Câncer medular pode ser diagnosticado em exame de sangue

Três dos quatro integrantes da família Teixeira não têm a tireóide, glândula que regula o metabolismo. Eles nunca tiveram câncer, mas receberam a indicação médica de retirar a glândula como forma de prevenir a doença. O mecânico Sérgio Luis Teixeira, de 39 anos, os filhos André, de 14, e Ana Carolina, de 19, carregam uma mutação genética que os predispõe ao câncer medular, o único entre os quatro tipos de câncer na tireóide que pode ser detectado preventivamente. André teve a tireóide retirada aos 7 anos e Ana, aos 12. Daniela, a caçula, escapou. Casos assim têm sido cada vez mais comuns no Brasil. Não por causa do crescimento do número de casos, mas pela recente facilidade de diagnosticar a doença. Ela passou a poder ser detectada com um exame de sangue. O laboratório Fleury começou a oferecer o exame há apenas um mês e já realizou cinco. Cada um custa R$ 960 - e não é coberto pelo SUS, nem por planos de saúde. O Delbone Auriemo vem fazendo cerca de dez exames por mês, a R$ 1 mil, há pouco mais de um ano. O teste detecta uma mutação no gene RET, que é característica do câncer medular. A mutação é hereditária. O Hospital das Clínicas, um dos pioneiros, faz o exame genético há três anos. ?Desde que começamos com o teste, o número de cirurgias para retirada da tireóide cresceu 40%?, diz Sérgio Toledo, da Unidade de Endocrinologia Genética do HC. Antes de o exame chegar ao País, pouquíssimos centros faziam a cirurgia profilática. ?Tínhamos de mandar o exame para os Estados Unidos, os resultados demoravam meses para chegar e o paciente acabava desistindo?, diz Luiz Paulo Kowalski, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital do Câncer, em São Paulo. ?Outra maneira era analisar o nível do hormônio calcitonina no sangue (no câncer medular, a tireóide produz quantidades excessivas desse hormônio). Mas a margem de erro era alta, de cerca de 5%.? O teste genético, segundo Toledo do HC, tem 0,2% de chance de erro. Os resultados ficam prontos em poucas semanas. O câncer de tireóide é o 8º tipo de câncer mais comum no Brasil, com cerca de 25 mil novos casos por ano. O câncer medular representa 10% desse total. ?A transmissão da mutação é feita só entre parentes de primeiro grau?, explica Toledo. Essa possibilidade é alta: 50%. Isso significa que filhos, pais e irmãos de quem sofre da mutação têm 50% de chance de ter o câncer medular. Reposição Hormonal - A retirada profilática da tireóide virou consenso internacional há pouco tempo. ?Em 2001, a Associação Americana de Tireóide determinou que a idade padrão ideal para se fazer a cirurgia profilática é a partir dos 5 anos?, conta Toledo. ?Mas somos autorizados a fazer a cirurgia em pacientes com menos de um ano?, complementa Márcio Abrahão, cirurgião da cabeça e pescoço da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Todas as pessoas que carregam a mutação genética desenvolvem o câncer em algum momento da vida. Um dos subtipos do câncer medular, o chamado familiar, é mais freqüente aos 20, 30 anos. O medular esporádico, aos 50. Nenhum deles, porém, apresenta risco total de morte. ?Cerca de 70% dos que têm câncer medular sobrevivem?, explica Kowalski. Mesmo assim, a cirurgia vale a pena. ?Se a operação for feita antes do aparecimento da doença, a chance de sobrevida passa de 70% para 100%, além de poupar a pessoa dos transtornos da doença.? Uma das características do câncer medular é a baixa resposta à quimioterapia. A cirurgia é complicada e dura, em média, 7 horas. Livre da glândula, o paciente se torna totalmente dependente da reposição de um dos hormônios produzidos pela tireóide, o T4. Como a dosagem padrão varia de acordo com a idade e o peso, a pessoa tem de ter acompanhamento médico e fazer exames regulares de sangue e ultra-sons por toda a vida. Apesar dessas dificuldades, os médicos são unânimes em afirmar que a vida é absolutamente normal com a reposição hormonal. O mecânico Teixeira conta que o máximo que sente é ?uma irritaçãozinha de vez em quando?. ?Mas sou um cara de sorte. Fiz a cirurgia com 32 anos, antes de ter a doença?, diz. ?Só senti um baque no momento em que disseram que eu e meus filhos teríamos que operar. Mas quando vi no hospital um monte de gente com câncer em estado avançado, pensei que não queria passar por aquilo. Expliquei para meus filhos sobre a operação e os remédios que teriam que tomar por toda a vida. Só não consegui contar ainda sobre o risco que eles correriam se não tivessem feito a cirurgia.?

Agencia Estado,

29 de maio de 2006 | 09h25

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