Arquivo pessoal
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'Cancelem tudo, antes que vocês tenham que fazer isso por obrigação'

A gaúcha Gizely Dall'Agnol, que mora na Itália e está em quarentena, faz apelo para que brasileiros não vejam o isolamento como 'férias forçadas'

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 18h19

A brasileira Gizely Dall'Agnol mora na cidade Rotzo, na Itália, e está em quarentena obrigatória por causa do novo coronavírus. Ela viu de perto os italianos, e até ela mesma, cometerem um erro em meio a pandemia de covid-19: ignorar as orientações de isolamento. Agora que o país tem até multa e detenção para quem desrespeitar isso e com o agravamento das condições de saúde pública na região em que vive, ela resolveu fazer uma alerta para os brasileiros. 

Dall'Agnol sentiu que precisava fazer algo, quando na quarta-feira, 11, um carro de polícia passou na rua em que mora alertando a população para que não saísse de casa. A brasileira gravou um vídeo e compartilhou em seu Facebook. "Eu tive o choque de realidade com o carro da polícia com o megafone aqui em frente à minha casa e vi que os casos começaram aumentar no Brasil. Eu disse 'eu tenho que começar a usar as redes sociais para, mesmo que no meu mundinho, fazer com que alguns brasileiros comecem a se dar conta que não tem que fazer como os italianos de 'é só na Lombardia, é só em Pádua, não chega aqui'. E chegou em todos os lugares. Agora na nossa região, que há duas semanas atrás as pessoas diziam venham para cá porque é uma zona sã, é um dos focos da doença", contou ao Estado.

"Aquilo me chocou tanto que eu disse agora eu tenho que começar a fazer alguma coisa, porque ao menos a minha família, os meus amigos, as pessoas que eu conheço possam começar a entender que isso é uma coisa séria e é necessário que os brasileiros tomem medidas antes que seja tarde - que foi o que aconteceu aqui na Itália." 

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Gizely morou por dez anos em Marau, no Rio Grande do Sul. Durante esse período, foi coordenadora de comunicação da prefeitura da cidade. A relação de afeto que tem com o local a motivou a gravar um depoimento para a Tua Rádio Alvorada para alertar a população. 

"Não se preocupem conosco agora, porque nós já somos obrigados a seguir as medidas. A situação nossa já é crítica. Se preocupem com vocês que ainda podem tomar algumas precauções antes que seja tarde. Nós não nos cuidamos quando era a hora. Pensamos que eram férias forçadas do trabalho. Enfim, aproveitamos para viajar, ver os amigos. Parem tudo, cancelem tudo, antes que vocês tenham que fazer isso por obrigação."

Veja o relato completo:  

Como mais um exemplo de substimar a pandemia, ela cita o próprio marido Valentino Zecchinati. A família dele produz carnes, batatas e aos domingos abre um restaurante que costuma receber fregueses de toda a região. Logo após o carnaval, quando as escolas italianas fecharam, ela sugeriu que o estabelecimento não funcionasse no fim de semana. "Eu falei para o meu marido: 'não seria o momento de nem abrir? Não sabemos se os clientes têm o vírus e nós estamos nos expondo'. Ele me chamou de exagerada, até riu. E paralelamente os gestores de turismo da nossa região fizeram muita propaganda: 'venham para a nossa região, porque aqui é saudável. Aqui não tem coronavírus, venham para cá'. E, casualmente, naquele momento caiu a neve mais esperada de todo o inverno e as estações de esqui se encheram de gente."

Sobre a situação de sua família no Brasil, ela conta que a mãe e as duas irmãs moram no Rio Grande Sul, e estão bem. "Eu os alertei, mas eu sei que é muito difícil. Porque eu mesma na primeira semana: 'bom férias forçadas do trabalho, mas vou para a academia igual'. Todos nós temos esses hábitos. É muito difícil abrir mão sem ter, por exemplo, como aqui, um decreto que te obrigue a ficar em casa."  

Gizely nasceu em Veranópolis, no Rio Grande do Sul. Formada em relações públicas, ela vive na Itália desde 2016. Atualmente, ela trabalha na coordenação do Istituto Técnico Superior de Turismo da Região Vêneto, com sede em Asiago.

 

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