Arquivo pessoal/Claudio Teixeira de Sousa
Arquivo pessoal/Claudio Teixeira de Sousa

Brasileiros falam sobre a quarentena contra coronavírus na Itália

Governo italiano decretou quarentena na região norte do país, isolando 16 milhões de pessoas. Estima-se que até 90 mil brasileiros vivam na região

Paloma Cotes e João Ker, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 15h00

SÃO PAULO - Esta segunda-feira, 9, foi o primeiro dia útil da quarentena decretada pelo governo do Itália na tentativa de conter a epidemia do novo coronavírus que toma o país. No final de semana, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, decretou quarentena na região norte do país, em todo o Estado da Lombardia e em mais 14 províncias, isolando 16 milhões de pessoas. Cidades como Milão e Veneza estão no cerco.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil estima que de 70 mil a 90 mil brasileiros estão nesta área. O bloqueio está previsto para durar até o dia 3 de abril. Além da quarentena, o governo italiano determinou o fechamento de escolas, ginásios, museus, cinemas e clubes noturnos, entre outros espaços públicos da região. 

O Estado ouviu relatos de brasileiros que vivem nessas regiões. 

Claudio Teixeira Souza, de 54 anos, chef de cozinha e fotógrafo

 

"Moro em Modena, uma das áreas afetadas pela quarentena decretada pelo governo italiano neste final de semana após o avanço rápido do surto de coronavírus na Itália. A verdade é que já estamos vivendo uma situação de anormalidade há semanas.

 

A escola da minha filha, de 15 anos, está fechada há um mês e ela vem tendo aulas por videoconferência desde então. Minha mulher, que é funcionária de uma empresa, já está em home office há dias.

 

Eu trabalho em um restaurante e vi o movimento cair drasticamente. Com o avanço do coronavírus, mesmo antes da quarentena oficial, de dia atendíamos no máximo duas, três pessoas. De noite, não passava de 15 clientes. Antes do coronavírus, com a casa cheia, eram 40. O dono do estabelecimento ainda não decidiu o que vai fazer diante da quarentena, se vai continuar aberto ou fechar. As pessoas estão evitando sair às ruas e o governo recomenda até que evitemos visitar os amigos. O que nos assustou no final de semana foi o salto rápido no número de casos. Aqui em Modena, tínhamos notícia de que eram em torno de 20. E, de repente, no dia seguinte, eram mais de 300.

 

Quando vou ao mercado, por exemplo, uso máscara e luva e já há a recomendação de que mantenhamos distância de pelo menos um metro das pessoas. Na rua, a sensação é de desconfiança entre as pessoas. Basta tossir para que alguém te olhe de forma apavorada. As lojas estão vazias e as ruas, desertas.

 

Ainda não faltam produtos, mas não sabemos como vai ficar daqui para frente. Por isso, só tenho saído para trabalhar e fazer coisas essenciais. Essa restrição de deslocamento causa uma sensação estranha, mas vamos obedecer. Ficar em casa é nossa forma de ajudar a doença a não se disseminar ainda mais."   

Gabriela Mileip, 30 anos, tradutora

"Aqui em Turim, as escolas, cursos e universidades estão fechados para os alunos, mas os docentes e funcionários estão se organizando pra continuar ministrando os cursos à distância. Os casos estão se multiplicando muito rápido e os hospitais estão superlotados.

Festas e eventos estão proibidos e o governo desaconselha reuniões pequenas. Cinemas estão abrindo, mas devem obedecer ao decreto que dita uma distância mínima de 1 metro entre os espectadores, o que diminui em 50% a capacidade das salas. A propósito da distância de segurança, ela foi aconselhada para qualquer situação, como ida a supermercados, transporte público, cafés, tudo. 

Já tem algumas semanas que o povo de Turim passou por um primeiro momento de pânico:  começaram a esvaziar os supermercados, não se encontrava álcool gel em lugar nenhum pra comprar. Infelizmente, o racismo e a xenofobia afloraram e houve casos de violência contra chineses e descendentes, notícias de pessoas foram agredidas no transporte público por outros cidadãos por terem simplesmente espirrado ou tossido. 

Agora a cidade está mais vazia, muita gente foi pra regiões de montanha ou regiões satélite de Turim. Infelizmente a parcela da população que mais resiste às medidas muitas vezes é justamente a mais frágil nessa situação, os idosos. Ainda os vemos frequentemente reunidos em grupos em lugares fechados como cafés e bares. 

Como mãe e trabalhadora, com minha filha em casa desde o carnaval, estamos evitando sair até mesmo para passeios enquanto estivermos próximos ao período de pico de contágio. Meu trabalho particularmente não foi afetado posso trabalhar em casa, mas a rotina agora inclui os estudos da minha filha Laura, que está na primeira série, também em domicílio; as professoras estão fornecendo conteúdo online para acompanhamento diário e estamos nos virando assim. 

Meu companheiro está se formando na universidade agora, e deve apresentar o trabalho de conclusão de curso em abril; a apresentação aqui geralmente é feita em sessão aberta ao público, mas agora estão cogitando fazer via Skype. 

Como medidas de higiene, não posso dizer que estamos fazendo muita coisa de diferente: além de lavarmos as mãos com sabão quando chegamos em casa ou quando vamos comer (por higiene, não somente por causa do coronavírus), estamos evitando sair para comer ou pedir delivery, e estou lavando, sempre que possível, embalagens de produtos que compramos no supermercado. Aqui em casa não estamos em pânico, creio que seja porque estamos bem informados e sabemos que as medidas do governo são necessárias para a contenção da propagação, principalmente para a proteção dos mais vulneráveis. Eu pessoalmente penso que a administração pública e os órgãos de saúde estão fazendo um bom trabalho, considerando que se trata de uma situação inesperada e que se desenrolou muito rápido. De resto, é esperar passar o período de pico e esperar que o calendário anual (estudos, trabalho) sofra o menos possível."

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