Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Brasileiro é eleito presidente da Associação Médica Mundial

Médico psiquiatra quer trabalhar a importância da relação médico-paciente e diz que as fake news estão crescendo "de maneira inaceitável"

Entrevista com

Miguel Roberto Jorge

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

23 Novembro 2018 | 12h29

SÃO PAULO - O médico psiquiatra Miguel Roberto Jorge diz que, desde os bancos escolares, sempre esteve envolvido em movimentos associativos. Professor associado do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 1986, ele já presidiu a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), foi diretor da Associação Mundial de Psiquiatria e diretor de Relações Internacionais da Associação Médica Brasileira (AMB), onde, atualmente, atua como 1º tesoureiro. No mês passado, foi eleito presidente da Associação Médica Mundial, entidade que produz orientações relacionadas ao trabalho dos médicos. A entidade, composta por associações médicas de 113 países, representa mais de 10 milhões de profissionais da área.

"Sou professor universitário e faço clínica médica como psiquiatra e psicoterapeuta. Estou sempre tentando construir, com meus pares, a melhora do atendimento aos pacientes, das condições de trabalho e visando ao benefício para quem precisa dos serviços públicos."

Quarto brasileiro a ocupar o cargo, segundo a ABM, Jorge conversou com o Estado sobre os desafios da Medicina no Brasil e no mundo, fake news, automedicação e vacinação. Leia os principais trechos da entrevista.

Quais são os principais desafios enfrentados pelos profissionais da Medicina na atualidade?

A gente nota duas coisas. A Associação Médica Mundial defende o que chamamos de cobertura universal da saúde, semelhante ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Serviço Nacional de Saúde (NHS, sigla em inglês), que começa na atenção básica, com cuidados primários. Mas o número de médicos não é suficiente e tem havido propostas de substituir o trabalho dos médicos por agentes comunitários de saúde. Sabemos que o trabalho tem de ser feito em equipe, mas não pode ser feito sem um médico. A segunda tem a ver com países mais desenvolvidos, que são as tecnologias mais avançadas em saúde. Elas estão substituindo o médico, como diagnóstico por imagem e big data. Os computadores estão acertando mais, mas temos de pensar até que ponto a telemedicina pode substituir o médico. O papel da relação médico-paciente é muito singular. As tecnologias são um instrumento para favorecer o papel do médico. Na verdade, a atenção ao paciente e às suas necessidades vai além de diagnosticar.

E no Brasil?

Temos dois grandes desafios também. É uma falácia dizer que o Brasil não tem médicos suficientes. Teve uma abertura indiscriminada de faculdades e temos situações de escolas médicas sem professores qualificados, sem hospital-escola. Houve a mercantilização da educação. Temos 320 escolas médicas para uma população de 200 milhões de habitantes. Há uma falsa ideia de que faltam médicos e há um problema de distribuição. Eles tendem a se concentrar nos grandes centros urbanos, que têm à disposição mecanismos para a formação desses profissionais e para que eles tenham atualização. O segundo é que a preocupação com a qualificação profissional. Algo que surgiu recentemente foi uma campanha de adoção de um exame de proficiência para o profissional, a exemplo do que ocorre na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). É necessário que um órgão neutro estabeleça um exame para aferir a formação desses profissionais, porque o grande prejudicado é a população. O médico mal formado pede mais exames, interna muito mais e se torna um ônus para o sistema.

As fake news também estão atingindo a área médica. Como o senhor avalia essa questão e o que é possível fazer para resolver esse problema?

É um desafio não só na área da Medicina, mas da sociedade como um todo. Do ponto de vista médico, é importante que as associações médicas, da mesma forma que têm responsabilidade com a formação, tenham contato com a população a respeito de doenças e das formas adequadas de lidar com essas patologias. As campanhas públicas não podem ficar restritas a ações governamentais. Isso não vai ser suficiente para acabar com o problema, que se espraia como uma verdadeira epidemia. O que vem acontecendo mostra que isso está crescendo de maneira inaceitável.

A automedicação e o autodiagnóstico também são questões que preocupam a área. O que pode ser feito em relação a isso?

É parecido com a situação das fake news. Na minha opinião, é um problema dos médicos, mas não apenas deles. Tem de tudo na internet. Antropólogos, psicólogos e sociólogos têm de ser chamados para entender as bases e propor soluções. Não é só um médico no consultório que tem o poder de demover o paciente. Só será se houve uma relação de longa data. A automedicação é um problema que existe, porque o acesso é facilitado, mas as pessoas precisam saber que esses medicamentos não são inóquos.

Isso também se aplica às pessoas que não tomam vacinas ou não vacinam os filhos?

Também vai na mesma linha e tem relação com a má informação. Cabe aos órgãos governamentais desenvolver campanhas públicas, inclusive na internet, que propaguem as informações sobre os benefícios e possíveis malefícios. Apesar de não existir um movimento antivacinal claro no Brasil, estamos vendo o recrudescimento de doenças como febre amarela e sarampo. Isso tem de envolver a pediatria, a infectologia, o governo e a mídia.

O Brasil é um País muito diverso e que reflete realidades que podem ser vistas em diversos países. Como a experiência que o senhor tem com esse perfil pode contribuir na sua atuação à frente da associação?

É surpreendente como países localizados em regiões distintas podem compartilhar semelhanças. Podemos ensinar e aprender. Com o nosso SUS (Sistema Único de Saúde), temos o que apresentar a países que não têm nada. Na atenção secundária, que envolve recursos hospitalares, as diferenças começam a aparecer, porque depende de tecnologias e recursos. O Brasil tem realidades contrastantes que fazem com que a gente retrate a realidade do mundo como um todo.

Qual contribuição pretende oferecer à frente da Associação Médica Mundial?

Quando a gente é eleito presidente da Associação Médica Mundial, fica um ano como eleito, um ano como presidente e um ano como ex-presidente. A gente escolhe um tema que colocará ênfase e eu escolhi a relação médico-paciente, desenvolvendo recomendações para retomar a importância dessa relação. O médico está preocupado com a doença e seu devido tratamento, mas não pode se esquecer do doente que está à frente dele. Tem de lidar com as angústias que podem estar ligadas àquela situação particular e com a relação do paciente com a doença. O papel do médico de ser cuidador de pessoas é fundamental.

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