Severino Silva/ Estadão
Severino Silva/ Estadão

Busca pela vacina contra covid pelos postos de saúde tem 'xepa' e até ronda no Rio

Mesmo sem pertencer à faixa etária indicada para o dia - 94 anos -, idosos queriam receber o imunizante

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 05h00

RIO - Faltavam poucos minutos para as 17h desta quarta-feira, 3, quando os agentes de viagem Régis Fernandes, de 70 anos, e Graça Oliveira, de 65, chegaram ao Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto, em Copacabana (zona sul do Rio). Ali funciona um posto de vacinação contra a covid-19. Mesmo sem integrar a faixa etária com vacinação marcada para o dia - 94 anos - eles queriam receber o imunizante, na chamada “xepa da vacina”, com “sobras” não usadas no horário regulamentar. 

Não conseguiram, mas se dispunham a ir a outro posto, na zona norte, em mais um passo da busca pela imunidade. Uma espécie de ronda da imunização, nova arma contra o novo coronavírus, que já matou mais de 226 mil pessoas no Brasil.

“Soubemos que, na hora em que o posto fecha, as doses restantes de vacina são distribuídas para o público que estiver presente e quiser tomar”, contou Graça. “Então viemos esperar a ‘xepa da vacina’”, completou. O termo comum designa o horário em que as feiras livres encerram o trabalho e passam a vender os produtos, perecíveis, a preços mais baixos.

Essa distribuição de doses realmente aconteceu, no início da vacinação, em alguns postos. O motivo é que cada frasco da vacina produzida pelo laboratório AstraZeneca com a Universidade de Oxford contém dez doses. Depois de aberto, todo o conteúdo deve ser usado em até seis horas - do contrário, se perde.

Sobrando

No posto de vacinação em Copacabana sobraram três doses no sábado, 30, e seis na segunda-feira, 1, segundo funcionários. Todas foram distribuídas entre o público presente para evitar que se perdessem. Mas, seguindo orientação da Secretaria Municipal de Saúde, à tarde passaram a ser aplicadas doses da vacina Coronavac, distribuída em frascos de uma dose. 

“Por isso, aqui não tem mais ‘xepa da vacina’”, lamentou Graça. “Mas só viemos a esse posto porque fecha mais cedo. Antes passamos por outro posto de vacinação, na Rua do Matoso, e lá disseram que fecha às 20h e todo dia tem sobra, porque só usam a vacina de Oxford”, afirmou a agente de viagens. “Vamos comer uma pizza e depois vamos lá nos vacinar”, programou.

Pelo cronograma oficial da prefeitura do Rio, os dois idosos só conseguiriam se vacinar em março. Até o fim de fevereiro, a meta é vacinar todos os idosos com 75 anos ou mais. Os dois agentes de viagem, porém, não foram os únicos a ir ao posto de vacinação em Copacabana atrás de doses da vacina.

“Vi na imprensa que estão distribuindo as doses que sobram, ao final do expediente, e vim aqui. Soube agora que em Copacabana não tem, mas vou à Gávea, vou a Laranjeiras, vou fazer uma peregrinação pelos postos de vacinação da cidade pra ver se consigo”, contou o biólogo aposentado Enocir Mello, de 76 anos. “Estou aposentado mesmo, não tenho compromisso, então vou seguir pesquisando os postos. Quero me vacinar e poder viajar logo pra Austrália, Nova Zelândia”, afirmou. 

Pelo cronograma da prefeitura, Mello poderá se vacinar a partir de 25 de fevereiro.

O engenheiro Nissim Duek, de 83 anos, é outro que tenta se vacinar antes do dia previsto no calendário. “Hoje a fila teve no máximo 20 pessoas, foi muito rápido. Quando chegar minha vez, a fila terá 500 pessoas, será uma aglomeração, um caos. Por que não vacinar antes?”, reclamou. “É a terceira vez que eu venho aqui, já conversei com a diretora (do Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto) e ela insiste que preciso esperar. Ora, vou arriscar minha saúde se vier aqui e tiver que ficar numa fila gigante”, protestou.

Os idosos com a idade de Duek poderão se vacinar a partir de 16 de fevereiro, segundo o cronograma da prefeitura. Durante a hora em que permaneceu acompanhando o movimento no posto de vacinação contra covid-19 de Copacabana, a reportagem do Estadão encontrou também uma mulher de 93 anos que foi levada pela filha para tomar vacina, mas recebeu orientação para voltar nesta quinta-feira, 3.

“Hoje não pode, é a partir de 94”, reclamou a acompanhante da idosa, que não quis falar com a reportagem. “Temos que voltar amanhã”, completou, antes de ir embora de carro.

Além dessas pessoas que tentaram tomar a vacina, dezenas de outras pararam no posto de vacinação para confirmar a partir de que dia poderão se vacinar. “Já me falaram várias datas, em fevereiro, em março. Agora, finalmente, deram uma data definitiva: posso me vacinar a partir do dia 23”, comemorou a professora aposentada Margarete Pereira, de 76 anos.

A reportagem consultou a Secretaria Municipal de Saúde para saber se todos os postos de vacinação dispõem da vacina Coronavac, para usar à tarde e evitar a sobra de doses, e se essa medida realmente conseguiu evitar a sobra das doses. Mas, até a publicação desta reportagem, a pasta municipal não havia se manifestado.

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