleração depois de 16 semanas consecutivas de taxa de transmissão acima de 1.

No relatório publicado nesta quarta, os pesquisadores ressalta que os resultados brasileiros devem ser "interpretados com cautela", pois a notificação de mortes e casos no País está mudando.

Uma das principais alterações feitas nas últimas semanas que podem ter levado a um aumento atípico das notificações foi a decisão do Ministério da Saúde de aceitar registros de casos diagnosticados por critérios clínicos e de imagem, ou seja, por meio do histórico de sintomas e exames que mostrem o comprometimento pulmonar do doente, como tomografia e ressonância. Com isso, deixou de ser necessária a confirmação laboratorial por meio de exame PCR ou sorológico.

Limitações

Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que os dados dos dois últimos relatórios do Imperial College não permitem concluir que a pandemia está em aceleração ou desaceleração, pois a diferença entre as taxas de contágio é pequena. Professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Renato Pedrosa explica que a variação de 0,98 para 1 está dentro do chamado intervalo de confiança. "É como uma pesquisa eleitoral que tem a margem de erro. O índice de uma semana para outra teria que estar fora dessa margem pra dizer se houve de fato uma mudança significativa", explica ele. 

No caso do relatório desta quarta, o intervalo de confiança está entre 0,93 e 1,12. Como o Rt da semana passada foi 0,98, as taxas das duas últimas semanas estão dentro da mesma margem. "São oscilações dentro de um ponto de equilíbrio, não tem força para indicar uma tendência. O cenário parece ser mais de estabilidade, mas uma estabilidade estacionada em um número elevado de casos e mortes", diz Eliseu Waldman, epidemiologista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

"Mesmo no cenário anterior, da semana passada, o índice de 0,98 ainda estava dentro de um intervalo de confiança de Rt em 1, então não necessariamente estava desacelerando", pondera Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública da Fiocruz e coordenador do Infogripe.

Para os especialistas, há ainda as limitações dos próprios dados. O número de notificações de casos e mortes por semana sofre influência de mudanças nos critérios de notificação, aumento ou redução da capacidade de testagem, entre outros fatores. 

Eles ressaltam que, no Brasil como um todo, o número de casos e mortes indica cenário de estabilidade ou queda lenta, mas que isso esconde as realidades específicas de cada região, Estado ou município. "De qualquer forma, temos números altos mesmo em Estados que registram queda, então temos que continuar com as medidas de distanciamento social, uso de máscaras e atividades remotas, se possível", diz Gomes.

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