REUTERS/CDC/Cynthia Goldsmith
REUTERS/CDC/Cynthia Goldsmith

Candidata a vacina contra zika mostra eficácia em camundongos

Cientistas americanos utilizaram trechos do código genético do vírus e também conseguiram imunizar macacos; pesquisa foi publicada na Nature

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2017 | 19h29

Com a aplicação de uma só dose, uma nova candidata a vacina contra o vírus da zika foi capaz de tornar camundongos e macacos imunes à infecção em testes pré-clínicos, de acordo com um novo estudo publicado nesta quinta-feira, 2, por pesquisadores americanos, na revista científica Nature.

A nova vacina foi desenvolvida por um grupo liderado por cientistas da Universidade da Pensilvânia, da Universidade Duke e do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês) - todos dos Estados Unidos.

"Observamos uma imunidade rápida e durável, sem efeitos adversos. Acreditamos que essa candidata a vacina represente uma estratégia promissora para a luta global contra o vírus da zika. Esperamos iniciar os testes clínicos dentro de 12 a 18 meses", disse um dos autores do estudo, Drew Weissman.

Depois das recentes epidemias de zika na América Latina e em partes dos Estados Unidos, pesquisadores de todo o mundo têm trabalhado intensamente para desenvolver candidatas a vacinas - e várias já foram testadas em animais. 

Segundo os autores do estudo da Nature, a nova vacina é a primeira a proporcionar uma proteção tão potente e duradoura sem utilizar o vírus vivo. "A diferença crítica entre a nossa vacina e as outras é que ela não utiliza o vírus vivo. Isso faz com que ela seja muito mais segura e muito mais fácil de produzir", declarou Weissman.

Em vez de utilizar o vírus vivo, o grupo coordenado por Weissman utilizou pequenos pedaços específicos de RNA - o código genético do vírus - que comandam produção de duas proteínas importantes para que o vírus consiga aderir às células e infectá-las: a proteína pré-membrana (prM) e a proteína do envelope externo do vírus (Env). 

O RNA utilizado pelos cientistas foi modificado para passar despercebido pelo sistema imune do animal ou paciente. Ao ser injetado nos animais, ele penetra em suas células e as induz a produzirem as proteínas virais, desencadeando assim a reação do organismo do paciente contra o vírus.

Em junho de 2016, um grupo de cientistas brasileiros e americanos já havia testado, com sucesso, uma vacina experimental de RNA contra o zika, utilizando as proteínas prM e Env. Na época, o coordenador da pesquisa no Brasil, Paolo Zanotto, da Universidade de São Paulo (USP), disse ao Estado que a vacina forneceu 100% de proteção aos camundongos que, depois de vacinados, foram infectados e não apresentaram a presença do vírus no organismo, indicando que a infecção não progrediu.

No novo estudo, coordenado por Weissman, os cientistas utilizaram uma única injeção da vacina em camundongos - contendo 30 milionésimos de grama dos fragmentos de RNA - e conseguiram assim induzir os organismos dos animais a produzir uma rápida resposta imune. 

Duas semanas mais tarde, os cientistas injetaram o vírus da zika nas veias dos camundongos, que se mostraram protegidos: alguns dias após a infecção, os animais não tinham qualquer traço detectável do vírus na corrente sanguínea. A mesma proteção foi alcançada em camundongos que foram expostos à zika cinco meses após a vacinação.

Os testes em macacos também revelaram que uma única dose de 50 microgramas forneceu forte proteção contra a exposição à zika cinco semanas mais tarde. Em ambos os casos, os testes de neutralização do vírus indicaram que a vacina induziu à produção de altos níveis de anticorpos que bloqueiam a infecção. A concentração de anticorpos atingiu um pico algumas semanas após a vacinação, mas, depois, permaneceu alta o suficiente para continuar oferecendo proteção.

"Nosso trabalho, até agora, sugere que essa nova estratégia de vacina induz a níveis de neutralização do vírus 25 vezes maiores, depois de uma única dose, em comparação às vacinas convencionais", disse Weissman.

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