FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Brasileiro relata medo de voltar ao comércio e a restaurantes na saída da quarentena

Apesar da flexibilização, pesquisa indica que 74% pretendiam evitar shoppings e outros 69% não estavam dispostos a frequentar restaurantes, parques, praças e praias

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 11h00

Faz três semanas que restaurantes, bares e salões de beleza voltaram a abrir as portas na cidade de São Paulo e os shoppings estão funcionando há um mês e meio, mas ainda com restrições de horário e de número de pessoas. Mesmo com o afrouxamento da quarentena na capital paulista, a empresária Leila Okumura, de 40 anos, mantém praticamente a mesma rotina que teve nos últimos quatro meses. "O meu único passeio tem sido ir ao supermercado uma vez por semana e continuo assim", conta.

Com a flexibilização do isolamento, a empresária ousou apenas duas vezes. Recentemente visitou a mãe que não via há quatro meses e passou a usar a academia do prédio onde mora, restrita a duas pessoas por vez. "Se fosse uma academia normal, não iria." Idas a restaurantes, cabeleireiros e shoppings ainda estão fora dos planos de Leila, enquanto o número de novos casos de covid-19 não recuar e não se encontrar a vacina contra a doença.

Esse também é o comportamento da estudante de medicina Beatriz Hog Jorge, de 20 anos. "No momento não estou saindo de casa para nada, mesmo", diz. A última vez foi em março, para ir à farmácia. Na sua avaliação, o fim da quarentena está sendo precipitado, porque o número de novos casos de covid-19 ainda cresce. Além disso, hoje o risco é maior de existir muitas pessoas assintomáticas em relação ao início da pandemia. Por isso, Beatriz não pretende ir a shopping, restaurante nem academia. Até em relação à retomada das aulas presenciais da faculdade, prevista para ao mês que vem, ela está insegura.

O comportamento cauteloso da empresária e da estudante de medicina em frequentar locais públicos neste momento é também o da maioria dos brasileiros. Pesquisa nacional realizada pelo Instituto Locomotiva no início deste mês, com cerca de 2 mil entrevistados, revela que 74% pretendiam evitar shoppings, com o fim do período de isolamento social. Também 69% não estavam dispostos a frequentar restaurantes, parques, praças e praias; 67% lojas de comércio de rua; 55% salões de beleza e barbearias; 54% transporte público e 45% academia de ginástica.

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e responsável pela pesquisa, o momento atual é de transição de um período de isolamento prolongado para um retorno ainda atípico. "O novo normal nem de perto está consolidado", afirma. Ele ressalta que, nesta fase, comportamentos distintos das pessoas de medo e de confiança vão se sobrepor, até que a pandemia seja superada.

A marchand Tânia Dacca, de 53 anos, por exemplo, retrata bem essa oscilação. "Estou retomando, mas com os devidos cuidados", conta. Nesses dias, ela foi a uma padaria perto da sua casa, onde as mesas estavam num local aberto e havia distanciamento. Tânia conta que ficou de máscara até chegar o pedido à mesa. "Agora ir para um lugar cheio, com aglomeração e sem distanciamento eu não tenho coragem", afirma a marchand, que diz pertencer ao "grupo do meio". Isto é, aquele que não reúne nem os totalmente reclusos nem os que retomaram a rotina que tinham antes da pandemia.

Quanto ao shopping, a marchand diz que vai, mas só se precisar comprar algo específico, mas usando máscara e com álcool em gel na bolsa. "Shopping para passear, como programa, não."

O novo comportamento de Leila bateu nos shoppings. O tempo que um frequentador gasta hoje dentro do empreendimento é de 25 minutos, em média, ante 75 minutos antes da pandemia, segundo presidente da Associação de Lojistas de Shoppings (Alshop), Nabil Sahyoun.

Reabertos desde 11 de junho na capital paulista, os shoppings estão com movimento 70% abaixo do período pré-pandemia. O resultado da pesquisa que mostra que 74% dos entrevistados pretendem evitar shoppings com o fim da quarentena não assusta Sahyoun. "Essa pesquisa foi feita num momento de instabilidade emocional extraordinária. Daqui um mês, o resultado será diferente e, em 60 dias, mais diferente ainda", pondera.

Nos restaurantes, a expectativa também é de recuperação. Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo (Abrasel-SP), diz que quando os restaurantes foram reabertos três semanas atrás o movimento estava 80% abaixo do período pré pandemia, agora está 75%. "As pessoas estão ainda muito cautelosas e acreditamos que, aos poucos, vai haver o retorno, porque o ambiente do restaurante é higienizado."

HIGIENE

Com a pandemia, a higiene passou a ser o foco de atenção dos brasileiros e o álcool em gel virou gênero de primeira necessidade. De acordo com a pesquisa, 52% dos entrevistados pretendem fazer uso do álcool em gel para sempre e 43% por algum tempo depois do fim da quarentena. 69% pretendem usar máscara e evitar aglomerações por algum tempo depois do fim da quarentena, 66% manter distância em filas e em espaços públicos e 68% evitar cumprimentos com beijos, abraços e aperto de mão. "As pessoas passaram a ter preocupações sanitárias que não tinham e isso veio para ficar", observa Meirelles.

O médico Alexandre Barbosa, membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu (SP), considera pequena a fatia de pessoas que pretende usar máscara e evitar aglomerações, apontada pela pesquisa. "Esse resultado é muito ruim e preocupante, teria de ser 100%", diz. Ele frisa que a transmissão por contato respiratório é a mais importante na covid-19.

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