WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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'Busão da Vacina' leva proteção contra covid a áreas remotas e tenta vencer desinformação

Parceria entre empresas, Cruz Vermelha e poder público, coletivo carrega imunizantes além dos usados contra a covid-19; vencer hesitação é desafio

Marcio Dolzan e Aline Reskalla, Especial para O Estado

01 de setembro de 2021 | 10h00

TANGUÁ (RJ) E BELO HORIZONTE - O carro de som cruza as estradas de chão batido do interior de Tanguá, cidade pobre da região metropolitana do Rio, chamando a população para a vacinação contra a covid-19. Na localidade de Tomascar, a mais distante do centro e onde inexiste sinal de celular, o sistema prosaico leva a informação aos moradores. Na última quinta-feira, a voz no auto-falante pedia que todos fossem à igreja, onde o 'Busão da Vacina' ficaria até o fim da tarde.  

Cedido pela Câmara de Comércio Brasil-Alemanha, pelo Banco Internacional Alemão e pela Mercedes-Benz à Cruz Vermelha Brasileira (CVB), o ônibus que ficará em Tanguá até o fim da próxima semana é um dos dois da entidade em atividade no Brasil. Antes de chegar ao Estado do Rio, o veículo passou por 16 cidades mineiras. O outro circula pelas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Um dos desafios é vencer a hesitação vacinal. Enquanto a equipe do Estadão esteve no bairro rural e pobre de Posse dos Coutinhos, em Tanguá, só três pessoas apareceram. A cidade tem pouco mais de 30 mil habitantes.

"Eu tenho dois filhos: um só se vacinou porque trabalha na clínica, mas o outro trabalha em mercado e não quer", contou a agricultora Claudete Alves da Rosa, de 58 anos. "Os dois não queriam se vacinar. Eu e meu marido somos vacinados, e a gente briga todos os dias com eles. Mas eles acham que sabem mais do que a gente."

A agricultora disse que a resistência à vacina - dos filhos e, provavelmente, da maioria - tem mais a ver com questões políticas. "Meus filhos são bolsonaristas, né?", disse ela. "Eles são super bons de coração, trabalhadores, tudo. Mas estão hipnotizados. Já falei para eles que, se morrerem, o (presidente Jair) Bolsonaro nem sabe que eles existem." O presidente da República, que poderia ter se vacinado desde abril, ainda não procurou a imunização. Ao longo da pandemia, espalhou informações falsas sobre a covid-19 e questionou a eficácia das vacinas.

No local isolado, quem foi se vacinar de manhã nesta quinta estava atrás da segunda dose - ou seja, eram pessoas com mais de 45 anos. Foi o caso de Claudete. 

"A vacina é muito, muito importante", defendeu. "Quem não quer tomar não é por falta de informação, porque informação tem demais. Acho que é por ignorância." Tanto o prefeito de Tanguá, Rodrigo Medeiros (PL), quanto profissionais da Cruz Vermelha dizem que vacinar os jovens tem sido mais difícil.

"Muitos se negam a vacinar, porque alegam medo da reação à vacina, ou porque se consideram super-heróis, que não precisam se vacinar", lamenta Bárbara Souto, coordenadora estadual das filiais da Cruz Vermelha no Rio.

Veículo

O veículo em Tanguá conta com pias, sistema de ar-condicionado, geladeiras para armazenar as vacinas, bancada para conexão de computadores - que servem para inclusão de dados sobre vacinação em tempo real - e banheiro. Dois toldos na lateral levam sombra às cadeiras que são colocadas do lado de fora quando há fila de espera. Se tiver demanda, o ônibus tem capacidade para atender até 300 pessoas por dia.

O funcionamento e a circulação do Busão da Vacina dependem de uma ação colaborativa que envolve diversas frentes. Presidente nacional da Cruz Vermelha, Julio Cals trata de assegurar as parcerias com as empresas e os Estados. As unidades estaduais avaliam quais cidades serão mais ajudadas pela presença do ônibus. Assim, no Rio coube a Victor Marcelo da Silva Santos, presidente local da CVB, avaliar o envio do veículo à prefeitura de Tanguá. E o prefeito se comprometeu a oferecer a estrutura básica para o funcionamento, além de complementar com a oferta de outros serviços de saúde.

"Temos onze pontos fixos de vacinação na cidade, mas a Cruz Vermelha veio e se juntou a nós, o que facilita que cheguemos nestes lugares mais distantes", diz o prefeito.

Além do ônibus, a CVB oferece uma equipe de profissionais de saúde. Eles se juntam a outros do município, que dão orientações sobre prevenção de doenças, cadastram moradores e fazem exames rápidos, como testes de glicose. Cabe às prefeituras também ceder um motorista e combustível para o ônibus rodar pela cidade, além de fornecer energia elétrica para o funcionamento interno do veículo.

Vinte e cinco dias nas estradas mineiras e uma experiência inesquecível de vida. "Viver uma pandemia é assustador. Mas, quando podemos levar o socorro e a tão sonhada vacina a pessoas de regiões carentes, levar esperança, acho que foi a maior satisfação da minha vida profissional", disse, ao Estadão, a técnica de enfermagem Flávia Cristiane Alves, de 42 anos, que foi de voluntária a funcionária da Cruz Vermelha. 

Em 45 dias do coletivo pelo Estado - em 30 deles, Flávia esteve diretamente envolvida no projeto -, 13 mil pessoas foram vacinadas, inclusive a própria Flávia.

Ela conta que, no último dia, já em Esmeraldas, região metropolitana de Belo Horizonte, algumas doses sobraram, e, para que não fossem perdidas - já que havia o que eles chamam de "xepa", quando o frasco multidoses é aberto e precisa ser usado -, ela acabou tomando a segunda dose que lhe faltava. "Foi como um prêmio", diz.

Algo que chama a atenção, segundo Flávia, é a sintonia entre a equipe do ônibus, coordenada pela Cruz Vermelha, e os organizadores locais do mutirão, um exemplo de união entre poder público, empresas e sociedade. "Em todos os locais fomos muito bem recebidos, e a maioria das pessoas queria muito se vacinar, até se emocionavam", conta.

Para ela, também foi importante convencer aqueles que pretendiam fugir da agulha. "Teve um rapaz que veio ver o movimento e disse que não se vacinaria, de nada adiantaria aquilo e tal. Aí conversamos com ele, explicamos que não era assim. Ele foi embora e voltou, você acredita?", relata a técnica de enfermagem.

Em Montes Claros, no norte de Minas, o Busão ficou por três dias. Além da covid, a prefeitura queria ampliar a cobertura vacinal de outros três imunizantes: H1N1, HPV e a ACWY (contra meningites). Esta última, para pneumonia, tem na rede pública, mas muita gente não sabia. "Só em Montes Claros foram vacinadas cerca de mil pessoas", diz Flávia.  Além da boa lembrança, para ela foi um incentivo extra para investir  na carreira: vai fazer a graduação em Enfermagem.

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