Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Butantan produzirá derivados do sangue

Instituto firma nesta terça acordo para ter acesso ao plasma dos doadores e fabricar remédios contra hemofilia

Mariana Lenharo, Jornal da Tarde,

20 de dezembro de 2011 | 10h17

Após mais de 10 anos de promessas e um escândalo envolvendo compras fraudulentas de medicamentos para o Governo, em 2004, o setor de hemoderivados dá um importante passo nesta terça, 20, quando o Instituto Butantan estabelece um acordo com a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), vinculada ao Ministério da Saúde, para que o País passe a produzir e não mais importar esse tipo de remédio, usado contra doenças como hemofilia e aids.

O termo de cooperação é essencial para o projeto da fábrica de hemoderivados do Instituto, pois garante o acesso ao plasma dos doadores da rede pública, matéria-prima para a fabricação dos derivados do sangue - um material que, por lei, pertence ao Ministério da Saúde.

O objetivo do acordo é que o Brasil passe a fabricar esses produtos até 2014. Além da unidade no Butantan, cujo prédio já foi construído, a Hemobrás projeta a instalação de uma planta industrial em Pernambuco. Ontem, foi inaugurado o primeiro bloco da Hemobrás naquele Estado. Mas o procedimento adotado pelo Butantan é diferenciado. “Usaremos a cromatografia, que permite separar muitos outros componentes do plasma, obtendo novos produtos de utilização médica que não podiam ser extraídos do plasma pela precipitação. Vamos trabalhar em produtos novos, alguns anticorpos humanos que vão poder tratar doenças como a dengue”, explica o diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil

Kalil enfatiza a importância da autossuficiência nessa área, que vem sendo discutida pelo menos desde os anos 1990. Ainda hoje os hemoderivados não são produzidos no País e o gasto com a compra desse tipo de produto foi, apenas em 2011, de R$ 412 milhões.

“Já há muito tempo se fala em produzir hemoderivados, mas nunca se deu o passo definitivo. Temos que juntar forças porque grupos isolados nunca conseguiram”, diz Kalil. “Não se pode depender das importações de hemoderivados. Em momentos de crise internacional, os países guardam esses produtos. Além disso, o custo é elevado.”

Na mira, remédios contra a dengue

Entrevista: Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan

A fábrica de hemoderivados já está pronta?

O prédio já foi construído mas, quando assumi a direção do Instituto Butantan, condicionei o avanço do projeto à certeza de termos acesso ao plasma de doadores. O plasma é, pela legislação, propriedade do governo federal. E o governo tem outro projeto: o da Hemobrás, que prevê uma fábrica em Pernambuco. O que não estava claro antes era a quantidade e a qualidade do plasma a que o Butantan teria acesso. O acordo entre Butantan e Hemobrás, mediado pelo Ministério da Saúde, vai estabelecer como se dará a cooperação no processo de fabricação e no treinamento de pessoal. O acordo dará acesso ao plasma fresco para que possamos trabalhar quando terminar a fábrica.

O que será produzido?

Produziremos os fatores de coagulação VIII e IX, usados pelos hemofílicos. Outro produto será a albumina, para pacientes com déficit proteico. Além disso, produziremos as imunoglobulinas, anticorpos para pacientes com imunodeficiências primárias. É importante que sejam feitas a partir de doadores do Brasil, que têm anticorpos para defender os indivíduos de doenças comuns no País.

Qual a diferença do trabalho da Hemobrás e do Butantan?

O processo que estamos propondo é diferente. A Hemobrás vai utilizar o método clássico, em que as purificações são feitas por precipitação das proteínas. O Butantan prevê um método novo: o cromatográfico. Nesta fase de término da fábrica e início da produção, vamos trabalhar muito perto da Hemobrás e da Anvisa, que vai participar do registro desses produtos.

Qual é a vantagem do método novo?

A cromatografia permite separar muitos outros componentes do plasma, obtendo novos produtos de utilização médica que não podiam ser extraídos do plasma pela precipitação. Vamos trabalhar em produtos novos, alguns anticorpos humanos que vão poder tratar doenças como a dengue. 

 

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