Pedro Kirilos/ Estadão
Pedro Kirilos/ Estadão

Cansada da solidão maternal, Thaiz Leão criou perfil para acolher mães solo

'Por mim, eu brigo. E a @a_maesolo tem essa linguagem que fala no volume certo. Ela é uma contadora de histórias sobre todas as maternidades', conta ela

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2022 | 05h00

Eu me sentia mãe por estar grávida. Mas não me sentia igual às outras mães. Em todos os lugares eu era a mãe sem marido, a mulher de um filho sem pai. E meu rótulo era um nome composto: mãe solteira.” Assim começa o livro O Exército de uma Mulher Só, escrito pela designer Thaiz Leão.

Aos 23 anos, ela teve uma gravidez não planejada e dedicou grande parte da sua personalidade indagadora para a maternidade. “Eu tenho uma fórmula originária minha que é de contestar. Sempre me falaram para ser comportada, mais magra, usar o cabelo de um jeito. Mas a partir de então, essas imposições não feriam só a mim – o que já é muita coisa –, mas sim ao meu filho e à instituição que a gente tem, que é a família”, conta ela durante uma entrevista de vídeo ao Estadão.

Para Thaiz Leão, ser mãe nunca foi um sonho. Pelo contrário: “Sempre tive pânico de engravidar”, afirma. Apesar disso, aos 23 anos, ela descobriu estar esperando Vicente, hoje com 8 anos. 

E tal fato, que aconteceu por acidente e sem a presença de um pai, transformou completamente sua vida – pessoal, social e profissional. “Parece que todo mundo tem um roteiro com expectativas do que tem que ser. E quando eu cheguei à maternidade de um jeito que é real, que não correspondia a esse jeito criado e esperado pelos outros, parecia que faltava um casamento, faltava um homem”, lembra.

Se por um lado alguns a condenavam, outros a enchiam de elogios por ser forte o suficiente para cuidar do filho sozinha: “guerreira”, “supermãe”, “pãe” (junção de pai e mãe). No entanto, com o passar do tempo e enfrentando a falta de uma figura paterna para seu filho e as críticas da sociedade, Thaiz percebeu que os elogios escondiam, indiretamente, a imposição de uma responsabilidade unicamente materna para com o filho. E decidiu falar sobre isso online em 2014, com o perfil Mãe Solo.

“No início, eu só estava muito brava. Era enfática: eu não vou assumir essa culpa e não quero que outras mulheres assumam. Eu quero discutir a maternidade real”, diz.

A iniciativa atraiu outras mães para o debate – hoje, só no Instagram ela tem mais de 50 mil seguidores. “Foi um processo de digestão para mim mesma, enquanto eu entendia que estava maravilhada em ser mãe da minha criança. Mas, ao mesmo tempo, absolutamente perdida em ser mãe dela.” 

Os relatos recebidos pelas outras mães no perfil ajudaram Mãe Solo a abranger todas as nuances da maternidades e encontrar uma voz que acolhe. Ela percebeu que apenas suas vivências não eram suficientes para tratar do tema de forma abrangente. Por isso, hoje, a Mãe Solo se tornou uma personagem, que reflete também experiências de outras mulheres. 

“Só a minha maternidade não alcança. É sobre a minha e mais todas as que eu tenho acesso”, conta. “Eu por eu mesma, eu brigo. Mas ela tem essa linguagem que fala no volume certo e alcança muito mais gente do que eu. E é muito legal ver o meu negócio fazendo sentido e fazendo as pessoas refletirem.” 

PROCESSO

Designer por formação, “provoc’autora” por definição. É assim que Thaiz se autodenomina. “A ideia de trabalhar com design é de me aperfeiçoar em técnicas de dizer coisas. Essa é uma vocação da minha vida e uma ética do meu trabalho”, afirma. 

A personalidade contestadora vem da infância, quando Thaiz não se reconhecia nas primas, mas era proibida de brincar com os primos por ser “coisa de menino”. “Por muito tempo eu fiquei me perguntando: ‘por que eu não consigo? Por que eu tô errada? Por que é errado meu ser?’. E essas questões me atravessavam e me machucavam muito”, divide. Depois de tantas lutas com pais, irmãos, professores e chefes, quando Vicente nasceu, ela se viu em mais uma batalha – que era somente dela.

“Eu não me alistei para guerra alguma, nem queria brigar, mas eu entendi que para viver uma maternidade sem violência eu tinha de lutar pela possibilidade de ser a mãe que eu quero ser”, afirma ela que, hoje, além dos canais da Mãe Solo, já escreveu dois livros sobre maternidade, trabalha na Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente na Câmara Municipal do Rio de Janeiro; é cocriadora do projeto Segura a Curva das Mães e fundou a ONG Instituto Casa Mãe.

“Eu sinto, hoje, que existe um lugar de esperança sobre mudar a maternidade no Brasil. Ainda não é um lugar confortável. Mas a gente está executando um plano, pelo menos. Quando eu nasci, nem um plano tinha”, conta.

Para ela, mais do que criar espaços saudáveis para as mães, é preciso garantir dignidade para elas. O que significa proporcionar escutas empáticas, sem culpas, e garantir saúde mental e bem-estar. “Que a nossa luta seja sobre nos aproximar do que a gente ama, e não sobre sobreviver àquilo que nos aniquila.”

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