Britânico que revelou os ricos do tabaco é lembrado em seu centenário

Epidemiologista britânico William Richard Shaboe Doll se transformou em um verdadeiro ícone

Efe,

29 Outubro 2012 | 12h15

 O epidemiologista britânico William Richard Shaboe Doll, cujo centenário de seu nascimento foi celebrado no domingo, 28, se transformou em um verdadeiro ícone ao abrir os olhos do mundo sobre os riscos que o tabaco traz à saúde, uma descoberta médica que pode ter salvo mais vidas do que qualquer outra no século XX.

Em 1954, Richard Doll publicou uma revolucionária pesquisa que confirmava pela primeira vez o vínculo entre o consumo de tabaco e o câncer de pulmão, embora muitos tenham feito pouco caso desta associação até então desconhecida.

No entanto, com o passar do tempo, Doll - fumante, comunista e amante da matemática - conseguiu mudar a mentalidade e as vidas de milhões de pessoas graças a sua dedicação no estudo e nas análises das consequências do tabagismo à saúde.

No processo de sua pesquisa, que se estendeu por anos, ele mesmo deixou de fumar e encorajou a sua mulher a fazer o mesmo, mas ela não foi a única que foi convencida por Doll. Em 1954, aproximadamente 80% dos adultos britânicos fumavam e, hoje, essa percentagem não passa dos 21%.

O descobrimento de Doll, que morreu aos 92 anos, no dia 24 de julho de 2005, veio à tona através da tentativa de responder uma única pergunta: Por que o câncer de pulmão estava se transformando em uma terrível epidemia.

Pouco tempo após o fim da Segunda Guerra Mundial, os cientistas observavam como um verdadeiro mistério o fato de tanta gente morrer de uma doença que até então era considerada rara.

"A mortalidade por câncer de pulmão aumentava a cada ano nas primeiras décadas do século passado. Durante a guerra, ninguém prestava atenção, mas, nos anos seguintes, esse fato era uma preocupação", relatou o próprio Doll aos 41 anos, divulgou essa decisiva conclusão.

Poucos estudos, incluído um financiado pelos nazistas na Alemanha no ano de 1943, tinham estabelecido uma relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão, mas Doll foi o primeiro a provar e defender essa relação.

Richard Doll e seus colegas entrevistaram quase 700 pacientes com câncer de pulmão, perguntando tudo o que se pode imaginar, segundo ele mesmo relatou, para tratar de identificar as possíveis causas da manifestação da doença.

As pesquisas de Doll, que chegou a ser nomeado cavaleiro do Império britânico pela rainha Elizabeth II em 1972, não pararam por aí e, com auxilio de estudos posteriores, chegaram à conclusão que o tabaco também estava vinculado à tromboses coronárias e outros 18 tipos de doenças sérias.

Além do câncer e das doenças cardíacas, Doll, em uma brilhante e extensa carreira como epidemiologista, também averiguou os problemas causados pelo álcool nos fetos e os efeitos colaterais das pílulas anticoncepcionais.

No entanto, segundo ele mesmo reconheceu, o estudo que mais lhe trouxe satisfação em ter realizado foi o que constatou que a exposição à radiação poderia causar leucemia nos seres humanos.

Casado e pai de dois filhos, Doll nunca deixou de trabalhar e nem de ser polêmico. Em 2001, quatro anos antes de sua morte, ele conseguiu enfurecer as organizações antitabaco quando minimizou a importância dos efeitos do tabaco nos fumantes passivos.

"As consequências das outras pessoas fumarem na minha presença são tão pequenas que não me preocupo em absoluto", reconheceu o epidemiologista britânico durante uma entrevista.

Já em 2004, aos 91 anos, Doll publicou seu último trabalho, o qual recapitulava o efeito que suas pesquisas tinham tido na diminuição do consumo de tabaco em nível mundial, já que o epidemiologista nunca se cansou de lembrar que: "fumar é prejudicial à saúde".

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