Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Butantã cede dados de vacina de dengue a multinacional

O imunizante em desenvolvimento pelo Butantã é considerado um dos mais promissores por ter apresentado eficácia de 85% a 90% em fases de pesquisa anteriores e por já estar em fase avançada de testes em humanos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2018 | 22h24

SÃO PAULO - O Instituto Butantã assinou ontem acordo de cooperação com a farmacêutica MSD para compartilhar as descobertas científicas que fez até agora na pesquisa de uma nova vacina contra a dengue. A empresa americana pagará até U$ 101 milhões ao Butantãpela transferência de tecnologia e de informações do estudo - U$ 26 milhões de imediato e o restante por metas.

O imunizante em desenvolvimento pelo Butantã é considerado um dos mais promissores por ter apresentado eficácia de 85% a 90% em fases de pesquisa anteriores e por já estar em fase avançada de testes em humanos. A MSD também estuda, em paralelo, uma vacina contra a dengue com as mesmas especificações, mas que ainda está em fase inicial.

Com a parceria, o instituto também ganhará royalties sobre a venda do produto pela MSD no mercado internacional, isso porque o Butantã terá os direitos de comercialização no Brasil e a MSD, no exterior. Para Dimas Tadeu Covas, diretor do instituto, além dos recursos extras que a entidade receberá da MSD, a parceria é positiva porque mostra para o mundo a qualidade da pesquisa brasileira. “O Brasil costuma ser um importador de tecnologia e, com essa parceria, vamos estar exportando tecnologia e conhecimento”, disse ele.

Diretor de acesso e relações governamentais da MSD, Guilherme Leser diz que a farmacêutica poderá colaborar ainda com a aprovação do produto em outros países, por sua experiência internacional. O Butantã espera que a vacina chegue ao mercado em 2020, três anos depois do prometido em 2015.

Já para o mercado internacional, o produto deverá estar disponível mais tarde: na melhor das hipóteses, em 2022, segundo estimativa do diretor da MSD. Isso porque mesmo com acesso aos resultados da pesquisa do Butantã, a farmacêutica teria que incluir voluntários de outros países no estudo clínico para atender regras das agências regulatórias de nações como Estados Unidos. Além disso, algumas características do produto, como volume da dose e condições de refrigeração, teriam que ser adaptadas para o mercado internacional.

Para chegar à etapa atual da pesquisa, o Butantan recebeu investimentos de R$ 224 milhões, somando os aportes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Fundação Butantã e do Ministério da Saúde.

Primeira vacina. Se chegar ao mercado em 2020, a vacina do Butantã será a primeira concorrente do imunizante da Sanofi Pasteur, primeiro produto do tipo a ser lançado no mundo. Registrado no Brasil em 2015, o imunizante já chegou ao mercado com desconfiança por ter demonstrado somente 40% de proteção nos testes clínicos.

No ano passado, outro revés: a farmacêutica descobriu, em estudos pós-comercialização, que a vacina aumenta o risco de complicações pela dengue em pessoas que nunca foram infectadas pelo vírus. O imunizante, então, passou a ser indicado apenas para pacientes que já tiveram algum tipo de dengue e querem se proteger contra os outros sorotipos – são quatro no total.

Para que termine a última fase da pesquisa clínica e peça o registro do produto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Butantã precisa atrair mais 2 mil voluntários para o teste. No total, o estudo terá 17 mil participantes, separados em grupos de adultos, adolescentes e crianças. Cerca de 15 mil voluntários já foram incluídos e os grupos de adultos e adolescentes já estão completos. Agora, faltam voluntários crianças. Com base nos resultados das fases anteriores da pesquisa do Butantã, a previsão é que ela seja indicada para pessoas de 2 a 59 anos.

 

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