Denise Melo
Denise Melo

Brasileiros que vivem na China relatam temor com coronavírus

Eles contam que as ruas das cidades estão desertas e que já adotaram medidas preventivas em relação à doença; veja vídeo feito por um deles em Shijiazhuang, capital da Província de Hebei

Felipe Cordeiro, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 17h57

SÃO PAULO - Enormes avenidas vazias, com poucos carros e pedestres. Pontos turísticos fechados durante o feriado do ano-novo lunar. Nas raras saídas de casa, máscaras de proteção como item obrigatório. O cenário fantasma em nada lembra a rotina frenética da nação mais populosa do mundo. Brasileiros que vivem na China relatam temor de que o surto do coronavírus em Wuhan, na Província de Hubei, se espalhe por outras regiões do país. O Estado conversou com três brasileiros, que contam sobre as mudanças que adotaram no dia a dia para se prevenir do vírus. Segundo eles, ainda não há, porém, motivo para pânico.

"As ruas parecem um grande deserto. Isso é um pouco impressionante nesta época do ano", diz a radialista Denise Melo, de 35 anos. "Aqui, em Pequim, eles fecharam todos os pontos turísticos da cidade: a famosa Cidade Proibida, o Palácio de Verão, que normalmente é lotado de turistas, está tudo fechado."

Paulistana, Denise mora na capital chinesa há um ano e meio. Ela afirma que tem saído de casa apenas para ir ao trabalho na Xinhua, a agência de notícias do governo chinês.

Mesmo a mais de mil quilômetros do epicentro do surto de coronavírus, Denise não se sente totalmente segura, pois Pequim já registrou casos de infecção. Nesta segunda-feira, 27, as autoridades de saúde confirmaram a primeira morte na capital chinesa em função do vírus. O paciente havia voltado de Wuhan.

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Em Pequim, eles fecharam todos os pontos turísticos da cidade: a famosa Cidade Proibida, o Palácio de Verão, normalmente lotado de turistas, está tudo fechado
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Denise Melo, radialista paulistana que mora na capital chinesa há um ano e meio

Veja abaixo o relato de Denise Melo em Pequim:

A cerca de 300 quilômetros ao sudoeste de Pequim, o engenheiro geológico Júlio Cézar Kattah, de  24 anos, foi orientado a não deixar o alojamento da universidade onde estuda em Shijiazhuang, capital da Província de Hebei.

"A universidade não permite que a gente saia daqui a menos que tenha alguma circunstância especial. Os estudantes basicamente só podem sair caso eles vão voltar para a nação (deles)", afirma Kattah. "Tem muitos que estão pensando em ir embora, voltar para o país deles."

O mineiro de Belo Horizonte conseguiu dar uma escapada ao ajudar uma professora na compra de mantimentos para a universidade. Kattah se surpreendeu com uma cidade vazia e gravou vídeos para registrar a "situação muito estranha".

Veja abaixo o vídeo de Júlio Cézar Kattah em Shijiazhuang:

"Todo mundo está ficando dentro de casa mesmo. Ninguém está saindo. Você vê no WeChat (aplicativo de mensagens chinês semelhante ao WhatsApp) o pessoal compartilhando: 'Ah, alguém tem alguma série para me recomendar?'. Esse tipo de coisa", diz Kattah ao explicar que a solução agora é recorrer às redes sociais para conversar com os amigos e matar o tédio. "Já teve muitos amigos meus, colegas que ligam para mim, fazem videoconferência para preencher esse tempo."

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Ninguém sai. Amigos e colegas me ligam, usam aplicativo, fazem videoconferência para preencher o tempo, pedem indicações de séries
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Júlio Cézar Kattah, natural de Belo Horizonte e engenheiro geológico. Ele foi orientado a não deixar o alojamento da universidade

Já em Qindgdao - cidade litorânea na Província de Shandong, a mais de mil quilômetros de Wuhan -, a engenheira eletricista Joice Fiaux afirma que o cenário não é de pânico apesar da recomendação para a população ficar em casa e de algumas restrições em viagens intermunicipais rodoviárias.

"O transporte público aqui está com funcionando quase normal", diz a carioca, que cursa um mestrado na Universidade de Petróleo da China. "Não há pânico. As ações estão acontecendo de maneira coordenada, e a população tem colaborado."

Os três brasileiros lembram que, mesmo sem o surto do coronavírus, muitos serviços já estariam fechados por causa do ano-novo lunar. O governo chinês decidiu estender o feriado até o próximo domingo, 2, em uma tentativa de conter o avanço do vírus.

"A China sempre se prepara para um ano-novo muito colorido e, neste ano, não foi diferente. Tem lanternas, luzes, grandes estátuas e cartazes em comemoração ao ano do rato", lembra Joice. "A diferença é que as pessoas estão mais em casa. Acho que os chineses devem estar aproveitando para ter mais alguns dias de descanso com a família."

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A China sempre se prepara para um ano-novo muito colorido e, neste ano, não foi diferente. A diferença é que as pessoas estão mais em casa
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Joice Fiaux, engenheira eletricista carioca que cursa um mestrado na China

Máscaras e termômetros por toda a parte

Os brasileiros contam que a vigilância sanitária é rígida. Na entrada dos mercados e estações ferroviárias, há agentes de saúde que medem a temperatura das pessoas. Nas universidades, Kattah e Joice são examinados diariamente. E ninguém é visto na rua sem máscara.

Denise diz que tem um estoque de máscaras na casa dela, em Pequim. A empresa distribuiu o equipamento de proteção para os funcionários.

Kattah não teve a mesma sorte. O engenheiro geológico afirma que o item está em falta em Shijiazhuang e só conseguiu comprar pela internet. "Paguei bem caro", afirma. "A situação está um pouco complicada."

Ele denuncia que alguns golpistas estão retirando máscaras do lixo e desinfetando-as para "reciclar" e revendê-las. Outro produto difícil de encontrar nas prateleiras é o álcool em gel.

"Ninguém aqui tem. Na recepção tem. Quando a gente sai, eles (funcionários) borrifam na nossa mão", diz o jovem, que estuda Mandarim na Universidade Normal de Hebei para se preparar para um curso de mestrado.

Uma das instituições almejadas por Kattah na pós-graduação é a Universidade de Geociências da China, que tem câmpus em Pequim e Wuhan, a cidade epicentro do surto de coronavírus.

Veja abaixo o relato de Júlio Cézar Kattah em Shijiazhuang:

Prevenidos

Os três brasileiros acham adequadas as medidas adotadas pelas autoridades de saúde chinesas e afirmam estar preparados para enfrentar o coronavírus. "Eu não tenho medo. Observo bem as medidas de segurança do governo chinês e vejo que eles estão realizando um trabalho muito sério", diz Joice. "Manter a calma e esperar é o melhor a fazer nesses momentos."

Por estar na capital do país e dispor de mais infraestrutura, Denise se considera privilegiada. "Eu não sei te dizer como está sendo mais para interior da China, mas aqui as coisas chegam rápido e são resolvidas rapidamente", declara a radialista.

Denise pede que os brasileiros que têm parentes ou amigos na China não entrem em pânico, pois a situação não é desesperadora. "Acho que é (um recado) mais para minha mãe", brinca. "A China é um país que está crescendo. Isso vale para a saúde e para a qualidade de vida."

Segundo a paulistana, a estrutura de atendimento aos pacientes no país é moderna. Joice concorda com ela. "É surpreendente a organização da China em casos de emergência. As ações são tomadas de maneira rápida e implantadas do dia para a noite", declara. "Em um país com dimensão continental e tendo uma população numerosa, é surpreendente ver isso tudo acontecer."

Denise ressalta que os brasileiros e a comunidade internacional não devem discriminar os chineses por causa do surto de coronavírus. "É um país que está passando por uma dificuldade, e ninguém merece ser discriminado por nada. Eles têm que ser bem tratados e acolhidos como eles acolhem as pessoas quando vêm para cá."

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