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Busca por testes genéticos cresce após Angelina Jolie anunciar mastectomia

Procura por exame de genes ligados a câncer de mama aumentou 64% nas duas semanas depois de artigo em que atriz revelou intervenção preventiva

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2016 | 07h00

O número de testes genéticos para a detecção de câncer de mama aumentou imediatamente nos Estados Unidos, em 2013, quando a atriz americana Angelina Jolie anunciou que havia se submetido a uma dupla mastectomia depois de descobrir, graças a esse tipo de exame, uma mutação que implicava em alta probabilidade de desenvolver câncer de mama no futuro.

O impacto da revelação da atriz na procura pelos testes genéticos foi constatado em um novo estudo, publicado nesta quarta-feira, 14, na revista científica BMJ. A pesquisa, porém, mostra também que não houve alteração no número de mastectomias após o anúncio de Jolie.

De acordo com os autores do artigo, da Universidade de Harvard (Estados Unidos), a principal conclusão é de que anúncios públicos de celebridades sobre problemas médicos podem afetar a demanda em serviços de saúde, mas também podem incentivar inadvertidamente a procura desnecessária por testes genéticos, sem atingir os grupos de risco que mais necessitam.

"Nossas conclusões apontam que o testemunho de celebridades tem uma poderosa influência em comportamentos relacionados à saúde, mas também mostram que esses testemunhos não atingem necessariamente aqueles que têm maior risco de desenvolver uma doença", disse a autora principal do estudo, Sunita Desai, da Escola de Medicina de Harvard.

Segundo Sunita, o depoimento de Jolie aumentou a visibilidade dos testes genéticos, mas também incentivou pessoas com baixo risco de desenvolver câncer de mama a realizar exames desnecessariamente.

Em maio de 2013, Angelina Jolie publicou no jornal americano New York Times um artigo intitulado "Minha escolha médica", no qual contava ter realizado a dupla mastectomia seguida por uma cirurgia de reconstrução da mama. 

No artigo, a atriz conclamou as mulheres a realizarem testes para detectar alterações nos genes BRCA1 e BRCA2. Quando esses genes são alterados, o risco de desenvolver câncer de mama ou de ovário é aumentado dramaticamente. A mãe de Jolie morreu com câncer de mama e de ovário, enquanto uma de suas avós e uma de suas tias morreram com câncer de mama.

De acordo com os autores do estudo, o artigo de Jolie foi um dos textos relacionados à saúde mais lidos na era das mídias sociais, mas não se sabia ao certo qual havia sido seu impacto nas taxas de realização de testes BRCA ou de mastectomias.

Para avaliar o impacto da revelação da atriz, os cientistas utilizaram dados de planos de saúde privados de mais de 9 milhões de mulheres com idades entre 18 e 64 anos. Depois de compilar os dados, a equipe liderada por Sunita analisou as taxas de testes BRCA e de mastectomias nos 15 dias anteriores e nos 15 dias posteriores à veiculação do artigo de Jolie.

As taxas diárias de testes BRCA aumentaram claramente e de forma imediata, logo após a publicação do artigo: passaram de 0,71 a 1,16 para cada 100 mil mulheres - um aumento de cerca de 64%. No mesmo período do ano anterior não ocorreu nenhum aumento nas taxas. 

O mesmo não ocorreu com as taxas de mastectomias, que se mantiveram em torno de sete cirurgias mensais para cada 100 mil mulheres ao longo de todo o ano de 2013. Além disso, entre as mulheres que fizeram o teste BRCA, houve um leve declínio de 3% nas taxas de mastectomias após a publicação do artigo. Segundo os cientistas, isso significa que os pacientes que se submeteram ao teste tinham um baixo risco de possuir a mutação.

De acordo com o artigo científico, a realização do teste BRCA tem custo de cerca de US$ 3 mil. Os pesquisadores estimam que nas duas semanas após a revelação de Jolie, foram feitos pelo menos 4,5 mil testes BRCA além dos que seriam realizados normalmente nesse período - o que representa custos de cerca de US$ 13,5 milhões.

"Da perspectiva de um médico, um anúncio de uma celebridade é algo excelente quando estamos preocupados com a pouca utilização de testes preventivos porque ele levará mais pacientes para o consultório. Mas quando se trata de testes com muita demanda, o testemunho de uma celebridade pode exacerbar esse problema", declarou outro dos autores da pesquisa, Anupam Jena, pesquisador da Escola de Medicina de Harvard e médico do Hospital Geral de Massachusetts.

Incertezas. Ao contrário de outros exames mais diretos, como as colonoscopias e os testes de HIV, os testes genéticos podem trazer grandes incertezas, porque revelam apenas a probabilidade que uma pessoa terá de desenvolver determinada doença, de acordo com Sunita.

"Embora os avanços dos testes genéticos tragam claros benefícios, um teste genético positivo também poderia criar ansiedade e levar pacientes e médicos a realizar mais testes ou até a submeter-se a intervenções clínicas prematuras ou desnecessárias", afirmou a pesquisadora.

Os cientistas elogiaram Jolie por ter publicado mais tarde, em 2015, um outro artigo no qual alertava o público de que as decisões de se submeter a testes e tratamentos devem ser feitas com base em cada caso. Ela explicou que a cirurgia funcionou para ela, mas outras opções não cirúrgicas podem ser mais adequadas para algumas mulheres. No segundo artigo, Jolie anunciou que havia feito também uma cirurgia para extrair os ovários.

"Não há uma resposta certa ou errada para a questão de se um paciente deve ou não realizar um teste genético. Mas é importante ter uma compreensão total da situação e tomar uma decisão fundamentada na informação", declarou Jena.

 

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