Campanha por doação de órgãos gera críticas

Associação de transplantes de órgãos admite alterar peça publicitária que simulou recall de córneas após reclamação de conselho de oftalmologia

Bruno Deiro,

09 Agosto 2012 | 22h30

A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) promete alterar uma campanha publicitária de incentivo à doação que simula um “recall” de córneas de pessoas nascidas entre 1988 e 2010. Publicado nesta quinta-feira, 9, em jornal de grande circulação nacional, o anúncio é alvo de críticas do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

Produzido pela agência Leo Burnett Tailor Made, a peça publicitária traz o título “Comunicado Urgente de Recall aos proprietários de córneas” e simula a convocação para a substituição do órgão, sob alegação de que correria o risco de desenvolver uma doença chamada ceratocone – enfermidade grave e real que, como explica o texto, pode até levar à cegueira.

 

“Constatada a necessidade de substituição da córnea, os serviços serão realizados em, aproximadamente, 7 dias úteis”, diz a peça. Apenas na parte de baixo, em letras pequenas, a brincadeira fica mais clara, com a mensagem: “Não é tão simples assim substituir um órgão doente.”

Mesmo sem uma reclamação formal da entidade de oftalmologia, a ABTO admite fazer alterações na peça. “Realmente constatamos que os elementos podem confundir um pouco leitor. Fizemos uma analogia com a indústria automobilística para incentivar a doação de órgãos”, explicou o presidente da APTO, José Osmar Medina Pestana. “A intenção era mostrar que substituir um órgão não é o mesmo que trocar peças de um carro.”

O dirigente garante, no entanto, que a entidade não recebeu nenhuma reclamação por parte dos leitores.

Para Paulo Augusto de Arruda Melo, membro do CBO e da câmara técnica de doação de órgãos do Ministério da Saúde, o efeito pode ser contrário ao desejado. “Esse anúncio mais afasta que traz doadores. Traz uma imagem negativa e dá a impressão de que o transplante pode dar errado”, afirma o oftalmologista.

Segundo ele, a brincadeira não fica óbvia para o público em geral. “Claro que nunca se viu recall na área de saúde e muito menos é utilizado o termo ‘proprietário’ para um paciente. Mas, mesmo assim, é uma forma estranha de anúncio, porque confunde elementos reais”, diz Arruda Melo. “Imagine o susto em pessoas nesta faixa etária que tenham passado por transplante de córnea, por exemplo.”

Redes sociais. No início do mês, declarar-se como doador de órgãos passou a ser uma opção para os usuários de redes sociais. Em parceria com o Facebook, o Ministério da Saúde criou um serviço que permite que os usuários do site de relacionamentos manifestem o desejo de ser doador e convidem seus contatos a fazerem o mesmo.

A informação pode ser adicionada à linha do tempo e agregada ao perfil de cada usuário. Ao contrário dos EUA, onde a manifestação ampliou o número de doadores, a declaração não tem valor legal no Brasil, pois a doação no País só é permitida com o aval dos parentes da pessoa falecida.

 

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