Helvio Romero/Estadão
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Café faz bem? Especialistas dizem que, com moderação, sim

Pesquisas mostram que o consumo moderado de café pode ser considerado um item de uma dieta saudável; entenda quais são os benefícios

Dawn MacKeen, The New York Times

17 de fevereiro de 2020 | 14h45

Foi um longo caminho desde as latas de Folgers que enchiam os armários de nossas avós até nossos lattes, cold brews e frappuccinos. Alguns de nós ainda têm uma relação bem utilitária com a bebida, outros preferem realizar elaborados rituais. Quarta bebida mais popular dos Estados Unidos, o café inunda nossa cultura. A quantidade certa pode melhorar nosso humor; o exagero pode nos deixar nervosos e ansiosos.

Será que café faz bem?

Sim. Bebido com moderação, o café parece fazer bem à maioria das pessoas - isso é, de 3 a 5 xícaras, ou até 400 miligramas de cafeína. “As evidências são bastante consistentes: o café está associado a um menor risco de mortalidade”, diz Erikka Loftfield, pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer, que vem estudando a bebida.

Por muitos anos, acreditou-se que o café era um possível agente cancerígeno, mas as Diretrizes Dietéticas de 2015 ajudaram a mudar essa percepção. Pela primeira vez, o consumo moderado de café foi considerado como item de uma dieta saudável. Quando os pesquisadores avaliaram fatores relacionados ao estilo de vida - como, por exemplo, quantos dos bebedores inveterados de café também fumavam -, os dados pesaram a favor do café.

Um grande estudo de 2017 sobre o consumo de café e a saúde humana, publicado no British Medical Journal, também descobriu que, na maioria das vezes, o café trazia benefícios, e não danos. Ao examinar mais de 200 estudos anteriores, os autores observaram que, se comparados às pessoas que dispensavam a bebida, os bebedores moderados de café tinham menos doenças cardiovasculares e morte prematura por todas as causas, incluindo derrames e ataques cardíacos.

Além disso, especialistas dizem que alguns dos melhores efeitos protetores se dão com o diabetes tipo 2, o mal de Parkinson e as doenças do fígado, como cirrose, câncer de fígado e doença hepática crônica. Por exemplo, tomar cerca de cinco xícaras de café por dia, em vez de nenhuma, está correlacionado com uma redução de 30% no risco de diabetes tipo 2, de acordo com uma análise de 30 estudos.

O potencial benefício do café pode vir dos polifenóis, compostos vegetais que possuem propriedades antioxidantes, de acordo com o Giuseppe Grosso, professor assistente de nutrição humana da Universidade de Catania, na Itália, e principal autor de um estudo abrangente do Annual Review of Nutrition.

Consumo excessivo

No entanto, café não é para todo mundo. Há que se preocupar com o consumo excessivo. Isso vale especialmente para as mulheres grávidas, porque não está claro qual é o nível de consumo de cafeína seguro durante a gestação. Embora a pesquisa sobre o impacto do café na saúde esteja em andamento, a maior parte do trabalho nesse campo ainda é apenas observacional.

“Não sabemos ao certo se o café é a causa dos benefícios para a saúde”, disse Jonathan Fallowfield, professor da Universidade de Edimburgo e coautor do estudo do British Medical Journal. “Esses resultados podem estar relacionados a outros fatores de comportamento dos bebedores de café”.

Faz diferença a maneira como o café é preparado?

Sim. Você prefere muito ou pouco torrado? Moagem fina ou grossa? Arábica ou robusta? “Todos esses diferentes aspectos afetam não só o sabor, mas também os compostos dos cafés”, afirma Neal Freedman, pesquisador sênior do Instituto Nacional do Câncer. “Mas não está clara a maneira como esses diferentes níveis de compostos se relacionam com a saúde”.

A torrefação, por exemplo, reduz a quantidade de ácidos clorogênicos, mas forma outros compostos antioxidantes. O café expresso tem a maior concentração de muitos compostos porque leva menos água que o café coado por gotejamento.

Um estudo da JAMA Internal Medicine examinou os hábitos relacionados ao café de quase 500 mil pessoas no Reino Unido e descobriu que não fazia diferença se elas bebiam uma ou oito xícaras (normal ou descafeinado) ou se metabolizavam a bebida rápido ou devagar. Essas pessoas apresentaram menor risco de morte por todas as causas - a exceção seria o café instantâneo, cujas evidências foram mais fracas.

A maneira como você prepara sua xícara de café também pode afetar seus níveis de colesterol. “O café que sabemos que não é adequado para consumo é o fervido”, disse Marilyn Cornelis, professora assistente de medicina preventiva na Faculdade de Medicina da Universidade Northwestern Feinberg e coautora do estudo da JAMA Internal Medicine.

Entre os exemplos desse tipo de café estão a prensa francesa, o café escandinavo e o café grego ou turco - tipo comumente consumido no Oriente Médio. (quando vertidos na xícara, os sedimentos não filtrados se acumulam no fundo, formando uma espécie de "lodo". Os idosos da região têm a tradição de ler as borras do sedimento para prever o futuro, como em uma bola de cristal).

O líquido do café fervido tem cafestol e kahweol, compostos chamados diterpenos. Eles aumentam o LDL, o colesterol ruim, e diminuem um pouco o HDL, conhecido como colesterol bom.

“Se você filtrar o café, não terá problema nenhum”, diz Rob van Dam, professor da Escola de Saúde Pública Saw Swee Hock, na Universidade Nacional de Cingapura. “No caso das pessoas com problemas de colesterol, é melhor escolher outros tipos de café”. Ele vem estudando café há duas décadas (e, sim, tomou muito café nesse período).

No entanto, outros pesquisadores dizem que ainda não está na hora de jogar fora o café fervido. O significado clínico desses pequenos aumentos no colesterol pode ser questionável, uma vez que não está associado a um aumento nas mortes por problemas cardiovasculares.

Muitos consumidores também trocaram o pó solto por cápsulas de café. Embora existam problemas ambientais por causa das cápsulas descartáveis, os pesquisadores acreditam que elas têm os mesmos benefícios que, por exemplo, o café coado. Isso também se aplicaria à extração a frio, mas é preciso fazer mais pesquisas.

Todos os tipos de café têm a mesma quantidade de cafeína?

Não. O café expresso tem a maior concentração de cafeína, carregando cerca de 70 miligramas em uma dose de 30 gramas, mas é consumido em menor quantidade. Em comparação, uma típica porção de 350 gramas de café por gotejamento tem 200 miligramas de cafeína, mais do que o instantâneo, 140. E, sim, o descafeinado também tem cafeína: 8 miligramas.

Ao comprar café, você nunca sabe o que realmente vai beber. Em uma cafeteria da Flórida, durante um período de seis dias, a mesma mistura de café variou de 259 até 564 miligramas - o que vai além das recomendações federais.

Café é viciante?

As evidências sugerem que pode haver dependência da bebida e que a tolerância aumenta com o tempo. Os sintomas de abstinência incluem dor de cabeça, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração e humor deprimido.

De fato, a cafeína é uma droga psicoativa, e o café constitui sua maior fonte alimentar. Cerca de meia hora depois de você beber uma xícara de café, a cafeína entra em ação e é rapidamente absorvida. Os vasos sanguíneos se contraem. A pressão sanguínea aumenta. Uma quantidade moderada de cafeína pode fazer você acordar, melhorar seu humor, sua energia, sua concentração e até seu desempenho atlético. Em média, o corpo leva de quatro a seis horas para metabolizar metade da cafeína.

Não há evidências suficientes para avaliar os riscos daqueles que ingerem mais de 400 miligramas de cafeína por dia, de acordo com as Diretrizes Dietéticas. Doses mais altas podem levar à intoxicação por cafeína, com tremores, nervosismo e batimentos cardíacos irregulares. A cafeína também está associada a um aumento no tempo que leva para você adormecer e também à quantidade e à qualidade do sono.

As pesquisas atualmente disponíveis não determinaram qual quantidade de cafeína pode ser consumida com segurança durante a gravidez, de acordo com o Conselho Americano de Obstetras e Ginecologistas. Como a cafeína atravessa a placenta, alguns médicos podem recomendar que as mulheres grávidas mantenham seu consumo abaixo de 200 miligramas de café por dia.

Doses extremamente altas de cafeína podem ser fatais. Mas os pesquisadores dizem que é mais provável que isso ocorra acidentalmente, com pó ou comprimidos de cafeína. “Você não vê muita gente chegando no Pronto-Socorro porque bebeu muito café por acidente”, diz van Dam.

O que é um grão de café?

Dentro da fruta vermelha do cafeeiro há dois grãos de café. Sua cor é esverdeada, a rica tonalidade marrom aparece só depois da torrefação. E, na verdade, eles não têm nada a ver com feijões. “É parecido com uma cereja que você pega na árvore”, disse Patrick Brown, professor de ciências das plantas da Universidade da Califórnia. Mas, ao contrário da cereja, o grande prêmio é a semente, e a polpa é descartada.

Além da cafeína, o café tem uma mistura de mil compostos químicos que podem trazer efeitos terapêuticos para o corpo. Um componente-chave, o ácido clorogênico, é um polifenol encontrado em muitas frutas e legumes. O café também é uma boa fonte alimentar de vitamina B3, magnésio e potássio.

“As pessoas costumam ver o café apenas como um veículo para a cafeína, mas a verdade é que se trata de uma bebida vegetal muito complexa”, disse van Dam.

Com 124 espécies de café estimadas, a maioria dos sabores continua inexplorada e talvez fique assim para sempre, pois cerca de 60% se encontram sob ameaça de extinção, principalmente devido às mudanças climáticas, doenças, pragas e desmatamento. O que enche nossas canecas nos bares, escritórios e viagens pertence a duas espécies: arábica e canephora, conhecida como robusta. O arábica faz cafés especiais e custa mais do que o robusta, que compõe cafés instantâneos e alguns tipos de expresso.

Apesar de toda a pompa em torno do arábica, o fato é que se trata de uma pequena semente extremamente homogênea. Quase todo o café arábica do mundo remonta a algumas plantas da Etiópia, local de nascimento do café, ou do Iêmen.

A adição de leite ou açúcar anula os benefícios?

Os médicos não sabem. Um estudo de 2015 descobriu que as pessoas que acrescentavam açúcar, creme ou leite tinham o mesmo benefício associado que as pessoas que preferiam café preto. Mas a indústria do café explodiu desde os anos 90, quando os mais velhos do estudo completaram sua história alimentar. 

“Antes, era só uma colher de sopa de creme ou leite e uma colher de chá de açúcar”, disse o principal autor do estudo, Loftfield, do Instituto Nacional do Câncer. “É muito diferente de algumas dessas bebidas que você vê no mercado hoje.”

Chás e cafés doces são a quarta maior fonte de açúcar nas dietas dos adultos, de acordo com uma pesquisa de outubro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O dado inclui bebidas tipo sobremesa, como a bebida de café com caramelo e coco cremoso da Dunkin, com 860 calorias, 17 gramas de gordura saturada e 129 gramas de açúcares totais. Os especialistas dizem que algumas dessas bebidas têm pouca semelhança com a xícara de café preto do passado, com 2 calorias, o que preocupa as autoridades de saúde.

“Quando você fala de uma bebida que tem muito açúcar e uma carga de gorduras prejudicial à saúde, não pode ser uma bebida saudável”, disse Jim Krieger, professor de medicina e serviços de saúde da Universidade de Washington. “Essa quantidade de açúcar, por si só, é astronômica segundo as atuais recomendações das Diretrizes Dietéticas dos Estados Unidos, que falam em 50 gramas de açúcar por dia”.

Devo começar a beber mais café?

Depende dos seus objetivos na vida. Se você estiver bebendo com moderação, os médicos dizem para você continuar e curtir seus goles. Quanto aos pacientes com sensibilidade à bebida, a gastroenterologista Sophie Balzora diz que os benefícios e riscos devem ser avaliados com muito cuidado. Professora de medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, ela compreende o significado cultural do café e recomenda leveza: “É crueldade arrancar o café das pessoas”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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