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Calor insuportável: ar-condicionado é fundamental em tempos de covid?

Normas sobre o uso de ar-condicionado publicadas pela Anvisa especificamente para Sars-CoV-2 abordam a necessidade da renovação de ar na maioria dos edifícios

Sergio Cimerman, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2020 | 15h00

Estamos vivenciando neste momento na maioria dos estados brasileiros uma onda de calor jamais vista nos últimos anos, superando temperaturas na casa dos 37-38 graus Celsius na média. Devido a este fator e em plena pandemia de covid-19 muitas dúvidas e incertezas na questão do uso de ar-condicionado em ambientes fechados surgem. Como sempre, comento: estamos a aprender com a covid-19 e é difícil dizer se as pessoas estão certas ou equivocadas. 

Creio que onde não se tenha a ciência aplicada de forma segura temos de caminhar para o bom senso. A indústria do ar-condicionado está em franca ascensão no mundo todo e não poderia ser diferente em nosso País. Perdemos apenas para Estados Unidos, Japão e China, países que concentram dois terços de todos os aparelhos segundo matéria da BBC Brasil em sua página de internet datada de 20 de setembro de 2020. 

Existem normas reguladoras sobre o uso de ar-condicionado publicadas pela Anvisa e especificamente para Sars-CoV-2 pela Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento) no mês de abril deste ano colocando a necessidade da renovação de ar como se encontra na maioria dos edifícios de escritórios. Um sistema de pressão negativa para permitir a tomada de ar exterior e também do retorno de ar dos ambientes. É um documento técnico que pode ser compreendido por não especialistas com o tom de auxiliar na melhor solução para cada situação.

Na mesma matéria da BBC um especialista comenta a questão dos aparelhos do tipo "minisplit" que não apresentam a recirculação de ar podendo ser um problema caso se tenha alguém infectado com a covid-19. Uma solução caseira remonta para a abertura de janelas e portas para circular este ar em partes do dia. Me parece bem ponderado e tenho adotado esta linha até que estudos científicos claros revelem dados diferentes.

Em shoppings, eles se valem de sistema de ar central no qual existe a renovação de ar, trazendo uma maior segurança a todos e, nos aviões, há o filtro Hepa, que já foi amplamente falado em coluna nossa aqui no Estadão.  Creio que devemos ter cuidado ao entrar em elevador, por exemplo. Ambiente fechado, pequeno e que as pessoas não acabam por respeitar o devido distanciamento. Uma dica: não fale ao celular, não fale com quem estiver dentro. Funciona. 

Outro ponto que gostaria de trazer a discussão: os restaurantes. Estão a seguir normas e protocolos pensando no bem-estar do cliente. Mas atentar ao ar-condicionado é fundamental. Pensar em reciclar o ar e realizar a manutenção mensal dos aparelhos me parece coerente. Somos todos sabedores de que foi em um restaurante na China onde ocorreu transmissão logo no início da pandemia: caso clássico e publicado. 

Mas agora temos mais informações e mais cuidados. Um ponto que poderia melhorar mais ainda seria permanecer com máscara à mesa o tempo todo, até a refeição chegar. Prudente e correto. Não temos observado isto em nenhum momento. Quando as pessoas chegam à mesa já retiram a máscara sendo só recolocada na ida ao sanitário ou para sair do estabelecimento. Vamos repensar esta atitude. Fica a dica para os frequentadores e donos de restaurantes.

Outro ponto a se discutir e aqui em bares é a possibilidade de retirar a música. Muitas vezes, por conta do alto volume, as pessoas falam mais alto e expelem mais gotículas pela boca. 

Neste momento estamos próximos das eleições municipais. Debates devem existir e creio ser salutar para que a população possa escolher seu candidato. Porem, temos de fazer esses encontros preferencialmente em espaços abertos e com poucas pessoas. Geralmente se envolvem nos debates assessores dos candidatos, jornalistas e plateia. Creio que deva se pensar um número aceitável, seguindo todas as regras e protocolos, não esquecendo que entre os candidatos uma barreira de acrílico ou vidro - como foi verificado no debate americano entre os candidatos a vice-presidência - seria importante. Me parece que o modelo utilizado por eles tenha sido adequado e correto. 

Vejam que vamos nos ajustando aos poucos. Estamos em declínio do número de casos e óbitos no Brasil. Não podemos suspender as regras preventivas. Atentem para o que ocorre hoje na França e Espanha, uma nova onda de casos e mortes que poderiam ser evitadas. As pessoas cansaram de ficar confinadas, de usar máscara, de não ter relacionamento social. Agora estão passando por esta nova fase. Esta será uma doença que nos acompanhará por longos anos e, sem dúvida e cada vez mais convencido, de que a vacina poderá ser uma ajuda incomensurável na diminuição de casos ou pelo menos para garantir a não evolução para severidade necessitando de UTI. Estamos próximos deste objetivo. Vamos com serenidade manter as medidas preventivas para nos cuidar e cuidar dos outros.

*É COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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