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Canto da sereia

Campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez na adolescência baseadas na promoção de abstinência simplesmente não funcionam

Daniel Martins de Barros, colunista

16 de dezembro de 2019 | 09h35

Todo mundo tem uma tentação que vez por outra desafia aquela autoimagem de gente controlada e racional que gostamos de cultivar. Bolo de chocolate, cigarro, café, jogo, compras, infração de trânsito, infidelidade conjugal, álcool. Cada um sabe o demônio que ameaça a sensação de estarmos no controle. Ulisses, por exemplo, sabia que o canto das sereias era sedutor a ponto de fazer os marinheiros se lançarem do navio para a morte. Prudente, optou por não acreditar em sua força de vontade e mandou que a tripulação o amarrasse ao mastro, desobedecendo qualquer ordem posterior para soltá-lo quando ouvisse a doce e fatal cantoria.

Essa imagem mitológica é sempre lembrada quando se fala em situações de autocontrole. Um erro muito frequente que cometemos é minimizar o impacto das tentações e maximizar nossa capacidade de fazer nossa determinação sobrepujar o desejo. Ulisses poderia tentar se colocar acima de suas emoções - ele era um herói, afinal de contas. Mas seu heroísmo se revelou mesmo na coragem de admitir sua fraqueza, permitindo que sobrevivesse onde tantos outros haviam perecido.

Quantas vezes não compramos chocolate prometendo para nós mesmos que comeremos um pedacinho por dia, só para ver a barra toda desaparecer no mesmo dia. O apelo do doce funciona como o canto da sereia e por vezes é irresistível - a melhor maneira de controlar a dieta é gerenciar as compras e criar uma despensa saudável. É o equivalente a se amarrar ao mastro.

Esse planejamento é dificultado pelo fato de que quando estamos tranquilos nós somos muito mais racionais do que quando estamos sob efeito de alguma emoção. Mas mesmo com essa racionalidade toda não temos capacidade de antecipar de forma precisa qual será nosso comportamento no calor da hora. De cabeça quente somos outra pessoa - e uma pessoa desconhecida.

Nada comprova melhor essa lacuna do que um experimento sobre atitudes sexuais feito com rapazes heterossexuais. Os cientistas aplicaram questionários com perguntas delicadas, como se eles encorajariam uma garota a beber para aumentar as chances de fazer sexo ou se fariam sexo desprotegido mesmo sem conhecer o histórico da parceira. De cabeça fria a maioria das respostas era como o esperado - não se deve embriagar a moça, devemos sempre usar preservativo, etc. Mas o experimento não parava por aí. Diante de vídeos eróticos os voluntários deveriam se excitar até quase chegar ao orgasmo e então responder novamente as perguntas. As opiniões mudavam bastante: a ponto de explodir quase ninguém ainda dava importância para o preservativo e a maioria não via tanto problema em estimular a moça a beber.

Quando a coisa esquenta nós nos transformamos. Por isso que campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez na adolescência baseadas na promoção de abstinência simplesmente não funcionam. Os jovens podem jurar por Deus, fazer promessas, firmar propósitos - e fazer tudo isso de forma sincera. Quando o grito dos hormônios se fizer ouvir, no entanto, serão outros jovens que estarão ali. Na prática é como se uma pessoa fizesse uma promessa para outra - que não concorda - cumprir. Mas isso ainda não é o pior. Um estudo feito com milhares de jovens norte-americanas mostrou que aquelas que fizeram juramento de se manter abstinente de sexo tinham mais risco de contraírem HPV e quase o dobro de chance de gravidez indesejada. Provavelmente, por achar que seriam mais fortes do que eram, elas não estavam preparadas para se proteger na hora que a tentação vencia. Eram pegas desprevenidas ao se verem fazendo algo que acreditavam ser capazes de não fazer.

Não que seja impossível sustentar a abstinência. Sempre haverá um ou outro que consiga. Mas as evidências mostram que fazer disso uma política de saúde, como parece ser a intenção da ministra Damares Alves, que promoveu um seminário sobre abstinência sexual na adolescência, não é apenas ineficaz, mas altamente irresponsável. A não ser que a preocupação seja maior com sustentar uma bandeira do que com a proteção das adolescentes. Pois para defender opiniões ninguém precisa de fatos.

*DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA

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