WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Caminho mais rápido para vacina contra o coronavírus pode custar vidas

É tentador acelerar o desenvolvimento de uma vacina durante uma pandemia, mas há boas razões para nos atermos aos critérios científicos

Tim Lahey, The New York Times

17 de abril de 2020 | 15h02

No desespero para salvar vidas nesta pandemia do novo coronavírus, já começamos a flexibilizar os critérios científicos esperando encontrar um tratamento sem ter provas de que ele funcione. Bioeticistas propuseram testes arriscados com humanos que expõem os voluntários ao vírus com o fim de acelerar o desenvolvimento de uma vacina. O governo Trump já permitiu que uma fabricante de vacinas deixe de lado as exigências usuais de testes com animais antes de a vacina, não comprovada, ser aplicada em voluntários humanos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) financiou um experimento de novas terapias que alarmantemente não têm nenhum controle com placebo. Naturalmente, o uso experimental e potencialmente arriscado da hidroxicloroquina em pacientes com a covid-19 já tem aprovação presidencial e vem se tornando comum nos hospitais americanos.

O próximo atalho científico a seguir é claro. Autores importantes da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations escreveram artigo na revista The New England Journal of Medicine afirmando que “numa situação de altas taxas de mortalidade, as populações podem não aceitar testes randomizados, com grupos placebo”. Embora testes com múltiplas vacinas possam ser uma solução, uma outra seria eliminar o placebo, afirmaram.

Esta não seria a primeira vez que médicos tiveram a chance de uma vacina não comprovada em escala gigantesca. Mais de 500 mil alunos de escolas americanas receberam uma vacina experimental contra a poliomielite que jamais foi submetida ao atual padrão ouro de testes clínicos randomizados, controlados por placebo. Isto ocorreu em 1954 e crianças em todo o país estavam perdendo a capacidade de andar. Ou respirar. Tratou-se de uma emergência e a fé na engenhosidade americana era grande. Felizmente, a vacina contra a pólio surtiu efeito.

Sessenta anos depois, as expectativas da população quanto ao nível de evidência científica requerido para se usar vacinas e outros tratamentos aumentaram. Mas então a epidemia de ebola irrompeu na África Ocidental. Pessoas morriam em grande número, e a infraestrutura de saúde local estava em frangalhos.

Investigadores encontraram uma candidata a vacina, não comprovada, nas sombras da obscuridade científica chamada rVSV-ZEBOV e a testaram em milhares de humanos voluntários expostos ao ebola. Não havia nenhum grupo de controle submetido a placebo porque algumas pessoas achavam que o desespero tornava o placebo antiético.

No final a vacina contra o ebola funcionou. Voluntários que receberam a vacina experimental logo demonstraram menor risco de contrair a doença do que os que a receberam mais tarde. Não havia nenhum grupo de controle de placebo já que não era possível.

Com o número de mortes pela covid-19 aumentando, será tentador apostar em mais uma vacina não comprovada. Mas existem razões potencialmente fatais para não seguirmos esse caminho.

Vacinas não comprovadas implicam riscos reais. A vacina contra a febre suína em 1976 estava ligada a uma doença neurológica paralítica rara chamada síndrome Guillain-Barré, e possivelmente alimentou a desconfiança das vacinas que persiste até hoje. Um novo ensaio no caso da Aids foi interrompido cedo porque alguns receptores tiveram mais probabilidade de serem infectados do que os do grupo de placebo.

Em ensaios de uma vacina contra o vírus sincicial respiratório, crianças que receberam a vacina experimentaram uma intensificação da doença que em alguns casos levou a mortes. Em cada caso, a resposta imunológica estimulada pela vacina experimental foi provavelmente mais prejudicial do que útil.

Há uma boa razão para nos preocuparmos com uma vacina contra o coronavírus que também pode provocar respostas imunológicas danosas. É sabido que primos felinos do coronavírus que causa a covid-19 geram respostas imunológicas que agravam a infecção.

Uma vacina que provoque respostas imunológicas não saudáveis e transforme as pessoas com um quadro leve de covid-19 em pacientes que não conseguem mais respirar seria catastrófica. As unidades de tratamento intensivo já sobrecarregadas ficarão esmagadas e a fé pública abalada em vacinas já testadas e comprovadas certamente será corroída também.

Admiro os corajosos voluntários que já receberam vacinas experimentais contra o coronavírus. Como médicos e enfermeiros, esses voluntários são heróis que colocam sua segurança em risco por todos nós. Se tiver esta oportunidade, espero ter a mesma coragem.

Para honrar seu sacrifício, e manter todos os a salvo, os cientistas precisam realizar amplos testes com uma vacina contra o coronavírus controlada por placebos. Daqui a décadas, quando nos lembrarmos da era da covid-19, sentiremos orgulho da nossa coragem e nossa solidariedade. Contaremos histórias de inovação e da nossa mobilização, não para a guerra, mas para o bem. Espero também que relembraremos que encontramos nosso caminho na escuridão através da ciência na qual as pessoas podem confiar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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