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Caminhos da comunicação

A comunicação é uma questão central na vida dentro do espectro autista, e pode ser feita incluindo frases prontas, vidas de desenhos, ditados ou filmes

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2022 | 03h00

Desde criança, repeti frases inteiras de desenhos e filmes. Do “E lá vamos nós”, da bruxa do Pica-Pau tentando fazer a vassoura voar, a “Goonies never say die”, do filme Os Goonies (1985), elas apareciam para se encaixar nas conversas. Essas memórias de falas que nunca saíram da minha cabeça brotaram junto com lágrimas ao assistir Life, Animated, documentário estadunidense de 2016, disponível em serviços de streaming fora do Brasil.

A comunicação é uma questão central na vida dentro do espectro autista, em todas as fases do desenvolvimento. Além das crianças e adultos não verbais, há situações de “fala não funcional”, com o uso de frases prontas, vindas de ditados, televisão, filmes e animes na intenção de traduzir o que se sente, mesmo não havendo clareza exata do que se quer transmitir. 

Uma das situações mais desafiadoras para pais e mães de crianças com ou sem transtornos é o embate entre a necessidade de falar e o não conseguir fazer como se quer, através de formas de comunicar que não sejam só choro ou levando a pessoa até o que ela deseja. Normalmente, ao não saber como entrar na conversa, a criança insiste em chamar a atenção, e essa atenção pode ser cobrada na forma de agressividade, gritos e hiperatividade, ou no campo oposto, ausência de contato, nas crianças e jovens que estão no campo da neuroatipia.

Ron Suskind escreveu em 2014 Alcançando meu filho autista através da Disney, como artigo para o The New York Times. O artigo virou livro e, depois, o documentário Life, Animated. Acompanhamos por imagens caseiras seu filho Owen, que aos 3 anos teve uma piora significativa na coordenação motora e de linguagem. Veio o diagnóstico de autismo, ainda nos anos 90. Depois do desalento, a família percebe que os desenhos da Disney permitiam uma comunicação com o garoto. Por meio das histórias, Owen acessa e organiza suas emoções, ajudando a traduzi-las. 

Como o pai, jornalista, filmava os filhos desde pequenos, é possível acompanhar Owen até o tempo presente: aos 23 anos, Owen se prepara para morar sozinho. O uso das sequências dos desenhos cedidas pela Disney, permite vê-las “em ação” nas falas e situações cotidianas.

Life, Animated não esconde as dificuldades, e mostra caminhos para o desenvolvimento daqueles dentro do espectro e de outros transtornos. Hoje existem técnicas de comunicação aumentativa e complementar, tecnologias assistidas, e espaço para respeito a esse modo de comunicar. Aqui o tempo de troca na conversa é outro, e há de se ter tranquilidade para entender, e com isso sair voando junto. Como dizia a bruxa do Pica-Pau, “E lá vamos nós”.

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