Sebastiao Moreira/EFE
Sebastiao Moreira/EFE

Cai número de mortes de pacientes com covid-19 gravemente enfermos

Números melhoraram com os avanços médicos, mas aumento recorde de infecções pode reverter os ganhos

Roni Caryn Rabin, The New York Times

29 de outubro de 2020 | 15h19

O novo coronavírus atingiu os Estados Unidos no início do ano com uma força arrasadora. Em abril, foram registradas mais de dez mil mortes na cidade de Nova York. Em maio, em todo o país, cerca de 50 mil pessoas em asilos e enfermeiros morreram. À medida que o vírus prosseguiu na sua devastação durante o verão e o outono, infectando 8,5 milhões de americanos, as taxas de sobrevivência, mesmo no caso de pacientes graves, pareciam diminuir. Num hospital de Nova York, onde 30% de pessoas com o novo coronavírus morreram em março, o número de mortes caiu para 3% no fim de junho. 

Médicos na Inglaterra observam uma tendência similar. “No fim de março, quatro a cada dez pessoas em unidades de terapia intensiva morriam. No fim de junho, a taxa de sobrevivência era de mais de 80% e parecia melhorar", disse John M. Dennis, pesquisador da faculdade de medicina da University of Exeter, o primeiro autor de um estudo sobre os índices de sobrevivência da covid-19 na Grã-Bretanha aceito para publicação na revista Critical Care Medicine.

Embora o vírus venha mudando lentamente à medida que se propaga, e alguns especialistas acham que se tornou mais facilmente transmissível, muitos cientistas afirmam que não existem evidências sólidas de que ele se tornou menos, ou mais, virulento. Como as pessoas idosas se protegeram em casa e adotaram precauções para evitar a infecção, o fato é que a maior parte dos hospitalizados tem sido de adultos mais jovens, geralmente mais saudáveis e mais resilientes. No fim de agosto, a idade média dos pacientes era de menos de 40 anos.

A queda no número de mortes ocorreu simplesmente em função das mudanças demográficas ou foi reflexo de uma melhora real e dos avanços médicos em termos de tratamentos que mitigaram o impacto do novo patógeno?

Pesquisadores do Langone Health, da universidade de Nova York, se concentraram nessa questão, analisando as condições de mais de cinco mil pacientes internados em três hospitais do sistema entre março e agosto e concluíram que a melhora foi real e não apenas em função da idade. Mesmo quando analisaram as diferenças em termos de raça, sexo e idade dos pacientes, problemas de comorbidades e gravidade dos sintomas da covid – como nível de oxigênio no momento da internação – verificaram que o número de mortes caiu significativamente para 7,6% em agosto, em comparação com 25,6% em março.

“A taxa ainda é alta, muito mais alta do que aquela que observamos no caso de gripes ou outras doenças respiratórias”, disse a Dra. Leora Horwitz, diretora do Langone’s Center for Healthcare Innovation & Delivery Science e autora do estudo publicado no Journal of Hospital Medicine. “Não quero dizer que isto é benigno. Mas de fato é algo que me dá esperança”.

Outros médicos concordam. “As taxas de mortalidade estão mais baixas agora”, disse o Dr. Robert A. Philips, autor de um estudo de pesquisa publicado no JAMA que comparou o primeiro e o segundo picos de pacientes de covid-19 em Houston. Mas, no seu estudo, ele enfatizou que a doença continua “não só dez vezes mais letal do que uma gripe grave, mas também gera complicações de longo prazo que não se verificam numa gripe”.

Síndrome pós-covid

Mas os estudos não avaliaram as consequências do que o médico chama de “síndrome pós-covid”, que deixa muitos pacientes com problemas respiratórios e neurológicos, complicações cardíacas e outras sequelas persistentes.

“É relativamente fácil medir a morte, mas isto não abrange todos os outros problemas de saúde”, disse o Dr. Preeti Malani, especialista em doenças infecciosas na Universidade de Michigan. Muitos pacientes em hospitais enfrentam uma recuperação penosa e longa, e às vezes, requerem cuidados de longo prazo, ao passo que aqueles cujos sintomas foram mais leves com frequência relatam problemas de saúde posteriores, como dores de cabeça, cansaço crônico ou problemas cognitivos. “Vai demorar muito tempo para compreendermos o espectro clínico pleno desta doença”.

O estudo da Inglaterra analisou as consequências da covid-19 no caso de 14.958 pacientes em estado crítico e internados em unidades de terapia intensiva entre primeiro de março e 30 de maio. Mesmo depois de ajustadas as diferenças em termos de idade, sexo, etnia e comorbidades, os autores concluíram que a taxa de sobrevivência melhorou em 10% a cada semana após o fim de março no caso daqueles pacientes internados em unidades de terapia intensiva e em estado crítico (o estudo inglês não se incluiu a gravidade da doença no momento da internação).

Uma combinação de fatores contribuiu para a melhora de pacientes hospitalizados, afirmam os autores dos dois estudos e outros especialistas. Como os médicos aprenderam como tratar a doença, incorporando o uso de esteroides e outras intervenções não ligadas a remédios, eles têm conseguido controlar melhor a enfermidade.

Os pesquisadores também creditam a melhora ao conhecimento maior da doença pela comunidade, com os pacientes buscando tratamento médico precocemente quando adoecem. Além disto, os hospitais estão menos lotados, com uma menor pressão sobre o corpo médico.

“Não temos uma cura mágica, mas temos muitas coisas que se somam”, disse a Dra. Horwitz. “Sabemos mais agora quando uma pessoa necessita de ventilador e quando não, e a que complicações devemos ficar atentos, como coágulos do sangue e falência dos rins. Entendemos como é preciso observar os níveis de oxigênio mesmo antes de os pacientes serem hospitalizados para que sejam internados mais cedo. E naturalmente agora se sabe que os esteróides são úteis e possivelmente outros medicamentos”.

Para os clínicos que vêm combatendo a doença, causada por um novo patógeno desconhecido antes de surgir em Wuhan, na China, no fim do ano passado, a curva de aprendizado foi abrupta. Os médicos trocaram informações e obtiveram insights de uma série de estudos compartilhados a uma velocidade sem precedentes, mas também ocorreram erros. No início, o foco foi no efeito da doença sobre os pulmões e o conhecimento do impacto letal sobre outros órgãos veio mais tarde.

No início, os médicos vinham colocando os pacientes em ventiladores mecânicos para ajudar a respiração; com o tempo aprenderam a posicionar os pacientes sobre o seu estômago e fornecer o oxigênio suplementar por meios menos invasivos, adiando ou descartando completamente o uso dos ventiladores o máximo possível.

Em meados de junho, ensaios clínicos na Inglaterra provaram que o tratamento com um esteroide barato, a dexametasona, reduzira em um terço as mortes de pacientes submetidos a ventiladores e aqueles recebendo oxigênio suplementar em um quinto. Mas as recomendações da China e Itália eram de “não usar de modo nenhum os esteroides, apesar de muitos de nós acharmos que seu uso tinha sentido”, disse a dra. Gita Lisker, médica na Northwell Health. “Acho que isto fez uma grande diferença. Mas quando começamos a usar em março, os dados e recomendações da China e da Itália eram no sentido de não usar os esteroides”.

Os médicos também não tinham consciência ainda de que a enfermidade causada pela covid-19 provocava coágulos sanguíneos mortais. Hoje, os pacientes são tratados com anticoagulantes já no início do tratamento, quando necessário.

Mas um outro problema no início foi o fato de os hospitais de regiões duramente atingidas como a cidade de Nova York ficarem sobrecarregados. Os médicos que não trabalhavam em áreas de tratamento intensivo foram escalados para cuidar de pacientes gravemente enfermos, havia uma escassez de enfermeiros e de equipamentos. “Tudo isto provocou uma onda esmagadora que afetou todo o sistema de saúde”, disse a dra. Gita Lisker.

“Sem dúvida, morrer ou viver em abril em parte tinha a ver com o hospital onde você se internava”, disse a médica, acrescentando que “a ideia de nivelar a curva significava evitar sobrecarregar os hospitais".

Especialistas médicos se preocupam de que o aumento de casos no país possa reverter ou reduzir esses ganhos. O número de pacientes de covid-19 hospitalizados aumentou 40% no mês passado e mais de 41 mil pessoas estão agora internadas nos Estados Unidos. Diretores de hospitais em Idaho, Utah e Kansas City já alertam que estão no limite da capacidade. Alguns deixaram de lado os ambulatórios e estão sendo forçados a transferir pacientes para hospitais de outros Estados.

“Se você comparar o número de pessoas que morrem em cada 100 casos diagnosticados nos Estados Unidos, esse número é significativamente menor do que tivemos no verão e muito menor do que nos meses de primavera”, disse Tom Iglesby, diretor do Center for Health Security na Johns Hopkins University.

Mas o médico acrescentou que não é totalmente certo que a redução no número de mortes continuará firme, diante do ressurgimento de uma grande quantidade de casos. “Se os hospitais que não estão preparados para receber um grande número de pacientes tiverem de enfrentar um grande fluxo de pessoas com a covid-19, a mortalidade deve aumentar, infelizmente. Este é um alerta”, afirmou.

Apesar de algumas pessoas especularem que o vírus hoje é menos virulento, especialistas dizem que não há evidências disto. A melhora observada no número de sobreviventes é “testemunho da assistência médica moderna”, disse o dr. Howard Markel, da Universidade de Michigan. “O vírus ainda é ardiloso e perigoso como antes. Apenas melhoramos a maneira de controlá-lo”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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